Entrevista 2 – René Berthier – 29 de jan de 2019
Tradução: Leonardo Brito

Revisão: IEL

“(…) o sindicalismo revolucionário não foi a criação de um único autor ou mesmo de um grupo de autores. Apesar do “ismo” que lhe confere um ar teórico, o sindicalismo revolucionário foi originalmente o nome dado a um movimento, e não a uma teoria pré-concebida da sociedade. Assim, líderes sindicais revolucionários, como Victor Griffuelhes (secretário da C.G.T.), Émile Pouget (editor do jornal sindical A Voz do Povo) e Georges Yvetot (líder da seção do conselho de Trabalho da C.G.T.) estavam mais interessados em ‘dar expressão à prática do sindicalismo revolucionário à medida que evoluiu’ na luta diária para melhorar a vida dos trabalhadores, do que ‘construir um arcabouço teórico no qual ele pudesse se conformar’. Nesta perspectiva, dizia-se, o sindicalismo revolucionário não era um conjunto artificial de doutrinas impostas à classe trabalhadora, mas uma teoria aberta em constante desenvolvimento, cuja formação surgiu como resultado da experiência da luta em si (…)”.

Ralph Darlington,

Radical Unionism. The Rise and Fall of Revolutionary Syndicalism.

Haymarket Books, Chicago, Illinois, p. 17.

1. — IEL: Em que contexto político e social o sindicalismo revolucionário teria surgido na França?

René Berthier: A questão me parece relevante em sua formulação, porque fala da “emergência” do sindicalismo revolucionário, que implica um processo que ocorre ao longo do tempo, excluindo a tentação de definir artificialmente uma data, como alguns autores fazem. Alguns falando de 1860 ou 1870[i], ou seja, o período da A.I.T., outros falando de 1895, ou seja, a fundação da C.G.T.[ii]. Não há dúvida de que o sindicalismo, como entendido pela corrente federalista da A.I.T. e por Bakunin, apresentou analogias com o que mais tarde será o sindicalismo revolucionário, mas designar a A.I.T. como o local e o momento específico da fundação do sindicalismo revolucionário não corresponde à realidade histórica e não é de grande interesse.

O último terço do século XIX viu as consequências de uma crise causada pela Guerra Civil nos Estados Unidos, que desencadeou uma reação em cadeia global. Em 1873, um colapso financeiro causou estagnação por cerca de trinta anos, o que seria compensado pelas conquistas coloniais, pela concentração de grandes empresas e pela absorção ou desaparecimento de pequenas empresas. Os pesados tributos de guerra pagos pela França, a título de indenização, para a Alemanha retardaram a recuperação dos investimentos no país. A concentração de empresas levou a uma concentração da força de trabalho em fábricas cada vez maiores. As oficinas de artesanato foram afetadas e muitos pequenos chefes se proletarizaram. Os pequenos camponeses, cujas fazendas eram as mais frágeis, foram contratados nas cidades.

Inicialmente, o sindicalismo revolucionário organizou trabalhadores qualificados a partir de oficinas de artesanato e de pequenas mecânicas. Ele também operou as mais diversas movimentações nos complexos e nas fábricas, entre os trabalhadores da terra e, no caso da Itália, entre os trabalhadores agrícolas e os mineiros. Por volta de 1910, o sindicalismo revolucionário conseguiu se adaptar à reestruturação industrial adotando o sindicalismo industrial que organizava os trabalhadores não pela profissão, mas pela fábrica e pelo ramo industrial. Operários qualificados, especialmente da mecânica e da indústria pesada, tornaram-se a ponta de lança desse sindicalismo de combate. Esse desenvolvimento foi particularmente notável na Itália, Catalunha, Estados Unidos e, na década de 1920, na Argentina.

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No dia seguinte ao esmagamento da comuna de Paris, Adolphe Thiers, chefe do governo da nova República, telegrafou para representantes do governo nas províncias: “O chão está cheio de cadáveres; esse terrível espetáculo servirá de lição”.[iii] Assim, ecoou o terrível terror experimentado pela burguesia francesa durante a insurreição, definindo o tom da repressão que irá se abater sobre o movimento operário. Mas o exército e a polícia não foram os únicos atores da repressão: uma vez que o exército de Versalhes entrou na capital, os partidários parisienses de Thiers participaram ativamente na caça aos communards. Os “bons cidadãos” fizeram maravilhas: 400.000 cartas de denúncia, a maioria delas anônimas, foram enviadas às autoridades. Podemos, dessa forma, entender a oposição que mais tarde o sindicalismo revolucionário desenvolverá em relação ao exército, à polícia e aos “bons cidadãos”.

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No entanto, o proletariado francês imediatamente começou a se reorganizar, apesar da lei de Dufaure, aprovada em 14 de março de 1872, que punia severamente a afiliação à Internacional. De fato, a República era muito menos tolerante que o Segundo Império. Cada tentativa de reconstruir qualquer estrutura de trabalho, mesmo a mais trivial, foi seguida de prisões e citações ao Conselho de Guerra. Fernand Pelloutier descreve em Histoire des Bourses du Travail a atmosfera que reinava na época: “A seção francesa da Internacional dissolvida, os revolucionários fuzilados, mandados para a prisão ou condenados ao exílio; clubes dispersos, reuniões proibidas; terror confinando os poucos homens que escaparam ao massacre nas profundezas de seus lares: essa era a situação do proletariado após a Comuna”. O historiador brasileiro Alexandre Samis descreve perfeitamente em Negras Tormentas[iv], livro publicado em 2011, a escala da repressão que se seguiu ao esmagamento da Comuna. Uma repressão que deixou traços profundos na memória colet va. Por outro lado, a classe trabalhadora começa a se reorganizar imediatamente[v]. O medo reina, mas, como Édouard Dolléans escreve, “o fogo está queimando sob as cinzas das organizações de trabalhadores destruídas”[vi].

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As primeiras manifestações da reconstrução do movimento operário foram tímidas e extremamente moderadas. As autoridades tinham pleno poder para proibir reuniões. Elas enxergavam a Internacional por trás do menor movimento de protesto e quase sistematicamente aplicavam a repressão como medida preventiva. O movimento operário, que estava se reformando lentamente, manteve um discurso que permaneceu reformista, cooperativista e mutualista. Entre o fim da Internacional e o estabelecimento do movimento sindicalista revolucionário na França, houve uma “geração perdida” de militantes. A geração de ativistas da A.I.T. havia desaparecido e uma nova geração, menos formada, mais impaciente, a substituiu. Órfãos da Internacional, aqueles que reivindicavam a herança da A.I.T. participaram dos congressos socialistas internacionais organizados pela social-democracia, tendo que resistir às tentativas de exclusão que, finalmente, terminaria por acontecer, em 1896, no Congresso de Londres, da IIª Internacional. Os líderes socialistas franceses, em particular Jean Jaurès, não foram os menos empenhados em excluir anarquistas e socialistas antiparlamentares.

Uma forma de esquecimento do legado da Internacional se estabeleceu, agravada pela mitificação do que foi percebido como um período heroico do movimento operário antiautoritário.

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Uma pequena parte do movimento anarquista se juntou ao movimento sindical depois da Comuna — Pouget é um exemplo. Mas grande parte do movimento era hostil à ação sindical.

Deve-se ter claro que, depois do Congresso de Verviers, em 1877, a Internacional antiautoritária, cujos efetivos haviam colapsado, se transformou em diversos grupos de afinidades. Não era mais uma organização de classe, uma organização de trabalhadores — exceto na Espanha. A Federação do Jura, que havia reduzido para 400 aderentes[vii], era de fato um grupo específico no qual debatiam os intelectuais do movimento: Kropotkin, Reclus, etc.

Foi sob o impulso de militantes italianos, que posteriormente aderiram à federação,

Foi sob o impulso de ativistas italianos, cuja federação havia se unido tardiamente, que a A.I.T. antiautoritária deu à luz ao anarquismo, na forma de insurrecionalismo, ou seja, antissindicalismo. Foi assim que Malatesta expressou seu ponto de vista no oitavo congresso da Internacional, em 1876:

“Do nosso ponto de vista, para nós italianos, a Internacional não deve ser uma associação exclusivamente de operários; o objetivo da revolução social, de fato, não é apenas a emancipação da classe trabalhadora, mas a emancipação de toda a humanidade; e a Internacional, que é o exército da revolução, deve agrupar sob sua bandeira todos os revolucionários, sem distinção de classe.”[viii]

Encontramos o mesmo problema colocado no movimento anarquista brasileiro, como escreve Edilene Toledo:

“De fato, uma parte considerável dos anarquistas no Brasil se declarava abertamente hostil ao sindicalismo, porque a ideia anarquista era salvar toda a humanidade, e não apenas os trabalhadores, como podemos observar neste artigo do jornal libertário La Barricata de São Paulo, escreve em italiano: “O sindicalismo não tem nada em comum com o anarquismo, ou melhor; a característica efetiva da ação do sindicalismo é a negação do anarquismo”.[ix]

A influência do Malatesta me parece evidente.

A extrema proximidade do insurrecionalismo e do individualismo determinará a matriz a partir da qual o movimento anarquista europeu se desenvolverá, o que explicará a orientação marcadamente antissindicalista de grande parte do movimento em seu início. Todas essas posições eram totalmente contrárias às desenvolvidas por Bakunin: é nesse sentido que penso que o anarquismo inicial, como surgiu da Internacional antiautoritária, é uma ruptura com o bakuninismo.

Malatesta tentou defender o princípio de organização dentro do movimento libertário[x], mas ou foi mal compreendido ou era ambíguo demais.  O fato é que a corrente anarquista comunista, da qual ele é, como Kropotkin, um precursor, foi fortemente impregnada de insurrecionalismo, desenvolvendo-se assim sobre bases antissindicais e antiorganizacionais.

Sendo assim que, como na França, uma onda de anarquismo insurrecional atingiu a Espanha, durante a qual anarquistas comunistas militantes se esforçaram por destruir organizações de massa de inspiração libertária, quer por atos, quer pela palavra: “No final de 1891, vindo de Londres, o famoso revolucionário italiano Errico Malatesta atacou os coletivistas durante sua grande turnê de propaganda”[xi]. Mas o coletivismo (como era entendido na época) era o nome (em preferência a ‘anarquismo’) a que se referia Bakunin. O relatório da polícia nos diz que foi Malatesta “quem fundou todos os grupos de ação na Espanha e que converteu os coletivistas à anarquia”[xii]. Este debate voltará mais tarde, quando o sindicalismo revolucionário virá a aparecer: Malatesta será resolutamente hostil a ele. Malatesta escreve:

“E, de fato, especialmente na França, houve anarquistas que, entrando no movimento operário com as melhores intenções, para levar nossa palavra e nossos métodos às massas, foram então absorvidos e transformados, eles gritaram: “o sindicalismo basta-se a si mesmo”… e rapidamente deixaram de ser anarquistas.”[xiii].

Malatesta se opõe a um dos principais fundamentos do sindicalismo revolucionário, a dupla tarefa, reivindicada hoje, construtivo amanhã:

“O que os sindicalistas afirmam é falso, que a organização dos trabalhadores de hoje servirá como uma estrutura para a sociedade futura e facilitará a transição do regime burguês para o regime igualitário. É uma ideia que encontrou resposta favorável entre os membros da Primeira Internacional; e se bem me lembro, nos escritos de Bakunin, diz-se que a nova sociedade seria alcançada com a entrada de todos os trabalhadores nas Seções da Internacional. Mas parece-me um erro[xiv].”  

Malatesta ainda acusou os ativistas de “embriaguez sindical” (ubriacatura sindacalista). Podemos ver que o ativista italiano rejeita tanto o sindicalismo revolucionário quanto Bakunin. No entanto, desenvolveu outra estratégia sindical, perfeitamente coerente, de fato próxima à da socialdemocracia: ele continua sendo muito favorável à entrada dos anarquistas no movimento sindical.

Malatesta insiste no fato de que existe uma distância entre o anarquismo e o movimento operário, o que não coincide com as opiniões de Schmidt e Van der Walt, mas estranhamente se assemelha ao ponto de vista de Karl Kautsky (adotado por Lenin), que insistiu que não havia equivalência entre o movimento operário e o socialismo: “O movimento operário e o socialismo não são de natureza identical”, diz Kautsky em As três fontes do marxismo: a classe operária não pode ser revolucionária por si só. Da mesma forma, Malatesta escreveu em 1925:

“O movimento operário, apesar de todos os seus méritos e todo o seu potencial, não pode ser um movimento revolucionário em si, no sentido de negar as bases legais e morais da sociedade atual”[xv].

Se compararmos as posições de Kautsky e Malatesta, na mesma época (1908 e 1907), encontramos estranhas semelhanças:

Kautsky Três fontes do Marxismo 1908  

“ Considere, por exemplo, sindicatos. São sindicatos profissionais, que buscam defender os interesses imediatos de seus membros. Mas quão divergentes são os interesses de cada uma dessas profissões tomadas separadamente: marítimos e mineiros de carvão, cocheiros e tipógrafos! Sem a teoria socialista, eles não podem conhecer seus interesses comuns e as diferentes camadas do proletariado se veem como estrangeiras, até como inimigas”.  
Malatesta Intervenção em Amsterdã 1907  

“Mesmo que ele se adorne com o epíteto bastante inútil de revolucionário, o sindicalismo não é e nunca será mais do que um movimento legalista e conservador, sem outro objetivo acessível — e nem isso! — que a melhoria das condições de trabalho.” (…) “No seio da própria ‘classe’ operária, há, como entre os burgueses, a competição e a luta. Os interesses econômicos de uma determinada categoria operária estão irredutivelmente em oposição aos de uma outra categoria. E vemos às vezes que economicamente e moralmente alguns operários estão muito mais próximos da burguesia do que do proletariado.”

Se Malatesta preconizou efetivamente que os anarquistas se engajassem na atividade sindical — porque, afinal, é onde os trabalhadores estão localizados — ele colocou como condição que os referidos anarquistas não se perdessem nela: “

“Se pela vida da organização e para as necessidades e a vontade dos organizados, é realmente necessário fazer concessões, render-se, estabelecer contatos impuros com a autoridade e com os partidos, assim é. Mas que sejam os outros que façam isso e não os anarquistas”[xvi]. Em resumo, os anarquistas não devem sujar as mãos. Se Pelloutier, Pouget e tantos outros tivessem feito isso, nunca teria havido sindicalismo revolucionário.

Há algo profundamente incoerente no ponto de vista de Malatesta, que dá a impressão de que ele não tem ideia de como pode ser a atividade sindical na realidade concreta. De fato, ele escreve no mesmo artigo que “os anarquistas nos sindicatos deveriam lutar para mantê-los abertos a todos os trabalhadores, independentemente de sua opinião e partido”. Que sentido faz para a luta deixar sindicatos abertos a todos os partidos se isso resultar em outros partidos assumindo mandatos e não os anarquistas?

Quanto a Kropotkin, quando escreveu em La Révolte, em 1890, que era necessário que os anarquistas se unissem aos sindicatos[xvii], suas observações foram muito mal recebidas e despertaram críticas violentas, de acordo com um relatório policial de 23 de outubro de 1890[xviii]. Diz o relatório: “… Inúmeros protestos foram ouvidos; clamaram quase à traição. Muitas cartas individuais e de grupos foram dirigidas a seu jornal. Também vieram do exterior…”. Vemos mais uma vez uma semelhança surpreendente entre a situação do Brasil e da França: Edilene Toledo, por exemplo, nos diz que “os anarquistas envolvidos no movimento sindicalista revolucionário eram duramente criticados por grande parte do movimento anarquista”[xix]. Isso significa que a atividade dos anarquistas no movimento sindical foi aceita apenas marginalmente pelos ativistas, pelo menos durante algum tempo[xx].

Tomando o exemplo de São Paulo, Jacy Alves de Seixas mostra que as mesmas divisões do movimento anarquista na França também existiam no Brasil:

“Antes de 1903, havia, sem sombra de dúvida, da parte dos anarco-comunistas de São Paulo, uma disposição que os aproximava do nascente movimento operário. ‘Vamos nos juntar às suas associações’ (Il Risveglio, n° 44, 5/03/1899) foi um slogan adotado sem restrições. Mas esta afinidade estava longe de apresentar a inclinação sindicalista que vimos começar e que lidera os primeiros ‘rachas’ no seio do movimento anarquista. O engajamento de alguns dos militantes mais representativos na organização e na animação das ligas de resistência provoca, dentro do movimento, a atualização da discussão sobre a relevância da participação dos anarquistas no movimento operário e a questão essencial da orientação de sua ação.[xxi]

O que Jacy Alves de Seixas diz é perfeitamente coerente com a tese de um anarquismo inicial antissindical. A historiadora acrescenta que “à medida que as associações de resistência crescem em importância e o sindicalismo se espalha, os anarco-comunistas querem se destacar e aprofundar suas críticas ao: a) próprio sindicalismo revolucionário” e; b) aspecto incondicional da participação dos anarquistas sindicalistas no movimento operário. É, portanto, de dentro do grupo anarco-comunista de São Paulo, num momento em que a organização do movimento operário brasileiro está em pleno andamento, que uma corrente sindicalista revolucionária está surgindo”.

Em outras palavras, os anarco-comunistas se distanciaram do sindicalismo revolucionário no exato momento em que os sindicatos estavam se desenvolvendo e quando o movimento operário brasileiro estava em pleno andamento! E, para que o sindicalismo revolucionário aparecesse, ele teve que “se separar” (sic) do grupo anarco-comunista de São Paulo. Novamente, tudo isso mostra a inconsistência da história – mistificadora — de autores que retratam o sindicalismo revolucionário como uma “estratégia”  do anarquismo.

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A partir de 1890-1892 a 1902, é possível afirmar que houve um período propriamente “anarquista” do movimento operário francês, em particular nas Bolsas do Trabalho, que não foram fundadas por anarquistas, mas nas quais estes últimos rapidamente desempenharam um papel decisivo. De fato, as Bolsas do Trabalho, as estruturas geográficas estabelecidas na localidade, praticamente desempenharam o papel de grupos anarquistas no proletariado. Foi em 1892 que um certo número de bolsas do trabalho decidiu se reagrupar e criar uma federação. Os anarquistas não têm nada a ver com essa fundação, que resulta de uma cisão dentro da Federação Nacional dos Sindicatos de orientação guesdista.[xxii] Surgiram tensões entre os partidários da greve geral e os guesdistas, que se opunham a ela. Os antiguesdistas — allemanistas, anarquistas, blanquistas, positivistas (dos quais havia uma corrente, em particular na indústria gráfica) e adeptos da sensibilidade socialista que não estavam vinculados a um partido — criaram a Federação das Bolsas do Trabalho. Mas, dentro dessa nova organização, eclodiram conflitos entre as diferentes correntes socialistas que coexistiam ali. Anarquistas apareceram como aqueles que foram capazes de moderar conflitos. O anarquista Fernand Pelloutier foi eleito secretário adjunto da Federação Nacional do Trabalho em 1894, depois secretário em 1895 e empreendeu um notável trabalho de organização.

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A data de 1902 marca o fim deste período. A C.G.T. foi formada em 1895, mas não pode ser qualificada absolutamente de “sindicalista revolucionária”. A nova organização é fraca, vegeta, é mais um esboço do que uma estrutura efetiva. A Federação das Bolsas do Trabalho, desenvolvida dinamicamente por seu secretário Fernand Pelloutier, é muito mais estruturada e incomparavelmente mais poderosa. Ela – a federação – não estava preocupada em perder sua autonomia e só aceitou a ideia de uma confederação, na medida em que tinha “o único objetivo de decidir sobre fatos de interesse geral que dizem respeito ao movimento operário” — e fazer disso uma tática comum […] —, a realização dessa tática permaneceu sob os cuidados e às custas das federações pertencentes à confederação.” [xxiii]

A parte que é destacada aqui é decisiva. O processo de unificação das duas estruturas: horizontal (Federação das Bolsas do Trabalho) e vertical (C.G.T.) será concluído num congresso realizado em 1902. Pode-se dizer que o período propriamente “anarquista” do movimento sindical termina naquele tempo. A nova C.G.T. agora é liderada por Victor Griffuelhes, Émile Pouget e Alphonse Merrheim. Esses homens defenderão uma orientação fortemente tingida pelo anarquismo, que se tornará o sindicalismo revolucionário.

As Bolsas do Trabalho não desaparecerão, mas sua importância se tornará progressivamente menos importante do que a das estruturas verticais, industriais da organização. Isso não significa que o papel dos anarquistas diminuirá, mas na C.G.T. haverá uma mistura de ideias e estratégias, das quais não só os anarquistas mas também outras correntes do movimento operário participarão. Esta mistura criará o sindicalismo revolucionário cuja certidão de nascimento não é a carta de Amiens, ao contrário do que costuma ser dito.

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As relações entre a C.G.T. antes de 1902 e a Federação das Bolsas do Trabalho eram muito tensas. O secretário assistente da C.G.T., Paul Delesalle, era anarquista, mas o secretário geral, A. Lagailse, era reformista. Ele atacou Pelloutier e Delesalle e a Federação das Bolsas violentamente. Pelloutier respondeu aos ataques de Lagailse[xxiv] pedindo que “os dois órgãos que constituem a Confederação se reunissem apenas em caso de eventos imprevistos e que exigissem manifestamente um acordo”.[xxv] Neste início, a C.G.T. estava sob o controle dos reformistas[xxvi], o que explica os ataques a Pelloutier e Delesalle. Lagailse foi demitido do cargo de secretário-geral após o congresso de Rennes em função de sua atitude de “covardia imperdoável” durante uma greve nas ferrovias que ele havia rejeitado. E, a partir daí, não encontramos mais nenhum vestígio dele.

A saída de Lagailse parece ter ajudado a melhorar a situação, uma vez que o congresso seguinte acolhe com satisfação “que as divergências que haviam surgido anteriormente entre a Federação das Bolsas do Trabalho e a Confederação foram resolvidas, graças à maior conciliação dos dois lados”[xxvii]. Pouco a pouco, os anarquistas consolidam suas posições na C.G.T. Émile Pouget tornou-se responsável pelo La Voix du Peuple (A Voz do Povo), o hebdomadário da C.G.T. criado em dezembro de 1900.

A constituição final da C.G.T. ocorre pela integração no seu seio das Bolsas do Trabalho no congresso de Montpellier, em 1902, que marca a verdadeira fundação da C.G.T., porque são fundidas a estrutura vertical (sindicatos da indústria e do comércio) e a estrutura geográfica horizontal (Bolsas do Trabalho). Eu acrescentaria que essa estrutura dupla, que define precisamente o sindicalismo revolucionário e mais tarde o anarcossindicalismo, corresponde completamente ao esquema desenvolvido por Bakunin há trinta anos atrás.[xxviii] É, que eu saiba, no congresso de Montpellier, em 1902, que encontramos pela primeira vez a expressão “sindicalismo revolucionário”.[xxix] Ela é utilizada novamente no congresso de Bourges (1904) e ainda uma vez no congresso de Amiens (1906).

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  Os anos de 1902-1908 marcaram o período ascendente do sindicalismo revolucionário. A estratégia revolucionária foi adotada no congresso de Bourges em 1904, quando uma greve geral foi aprovada com o objetivo de obter a jornada de trabalho de 8 horas. Dentro da C.G.T. unificada, formou-se um movimento que claramente se destacava do anarquismo para formar uma doutrina separada. Podemos dizer que a “data de nascimento” do termo “sindicalismo revolucionário” como doutrina é 1º de janeiro de 1905: a revista socialista Le Mouvement Socialiste publica um artigo do ex-blanquista Victor Griffuelhes, secretário geral da C.G.T., intitulado “Sindicalismo Revolucionário”[xxx]. Mas nem é preciso dizer que o fato precedeu a palavra.

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 O Congresso de Amiens, realizado em 1906 é frequentemente apresentado como o ato fundador do sindicalismo revolucionário. Eu não compartilho dessa opinião. De fato, é preciso dizer que esta data também marca o início do declínio do sindicalismo revolucionário. A leitura do relato dos debates de Amiens mostra uma realidade que está longe do mito estabelecido, mas, ao mesmo tempo, revela uma realidade muito mais comovente[xxxi]. Vemos uma corrente sindicalista revolucionária certamente ainda poderosa, mas encurralado, na defensiva contra representantes de poderosas federações reformistas. A realidade que percebemos não é a do mito que foi construído após o fato. Pode-se ver que as oposições à política confederal (ou seja, sindicalista revolucionária) são extremamente vigorosas, que os golpes desferidos são frequentemente bastante baixos.

Os sindicalistas revolucionários enfrentam uma forte oposição; são seguidos de perto e assediados pelos guesdistas e socialistas reformistas, cujas forças estão longe de ser insignificantes, e precisavam se defender passo a passo.

O voto para a famosa “Carta de Amiens” por uma esmagadora maioria de delegados, incluindo anarquistas, revela por si só a extensão das concessões que tiveram que ser feitas aos reformistas, a fim de evitar a cisão. Os reformistas entenderam perfeitamente que isso era uma derrota para os anarquistas. Logo após o Congresso de Amiens, dois congressos socialistas foram realizados sucessivamente, durante os quais se podem ler testemunhos de extrema satisfação dos líderes[xxxii] do partido. Edouard Vaillant (deputado socialista, ex-anarquista) declarou que o Congresso de Amiens foi uma vitória sobre os anarquistas, e Victor Renard, guesdista e líder da poderosa federação têxtil da C.G.T., triunfou dizendo que “os anarquistas que predominam na C.G.T. consentiram em colocar uma mordaça.”[xxxiii] Estamos falando aqui de anarquistas, não de sindicalistas revolucionários. Uma leitura cuidadosa dos debates no Congresso de Amiens mostra claramente que o inimigo dos reformistas são os anarquistas.

 Os anarquistas então permanecem muito presentes na C.G.T., mas por meio de eleições dentro da organização serão progressivamente removidos dos principais mandatos em benefício dos reformistas. Uma leitura cuidadosa da ata do Congresso de Amiens revela um declínio acentuado no movimento revolucionário. Apresentada como um compromisso com uma fração da corrente reformista para bloquear os guesdistas, a Carta de Amiens consagra de fato a divisão do trabalho entre partido e sindicato. É significativo que duas grandes figuras do movimento anarquista, Pouget e Delesalle, tenham deixado a C.G.T. em 1908.

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 Os anos 1909-1914 mostram uma corrente revolucionária na defensiva, que ainda se mantém pela força de exercício, que ainda conserva a confiança de muito numerosos trabalhadores, mas que está em perda de velocidade e deve afrontar simultaneamente a feroz repressão do poder, uma sucessão de sérios fracassos nas lutas, e graves crises internas provocadas pelos reformistas cuja força cresce na C.G.T.. Além disso, a renovação dos mandatos mostra que, pouco a pouco, os militantes revolucionários são gradualmente expulsos de posições de responsabilidade em favor dos reformistas. Quando a Grande Guerra eclodiu, a C.G.T. já não podia ser qualificada propriamente de “sindicalista revolucionária”.

O movimento sindicalista revolucionário reapareceu após a guerra, após a Revolução Russa, mas se fragmentou em duas correntes opostas: uma que apoiava o regime comunista na Rússia e que praticamente desapareceu como corrente para se fundir nos partidos comunistas; e uma outra que se transforma em anarcossindicalismo.

2. — IEL: Quais são os possíveis elos entre o sindicalismo revolucionário e o anarquismo de Proudhon?

René Berthier: Como pode um pensador socialista que se colocava como “oposto às greves” ser reivindicado pelo sindicalismo revolucionário? O que levanta uma primeira pergunta: Proudhon foi realmente contrário a greves? Como costuma acontecer com o absurdo que circula sobre o movimento anarquista, é também aí Marx a origem. Assim, quando Marx relata que Proudhon ficou encantado com o fato de os mineiros de Rives-de-Gier terem sido reprimidos após entrar em greve[xxxiv], ele simplesmente mostra que só leu superficialmente De la Capacité Politique des Classes Ouvrières[xxxv] (de fato, a citação incluída em De la Capacité… está originalmente no Système des Contradictions Économiques). Proudhon diz simplesmente que, do ponto de vista da legislação da época, a greve era ilegal e que a repressão era, pelas mesmas razões, legal. Portanto, ele não está satisfeito com o fato de os mineiros terem sido reprimidos. Proudhon também aponta: “a plebe trabalhadora, cujas nobres aspirações que compartilho aqui da melhor maneira possível, ainda não é — infelizmente! — mais que uma multidão inorgânica; o trabalhador não se colocou no mesmo nível que o mestre”. Ele (Proudhon) faz aqui referência explícita ao artigo 1781 do Código Civil, que estabelecia que, em um julgamento, a palavra do patrão valia mais do que a de seus trabalhadores; situação que, obviamente, ele não aprova.[xxxvi] O fato de a “plebe trabalhadora” ser uma “multidão inorgânica” significa para Proudhon que ela não tem consciência coletiva e que não constitui, portanto, uma organização.

Proudhon destaca igualmente que “essas lutas de coalizões entre operários e senhores (…) quase sempre terminam em vantagem para estes em detrimento daqueles.”[xxxvii] Ele não contesta que os grevistas agem “sob o impulso de um sentimento de justiça que eu não nego” (destaque do autor).

O que ele pretende mostrar é a contradição entre a ação de greve dos trabalhadores “que, admito expressamente, não estavam errados, interiormente, ao queixarem-se” (enfatiza Berthier, novamente), mas que naquele momento “se excedeu externamente, o seu direito”.[xxxviii] (“externamente”, ou seja, do ponto de vista da lei em vigor). Essa contradição é sempre solucionada em benefício dos patrões: “ela é encontrada, muito mais odiosa (sic), em favor geralmente concedido a estes [os empregadores], e a repressão, que é o privilégio comum dos outros [os trabalhadores]”.

A questão é assim, expressa à maneira de Proudhon, isto é, complicada, mas não creio que essa passagem precise ser “decifrada”.

Marx evoca uma passagem De la Capacité… na qual Proudhon escreve que “a autoridade que levou os mineiros de Rives-de-Gier ao fuzilamento estava em uma situação infeliz”, mas que ela tinha “que sacrificar seus filhos para salvar a República”. Naturalmente, o que Proudhon expõe aqui é o ponto de vista do Estado, sem aprová-lo. Os sindicalistas revolucionários franceses, mais inteligentes que Marx, entenderam isso perfeitamente. Proudhon diz das greves que elas não podem mudar fundamentalmente o estado da sociedade (o que Marx também diz) (…). Esse é um ponto no qual os sindicalistas revolucionários concordarão com Proudhon. E em muitos outros pontos: a separação de classes, a recusa da ação parlamentar, a insistência na ação econômica, o federalismo… A proximidade entre Proudhon e o sindicalismo revolucionário, sem dúvida, tem sua principal explicação no fato de que seu pensamento está muito intimamente ligado ao pensamento do movimento operário de seu tempo. O mesmo problema surgirá mais tarde para Bakunin.

Samuel Hayat coloca uma questão muito relevante: ele se pergunta “se Proudhon havia expressado, em seio mesmo de suas contradições, uma latência da condição proletária”?[xxxix]

A questão central a saber é: se o encontro entre Proudhon e o movimento operário é obra do acaso ou se existe uma relação efetiva. Que o movimento operário de sua época influenciou Proudhon, não há dúvida: é difícil imaginar um pensador socialista impermeável ao seu ambiente. Os militantes anarquistas liam muito[xl]. Na França, grupos de operários se reuniam para discutir as teorias de Proudhon, ou mesmo para questionar o próprio Proudhon. Um desses leitores, Tolain, membro e fundador da Associação Internacional dos Trabalhadores, sequer partilhava as opiniões de Proudhon sobre as candidaturas operárias.[xli] Desta maneira, não surpreende que as seções francesas da A.I.T. tenham reivindicado Proudhon durante os primeiros congressos da organização.

Da mesma forma, não é de surpreender que os militantes que ajudaram a criar a C.G.T. e descobriram o sindicalismo revolucionário conheciam o trabalho de Proudhon, especialmente porque muitos deles vieram do movimento anarquista. Em L’anarchisme et les syndicats ouvriers[xlii] , publicado em 1895, Fernand Pelloutier falou da “análise magistral” de Proudhon sobre impostos. Émile Pouget reivindica Proudhon em sua brochura L’Action Direct: “Proudhon, […] pressentindo o sindicalismo, evocou o federalismo econômico que está sendo preparado e que vai além, com toda a superioridade da vida, dos conceitos estéreis do politicismo”.[xliii]

Podemos divagar interminavelmente para saber se foi Proudhon que influenciou o movimento operário do seu tempo ou o inverso. Uma questão, estritamente, que nos traz nenhum interesse, porque se resume à do ovo e da galinha. É óbvio que Proudhon foi fortemente influenciado pelo movimento operário de seu tempo; que ele desenvolveu uma teoria geral inspirada por essa influência; que essa teoria, muito mais que a de Victor Considerant, Louis Blanc e outros, foi reconhecida pelos proletários da época, reconhecimento que proporcionou a Proudhon novos temas para reflexão. É um movimento permanente entre prática e teoria.

Samuel Hayat explica, assim, o reconhecimento do pensamento de Proudhon:[xliv]

“É a Pierre Ansart que devemos a formalização mais convincente[xlv]. Como vimos, segundo ele, Proudhon não está em conexão abstrata com o movimento operário. Existe uma homologia estrutural entre o pensamento de Proudhon e certas estruturas sociais. (…) Essa homologia está associada a uma homologia de práticas com as do mutualismo dos canuts [xlvi].”

Este resumo muito esquemático da relação entre Proudhon e o sindicalismo revolucionário torna ainda mais impressionante o impasse criado pelos autores de Black Flame sobre o autor de Système des Contradictions Économiques.[xlvii]

As posições de Proudhon sobre as greves não o “isolaram do nascente movimento operário”[xlviii], ao contrário do que Schmidt e van der Walt escrevem; estão completamente enganados. Essa oposição a greves parciais, consideradas inúteis e contraproducentes, foi compartilhada por amplos setores do movimento anarquista[xlix], depois pelo movimento sindical revolucionário, que reconheceu em Proudhon um precursor! Este é um paradoxo que, naturalmente, Schmidt e van der Walt acharão difícil de entender. A própria C.G.T. francesa, em seu 5º congresso, votou por uma resolução perfeitamente alinhada com a linha proudhoniana:

“… Não acreditamos que devamos incentivar greves parciais que consideramos prejudiciais, mesmo que elas produzam resultados apreciáveis, porque nunca compensam os sacrifícios feitos e os resultados que podem dar são insuficientes para modificar a questão social.”[l]

Sob o risco de surpreender nossos camaradas sul-africanos, os primeiros anos da C.G.T. estavam perfeitamente alinhados com o proudhonismo.

O sociólogo francês Daniel Colson discute, em seu estudo Proudhon et le syndicalisme révolutionnaire [li], as razões pelas quais “os sindicalistas revolucionários poderiam se reconhecer em Proudhon, embora as propostas uns dos outros pudessem divergir tanto”: “Nós subestimamos, diz ele, ou ignoramos completamente a extraordinária inteligência prática e teórica dos movimentos operários da época” (grifo nosso). Os sindicalistas revolucionários, Pelloutier à frente, sabiam bem que as vantagens obtidas pelas greves seriam anuladas pelo sistema, e certamente não se ressentiam de Proudhon por não entenderem que, apesar disso, as greves foram usadas como treinamento para a classe trabalhadora — o que Bakunin havia compreendido perfeitamente — na “ginástica revolucionária”, como disse Pouget.

Um ponto final deve ser feito para sublinhar a proximidade de Proudhon e o sindicalismo revolucionário (e, nem é preciso dizer, o anarcossindicalismo). Esta é a questão da organização da classe. Durante a revolução de 1848, Proudhon foi eleito para a Assembleia Constituinte. Ele tinha muitas ilusões e logo entendeu que não havia o que fazer: o sistema parlamentar é um sistema que permite à burguesia ascender ao poder, a classe operária não tem nada a ganhar.  É a partir daí que ele considerará outro modo de organização e intervenção para os trabalhadores. Naturalmente, ele descreve isso com sua linguagem, que não corresponde à linguagem de hoje, mas transposta, fica assim: os trabalhadores devem se organizar em estruturas nas quais as pessoas não estão agrupadas como cidadãos, mas em como trabalhadores, quer dizer, de acordo com seu papel no processo de produção.

É assim que ele consagra, em Idée générale de la Révolution e na Capacité Politique des Classes Ouvrières, o longo desenvolvimento sobre as “companhias operárias de produção”, chamadas para substituir a organização capitalista de produção. O grande sociólogo Georges Gurvitch (ausente da bibliografia da Black Flame) qualificou La Capacité Politique como um “catecismo do movimento operário francês”.

Naturalmente, os sindicalistas revolucionários que leram Proudhon entenderam perfeitamente o seu ponto de vista.

3. — IEL: Quais são os possíveis elos entre o sindicalismo revolucionário e o anarquismo de Bakunin?

René Berthier: A ligação entre anarquismo e sindicalismo revolucionário é obviamente uma questão vital para o movimento libertário. O bicentenário de Bakunin nos deu a oportunidade de reeditar um texto de Maurizio Antonioli, datado de 1976, mas extremamente instrutivo, que estuda exatamente essa questão: Bakounine entre syndicalisme révolutionnaire et anarchisme[lii].  Sua reedição nos permitiu lembrar que a relação entre essas duas correntes é extremamente complexa e, às vezes, conflitante. De fato, o início do século XX assistiu ao desenvolvimento de debates que se transformaram em polêmicas vigorosas sobre o parentesco entre Bakunin e o sindicalismo, entre o A.I.T. e o sindicalismo revolucionário. É claro que o movimento anarquista se viu dividido sobre essa questão, como mostra o Sr. Antonioli:

“Por um lado, apoiar o ‘parentesco incontestável’ entre as posições bakuninianas e as do sindicalismo, um núcleo constituído por militantes da C.G.T. (Pierre Monatte e o grupo de ‘La Vie Ouvrière’), com o apoio de James Guillaume ,  ‘Le Père Guillaume’, companheiro de Bakunin e historiador da Internacional.

“Do outro lado, uma frente composta, mas substancialmente unitária, que passava pela Volontà de Ancone (Malatesta e Fabbri), Les Temps Nouveaux de Paris (Pierrot e Clair) e Le RéveilIl Risveglio de Genebra (Bertoni e Wintsch); em resumo, os periódicos mais representativos do comunismo anarquista franco-italiano-suíço”.[liii]  

Desde o início, portanto, a ideia de um parentesco entre Bakunin e o anarquismo, por um lado, o sindicalismo revolucionário, por outro, não era unânime. O movimento anarquista especifico contesta que havia um parentesco. A ideia de que o sindicalismo revolucionário foi uma “estratégia” do anarquismo é contestada pelos próprios anarquistas. É que, depois de uma geração de quase esquecimento, Bakunin e a Federação do Jura voltaram à cena graças a James Guillaume, que reeditou um texto do revolucionário russo, de agosto de 1869, Politique de l’Internationale e o Fragment formant une suite à L’Empire Knouto-germanique, escrito em novembro-dezembro de 1872. Além disso, as obras de Bakunin começaram a ser publicadas pela Édition Stock, sob a supervisão de James Guillaume. Finalmente, os dois primeiros volumes de L’Internationale, documents et souvenirs de Guillaume foram publicados em 1907. Todos esses textos destacavam a importância primordial que Bakunin atribuía à luta econômica e às “caixas de resistência” (os sindicatos) na formação da consciência de classe das massas operárias.[liv] Mas tudo isso está acontecendo em um momento em que o sindicalismo revolucionário já existia.

O surgimento do sindicalismo revolucionário na França foi amplamente percebido pelos militantes anarquistas. A extrema complexidade das relações entre o movimento anarquista e o movimento sindicalista revolucionário dentro da C.G.T. francesa é obscurecida por abordagens às vezes simplistas da história. De fato, vemos que o movimento anarquista se opôs à atividade sindical. Também observamos que o período estritamente “anarquista” do movimento sindical francês, parte do qual ocorreu antes da fundação da C.G.T., foi muito curto — coincide aproximadamente com o apogeu das Bolsas do Trabalho — 1892-1902.

Uma parte notável do movimento anarquista francês na época era simplesmente oposta ao próprio princípio de organização. Se lermos as teses do congresso anarquista internacional de Amsterdã, constataremos que o principal tema de debate não era o sindicalismo, mas a pergunta: “Devemos nos organizar?”. Essa questão percorreu todo o movimento libertário internacional, incluindo no Brasil. Carlo Romani nos mostra que a oposição dos antiorganizacionistas à organização “institucional” (ou seja, uma organização permanente) poderia ir longe o suficiente: quando, em abril de 1906, o Primeiro Congresso Operário Brasileiro foi realizado no Rio de Janeiro, o jornal de Oreste Ristori, La Battaglia, tentou ridicularizar o que chamou de “congresso batráquico internacional”, no qual participariam os “intrépidos ‘condottiere’ do exército liliputiano…”[lv] Romani designa Oreste Ristori como um partidário de Malatesta.

Este congresso foi, no entanto, de suma importância na história do movimento operário brasileiro e não mereceu ser tratado dessa maneira.

Escreve, também, o historiador Alexandre Samis:

“Acompanhando a tendência dos anos anteriores, a despeito da presença de reformistas “trabalhistas” nos debates, o Congresso aprovou a filiação de suas teses ao sindicalismo revolucionário francês. Assim, a neutralidade sindical, o federalismo, a descentralização, o antimilitarismo, o antinacionalismo, a ação direta, a greve geral, etc. passaram a fazer parte dos princípios dos sindicatos signatários das propostas do “Primeiro Congresso Operário Brasileiro”, nome adotado pela comissão de redação das deliberações finais do referido encontro.”[lvi]

É verdade que parte do movimento anarquista francês se entusiasmava com o sindicalismo revolucionário quando, após James Guillaume ter publicado vários textos sobre a Federação Jurássica e artigos de Bakunin, ele descobriu a óbvia correlação de práticas entre os textos que estavam lendo e o que eles viam se desenrolando diante de seus olhos. Não é mais necessário sublinhar que a publicação dos textos de Bakunin começou em 1903; que a publicação por James Guillaume de sua Internationale, documents et souvenirs começou em 1905, ou seja, data claramente posterior ao surgimento do sindicalismo revolucionário. O enorme trabalho de edição realizado por James Guillaume é posterior — ligeiramente depois, é verdade — ao surgimento do sindicalismo revolucionário e não poderia, assim, ser designado como uma causa deste último.

A evocação da história da Associação Internacional dos Trabalhadores tem suscitado controvérsias entre partidários e oponentes da filiação, entre Bakunin e o sindicalismo revolucionário, entre o anarquismo e o sindicalismo revolucionário — uma controvérsia cuja aspereza demonstra que a ideia não era óbvia ou aceita por todos. Podemos, portanto, fazer-nos uma pergunta um tanto perversa: os anarquistas que descobriram o sindicalismo revolucionário através dos textos de Bakunin e da Federação do Jura, publicados por James Guillaume, não viram nada se desenrolar diante de seus olhos antes da publicação desses textos? O movimento anarquista — pelo menos o que ainda não estava na C.G.T. —  “descobriu” o sindicalismo revolucionário apenas naquela época? Uma pesquisa sobre essa questão poderia ser interessante.

Luigi Fabbri salientou a ideia de uma “matriz exclusivamente anarquista” para o sindicalismo. Ele também disse que o sindicalismo não era mais do que “socialismo anarquista em ação”[lvii]. Falar da “matriz exclusivamente anarquista” do sindicalismo não me parece estar em conformidade com a realidade, apenas porque os fenômenos históricos nunca têm determinações únicas, um ponto de vista compartilhado por Bakunin.

Em julho de 1906, La Vita Operaria,de Ancona, escreveu[lviii]: “Sindicalismo é o conceito utilizado primeiro por Bakunin e a Internacional, para às organizações de resistência dos operários baseadas na abolição do capitalismo e na substituição das organizações federais de trabalhadores no estado burguês por meio da ação direta e revolucionária do proletariado”.

René Caughi (Henri Gauche) publica, em Les Temps Nouveaux[lix], em 27 de janeiro de 1907, sob o título “Bakounine et le syndicalisme”, extratos da Política da Internacional. Ele comenta: “Bakunin era, portanto, ‘sindicalista’, muito antes de o sindicalismo ser criado” (!!!). Caughi acrescenta: “Parece que o mundo operário — o único que conta — quer apoiar a ideia bakuniniana contra a ideia marxista”. Deve-se notar que isso não é uma questão de sindicalismo revolucionário, mas do sindicalismo como um todo.

Marie (Maria Isidorovna) Goldsmith, uma amiga íntima de Kropotkin, compartilhou essa opinião. No Les Temps Nouveaux, de 6 de julho de 1907[lx], ela insistiu na “semelhança e mesmo, em muitos aspectos, na identidade das ideias sindicalistas com as ideias anarquistas”. E acrescenta: “Bakunin, em seu artigo La Politique de l’Internationale, expõe a linha de ação que ele gostaria de ver seguida pelo movimento operário nos termos do atual movimento sindical que parece ser a realização exata de seu programa.”

Marc Pierrot, por sua vez, sublinhou um ponto; “todas as concepções que são a própria expressão do sindicalismo revolucionário” foram “propagadas especialmente pelos camaradas anarquistas”[lxi] e que o federalismo típico da C.G.T. havia sido “reivindicado no passado por Bakunin” e “condenado por Marx”[lxii].

Poderíamos multiplicar as citações da época afirmando uma continuidade entre as ideias de Bakunin e o sindicalismo revolucionário, uma continuidade sobre a qual existe um acordo quase total entre 1905 e 1908. No entanto, esses artigos se contentam em constatar a identidade entre as teses de Bakunin, a Federação do Jura e as práticas do sindicalismo revolucionário, que eles podem observar diante dos olhos. Nenhum deles estabelece uma relação de causa e efeito.

É indiscutível que nas posições desenvolvidas por Bakunin encontramos o essencial das ideias defendidas posteriormente pelo sindicalismo revolucionário. É nesse espírito que Gaston Leval nos formou quando participamos do seu Centro de Sociologia Libertária, no final dos anos 1960. É claro que a ideia geral de Gaston permanece correta e eu entendo por que ele pensava assim. Ele queria, em particular, reagir contra os desvios sectários e antissindicais do movimento anarquista da época.[lxiii]

No entanto, afirmar que um homem, mesmo Bakunin, é o “fundador” de um movimento como o sindicalismo revolucionário é inconcebível. Pode ter havido precursores, como Bakunin, que viveu o movimento operário “de dentro”. “Teóricos”, como Georges Sorel — um teórico fora do próprio movimento e que poucos militantes de seu tempo conheciam.  O fato é que o sindicalismo revolucionário é uma produção natural da classe operária francesa, cuja aparição está ligada a um contexto histórico muito particular: influência do proudhonismo, esmagamento da Comuna, divisões sórdidas do movimento socialista, rejeição de tentativas dos radicais burgueses para capturar as organizações de trabalhadores, etc. É este contexto que explica a formação do sindicalismo revolucionário, não o pensamento de Bakunin, e menos ainda o de Sorel. Rejeitando qualquer ideia de “determinismo monocausal”, segundo a expressão admirável de Thiago Lemos Silva[lxiv], dirá que, mesmo que as mesmas causas produzam os mesmos efeitos gerais, as determinações que produziram o sindicalismo revolucionário brasileiro não são absolutamente idênticas àquelas que produziram seu homólogo francês, que Carlos Augusto Addor mostra:

“Reafirmamos que no processo de formação da classe operária no Brasil, no sentido mencionado na Introdução deste livro de formação de uma identidade cultural própria o anarquismo desempenha um papel fundamental. Isso porque é a única corrente organizatória e ideológica do movimento operário no Brasil que, nas duas primeiras décadas do século XX, ao mesmo tempo:

“a) elabora uma crítica radical à sociedade capitalista e ao Estado burguês, propondo a construção de uma sociedade alternativa, livre e igualitária;

“b) elabora um projeto e uma prática cultural relativamente autônoma, marcados por uma identidade de classe;

“c) penetra significativamente na classe operária, conduzindo ou participando das maiores greves e manifestações públicas ocorridas no período, assim como participa ativa e efetivamente no processo de organização sindical dos trabalhadores urbanos”[lxv] 

Esta análise é confirmada por Christina Roquete Lopreato, para quem a experiência da luta constitui, como pensava Bakunin, o principal catalisador da consciência revolucionária:

“ A greve geral de 1917 representa (…) o marco histórico no processo de formação da classe operária se autoconstituindo em seu enfrentamento concreto com o capital.”[lxvi]

Assim, devido à maior complexidade das estratificações sociais e suas inter-relações, a formação do movimento sindicalista revolucionário não pode ser totalmente creditada à parte do movimento anarquista que se engajou na ação sindical: outras correntes contribuíram, ainda que de maneira mais marginal: socialistas revolucionários, allemanistas[lxvii], blanquistas, positivistas para a França, sem dúvida outras correntes para os outros países.

4. — IEL: Do seu ponto de vista, como colocar as figuras de Fernand Pelloutier e Émile Pouget no campo do sindicalismo revolucionário?

René Berthier: Colocar Fernand Pelloutier e Émile Pouget em perspectiva me parece extremamente interessante porque ambos representam duas abordagens absolutamente complementares ao sindicalismo revolucionário, e é significativo que ambos sejam militantes anarquistas. Para lembrar, Bakunin imaginou a organização da classe operária na forma de uma organização vertical representada pelas “seções laborais” (os sindicatos) e uma organização horizontal representada pelas “seções centrais” (Bolsas do Trabalho). É a conjunção dessas duas estruturas que, segundo ele, constitui a organização de classe dos trabalhadores. Agora Pelloutier e Pouget são representativos, em minha opinião, dessa estrutura dupla: Pelloutier para a estrutura horizontal e Pouget para a estrutura vertical.

Bakunin insistiu particularmente na necessidade de nunca subestimar o papel das seções centrais, das estruturas interprofissionais, porque são instâncias eminentemente políticas: é nelas que o trabalho de reflexão é essencial para a elaboração de uma estratégia. Fernand Pelloutier entendeu isso perfeitamente. Foi ele quem destacou a importância da estrutura geográfica (horizontal) na organização da classe operária. Ele foi inicialmente um adepto de Jules Guesde, líder de uma corrente socialista que defendia a subordinação do sindicato ao partido socialista. Havia uma Federação Nacional dos Sindicatos, criada em 1886, de inspiração guesdista, antecedente da C.G.T. Os guesdistas queriam fazer da FNS uma correia de transmissão para sua política. Seu controle era tal que eles convocavam congressos de organização sindical na abertura ou encerramento dos congressos do partido. Foi a própria atitude dos guesdistas que impediu a FNS de se desenvolver, criando conflitos internos, sem falar da oposição dos antiguesdistas: allemanistas, anarquistas, blanquistas, positivistas e membros de sensibilidade socialista, mas que não pertenciam a nenhum partido.

O controle da corrente guesdista sobre a FNS permaneceu precário, no entanto: com efeito, num momento em que a greve geral tinha o apoio da maioria da classe operária, os guesdistas se opunham categoricamente a ela; contudo, seu princípio foi adotado durante o congresso da Federação Nacional dos Sindicatos, realizado em 1887, em oposição às posições dos líderes guesdistas.

O recurso à greve geral entrava em contradição com a conquista do poder político pelo partido ou… melhor dizendo, pelos cinco ou seis partidos políticos que disputavam os sufrágios da classe operária. A extrema divisão do movimento socialista foi um dos fatores que explicaram a força do sindicato como centro de identificação da classe operária. Em Le Socialiste de 4-11 de novembro de 1908 (guesdista), um militante enumerava “quase uma quarentena de tendêncais no Partido”[lxviii]. Face à multiplicação de capelas socialistas e à passagem ao governo de ex-socialistas como Millerand e Briand, o reflexo sindical vai sobrepor-se à política. O princípio da independência sindical sobrepujará a intransigência doutrinal. Compreende-se desde logo que o discurso sindicalista revolucionário relativo à unidade da classe operária tenha podido ser também bem compreendido pelos trabalhadores. O fim das querelas entre capelas socialistas e a unificação do partido em 1905 forneceu uma alternativa legal e pacífica à estratégia de ação direta do sindicalismo revolucionário. O declínio do movimento revolucionário na França segue muito precisamente a ascensão da perspectiva parlamentar.

No interior da Federação Nacional dos Sindicatos, as tensões entre os partidários da greve geral e os guesdistas levaram os primeiros a criar uma Federação das Bolsas do Trabalho (bourses du travail). As bolsas do trabalho, que são um legado da Revolução Francesa, já existiam; elas foram legalizadas em 1887, mas permaneceram isoladas umas das outras. Foi em 1892 que uma dúzia delas decidiram se federar, juntando-se rapidamente a outras. Mas dentro dessa nova organização, eclodiram conflitos entre as diferentes correntes que coexistiam ali. Os anarquistas destacaram-se pela capacidade de moderar os conflitos (ou talvez pela sua indiferença em relação aos desafios dos conflitos internos do movimento socialista…).

Fernand Pelloutier

Fernand Pelloutier foi nomeado vice-secretário da Federação das Bolsas do Trabalho em 1894, depois secretário no ano seguinte e dedicou-se completamente ao desenvolvimento da organização até sua morte prematura em 1901[lxix]. Essas bolsas eram inicialmente serviços de emprego (bureaux de placement), onde operários e empregadores negociavam o preço da mão-de-obra. Os anarquistas modificarão completamente o espírito, transformando-os em estruturas horizontais de solidariedade, atuando como fundos de greve, desemprego, enfermidades, assistência funeral, dedicando-se à educação e à formação com bibliotecas e aulas noturnas, no espírito da “propaganda pelo fato”, como inicialmente entendido pela Associação Internacional dos Trabalhadores. 

O apoio ao princípio da greve geral foi quase unânime no movimento operário francês, a ponto de um congresso convocado em 1893, que reuniu os delegados das bolsas do trabalho e das câmaras sindicais, ter votado por unanimidade a greve geral[lxx]. Os membros do congresso se reuniram em Nantes no ano seguinte para discuti-la. Foi, portanto, em Nantes[lxxi], em setembro de 1894, que a mudança ocorreu durante o VI Congresso da Federação Nacional de Sindicatos e Grupos corporativos. Este congresso é particularmente importante porque põe fim à ideia de subordinação do movimento sindical à política eleitoral dos partidos socialistas. Os sindicalistas se livram da tutela dos guesdistas e demonstram sua autonomia.

Por maioria de dois terços, o congresso aprova a tese de Fernand Pelloutier “

“Considerando que, na presença de poder militar colocado a serviço do capital, uma insurreição armada ofereceria apenas às classes dominantes uma nova oportunidade para reprimir as demandas sociais no sangue dos trabalhadores; considerando que o último meio revolucionário é, portanto, a greve geral, o VI Congresso Nacional dos Sindicatos Operários da França decide: a greve geral deve ser organizada imediatamente.”  

Para Pelloutier, a escolha da greve geral responde a uma preocupação muito prática: em 1886, uma inovação técnica obrigou a reconsiderar a pertinência do erguimento de barricadas insurrecionais e tornou, acreditou-se, à época, o recurso à greve geral mais pertinente e menos sangrento: a introdução do fuzil Lebel no exército francês. Esse fuzil, que permitia disparar oito balas sem recarregar, substituía o modelo em uso, de um único tiro. Isso confirmava as análises de Bakunin ao final de sua vida: o Estado doravante adquiriu uma força de repressão ultrapassando amplamente os meios de que dispunha a classe operária para afrontá-lo. Para Pelloutier, a greve geral, que situava a ação do proletariado nas empresas e não na rua, era o meio de limitar os confrontos sangrentos, sem os suprimir totalmente.

Em 1894, em Nantes, mil seiscentas e sessenta e duas organizações operárias deram um mandato à Federação dos Sindicatos de Trabalhadores de Limoges e do Centro para organizar o VII Congresso Corporativo que levaria à fundação da C.G.T.. Os guesdistas foram derrotados e decidiram se retirar do congresso, cedendo assim a liderança da organização a seus adversários anarquistas, allemanistas e blanquistas. “Não é menos verdade, no entanto, comenta Jean Maitron, que os anarquistas desempenharam um papel de liderança com ativistas como F. Pelloutier, E. Pouget, G. Yvetot, P. Delesalle, etc. e que o movimento sindical naquela época estava impregnado pela ideologia libertária.”[lxxii]

Os guesdistas da FNS tristemente continuarão sua jornada por alguns anos, antes de evaporarem em 1898, mas sem abandonar a ideia de um dia assumir o controle do movimento sindical. No entanto, eles tiveram sua revanche em 1896: com seus camaradas social-democratas alemães, eles excluirão dos congressos socialistas os anarquistas que participavam dessas reuniões desde o final da A.I.T.

A fundação da C.G.T. no congresso realizado em Limoges, de 23 a 28 de setembro de 1895, não entusiasmou Pelloutier, que a considerava uma entidade confusa e supérflua. De fato, era no início uma organização pouco estruturada, ineficaz, balbuciante. Por alguns anos, ele teve que travar, contra ela e sua direção reformista, uma guerrilha pela liderança no movimento sindical. Também é significativo que a fusão da Federação Nacional das Bolsas do Trabalho à C.G.T. não tenha ocorrido até 1902, após sua morte.

O Congresso de Montpellier da C.G.T. em 1902 foi, de fato, a verdadeira fundação da Confederação, porque foram fundidas a estrutura vertical (indústria ou profissão) e a estrutura geográfica horizontal (bolsas do trabalho). Vemos repetir esta estrutura dupla, definidora precisamente do sindicalismo revolucionário e mais tarde do anarcossindicalismo, e que corresponde completamente ao esquema desenvolvido por Bakunin.[lxxiii] Foi durante o congresso de Montpellier que a expressão “sindicalismo revolucionário” foi pronunciada pela primeira vez.[lxxiv]  

Thiago Lemos Silva escreve:

“Foi a partir do trabalho desenvolvido por Pelloutier e outros anarquistas junto à Federação de Bolsas do Trabalho em fins do século XIX, que se instituiu e se estruturou a Confederação Geral do Trabalho no ano 1902, órgão sindical, que como já assinalamos, serviu de inspiração para o movimento operário do Brasil e de outras partes do mundo”[lxxv].

Pelloutier desempenhou um papel determinante na virada greve-generalista do movimento sindical, depois, na virada sindicalista do movimento anarquista. No dia seguinte ao seu desaparecimento, ele foi considerado um dos “pais fundadores” do sindicalismo francês.

Émile Pouget

Nascido em 1860, Émile Pouget se envolveu muito cedo no movimento operário. Desde 1879, ele participou da criação do Sindicato dos Empregados Têxteis. Em 24 de fevereiro de 1889, ele editou um jornal semanal panfletário, Le Père Peinard, onde se propôs a despertar a consciência dos operários. Ele defendia a ação direta e a greve geral como instrumentos de luta que deveriam preceder a revolução. Em meados da década de 1890, enquanto os anarquistas permaneceram divididos na questão dos atentados, Pelloutier e Pouget se opuseram a eles[lxxvi] e fizeram campanha para que os anarquistas ingressassem nos sindicatos. Pouget desempenhou um papel cada vez mais importante na jovem Confederação Geral do Trabalho, onde defendeu a tendência revolucionária do sindicalismo contra os reformistas. Em 1897, ele fez adotar o princípio da sabotagem[lxxvii] como meio de ação sobre o patronato, além das reivindicações pela jornada de oito horas e pelo repouso semanal (Congresso de Bourges, em 1904). Ele também assumiu, a partir de 1900, o primeiro órgão de imprensa da C.G.T., La Voix du Peuple.

Foi a partir do congresso de Bourges que ele parou de reivindicar publicamente o anarquismo, sem repudiá-lo explicitamente. Durante anos, ele continuou se cercando de anarquistas, mas como líder sindical ele fez a unidade operária prevalecer sobre suas orientações ideológicas. Ele desenvolveu a ideia de que o sindicato é o “partido do trabalho” com sua própria doutrina. O sindicalismo é a “quintessência de várias doutrinas sociais, depois de eliminar tudo o que elas podem ter de estreito e demasiadamente sistemático”.[lxxviii]

Pouget desempenhou um papel excepcional como secretário assistente da C.G.T. ao lado de Victor Griffuelhes, secretário de origem blanquista. Os dois homens formaram, de 1901 a 1908, um conjunto de extraordinária complementaridade: “Em 1902, Griffuelhes foi nomeado secretário geral da C.G.T., Émile Pouget era seu assistente na seção de federações. Graças à diversidade de seus dons, esses dois militantes vão formar uma equipe perfeita.[lxxix] Pouget assumiu seu papel de líder operário, estrategista, organizador, um mentor de seu secretário Griffuelhes.[lxxx]

Émile Pouget escreveu em 1901, na A Greve Geral Revolucionária: “A greve geral não se limita à cessação do trabalho, mas deve ser seguida imediatamente da posse e reorganização da produção, além da circulação de produtos.”[lxxxi]  Assim, a contribuição anarquista sobre a questão da greve geral foi essencial no sindicalismo revolucionário: análise do papel do Estado, a recusa do parlamentarismo e dos políticos, antimilitarismo, antipatriotismo, ação direta. Não é possível dissociar anarquistas e sindicalistas revolucionários sobre esta questão[lxxxii], que foi colocada com insistência por militantes que, após o final da A.I.T., não se resignaram a serem “órfãos da Internacional” e que se obstinaram a participar dos congressos socialistas internacionais organizados pela social-democracia alemão. Esses militantes eram anarquistas? sindicalistas? Eles eram anarquistas, mas ao mesmo tempo inquestionavelmente sindicalistas revolucionários. O historiador brasileiro Thiago Lemos Silva, em seu prefácio de Anarquistas no sindicato, no debate entre Neno Vasco e João Crispim, também escreve que “a tentativa, portanto, de operar a separação entre anarquismo e sindicalismo revolucionário, reduzindo o alcance da contribuição dos seus militantes ao movimento operário, torna-se duvidosa”[lxxxiii].

Émile Pouget participou, em Amiens, da redação da famosa carta que leva o nome da cidade, e que na origem registrava apenas uma resolução do congresso. Esta “carta” resulta de um compromisso entre sindicalistas revolucionários e uma parte dos socialistas reformistas contra outra fração socialista reclamada por Jules Guesde. Os guesdistas, agora minoria no partido que fora unificado no ano anterior, defendiam a subordinação do sindicato ao partido. A fração majoritária da corrente socialista entendeu que a neutralidade sindical, entendida no sentido restritivo, os convinha perfeitamente, pois obrigava a C.G.T. a não assumir uma posição política. A rigidez mental dos guesdistas os impedia de entender que o princípio da “neutralidade” sindical estava lhes prestando um serviço. O desafio não era apenas impedir que partidos políticos entrassem no sindicato; era também, e talvez mais, impedir que o sindicato usurpasse os poderes dos partidos políticos. Por trás da aparente vitória sobre os guesdistas, houve um retrocesso em relação ao sindicalismo revolucionário original.

Se os sindicalistas revolucionários, e entre eles os anarquistas, aceitaram esse compromisso, é porque o guesdismo apareceu como um perigo maior, mas a leitura atenta das atas dos congressos socialistas após Amiens mostra que o objetivo dos reformistas moderados era o mesmo dos guesdistas, suas táticas eram simplesmente mais inteligentes. Na época do Congresso de Amiens, o partido socialista recém-unificado apareceu, portanto, como um novo centro de identificação para a classe operária: a C.G.T. não estava mais sozinha.

O Congresso de Amiens avaliza, na prática, a divisão social-democrata do trabalho entre a luta econômica e política. De certa forma, a Carta de Amiens é uma vitória indireta para o guesdismo. A C.G.T. é então dividida em três tendências: uma tendência guesdista ainda forte; uma tendência reformista ascendente e uma tendência sindicalista revolucionária.

Este congresso também marca o início de uma evolução que transformará profundamente a C.G.T. — uma evolução que, sem dúvida, explica a saída de Pouget da atividade sindical em 1909. Greves muito duras haviam enfraquecido a liderança federal. A terrível greve em Draveil-Villeneuve-Saint-Georges em 1908-1909, durante a qual vários operários foram mortos pela polícia, resultou na prisão de quase todo o comitê confederal da C.G.T., incluindo Émile Pouget. Os reformistas se aproveitaram disso para preencher os postos vagos, que os sindicalistas revolucionários conseguiram recuperar quando foram libertados, não sem algumas perdas. Em 1909, Pouget tentou lançar um grande diário sindical revolucionário, o La Révolution, que cessou rapidamente por falta de meios. Significativamente, 1909 também foi a data da criação de La Vie Ouvrière, que se tornou o porta-voz do sindicalismo revolucionário que poderia ser descrito como “revisionista” ou “modernista”, liderado por Pierre Monatte. Este último foi ao congresso anarquista internacional em Amsterdã, no lugar de Pouget, que havia desistido. Pouget então se retirou do movimento sindical e morreu discretamente em 1931.

As atividades de Pelloutier e Pouget eram perfeitamente complementares, cada uma em seu campo de atividade, sem nunca perder de vista a perspectiva geral do movimento operário e do movimento anarquista.

Pouget, refugiado em Londres, aproveitou a anistia de 1895 para retornar à França. De maio de 1895 a outubro de 1896, publicou o semanário La Sociale. Foi um período de colaboração ativa com Fernand Pelloutier e Bernard Lazare: os três homens tentaram implementar um esforço de aproximação europeia entre anarquistas e socialistas antiparlamentares para combater a crescente influência da social-democracia. Sindicalismo, antiparlamentarismo e greve geral deveriam ser os três pilares desta aproximação.

Na primavera de 1896, eles tentaram iniciar um diário, La Clameur, com o qual desejavam aproximar Jean Allemane[lxxxiv]. O projeto fracassou, o Congresso de Tours da C.G.T. (setembro de 1896) se recusou a apoiá-los: valendo lembrar de que, na sua fundação, a C.G.T. permanecia dominada pelos reformistas. Contudo, em outubro de 1896, Pelloutier e Pouget ainda estavam tentando arrecadar fundos para concluir seu projeto (cf. Le Père Peinard, 25 de outubro de 1896).

Em julho de 1896, Pelloutier e Pouget, novamente, com Hamon, Lazare e Malatesta, organizaram uma operação antiparlamentar no Congresso Socialista Internacional de Londres. Pelloutier foi o delegado da Federação das Bolsas do Trabalho, participando das conferências de Saint Martin’s Hall, que reuniram, à margem do congresso socialista, representantes europeus do anarquismo e do socialismo antiparlamentar. Embora este congresso tenha terminado com a exclusão definitiva dos anarquistas dos congressos socialistas internacionais, Jean Maitron considera um sucesso para Pelloutier. “Os guesdistas e os parlamentares socialistas, escreve Maitron, foram colocados em minoria na delegação francesa, dominada por uma coalizão de allemanistas, anarquistas e sindicalistas reformistas”.  Leon de Seilhac, citado por Maitron, vive no Congresso de Londres — isto é, a separação final dos anarquistas e socialistas – “o ponto culminante da carreira de Pelloutier”, um “golpe de habilidade e força que libertou para sempre os trabalhadores dos políticos”, uma “emboscada” onde “os guesdistas foram surpreendidos e esmagados pelas coortes romanas, sob o comando de Pelloutier, Pouget, etc. Foi um golpe de gênio”[lxxxv]. Acho que Maitron se empolga com sua verve lírica.

Pelloutier conclamava os anarquistas a engajar-se ainda mais no movimento sindical. “Os sindicatos […] sustentam, além do mais, semear na sociedade capitalista o germe de grupos livres de produtores por quem parece dever realizar-se nossa concepção comunista e anarquista. Devemos, portanto, abstendo-nos de cooperar em sua tarefa, correr o risco de que um dia as dificuldades os desencorajem e que eles lancem-se nos braços da política?” [lxxxvi].

Pouget não disse nada diferente, em outubro de 1894, no periódico The Torch no qual colaborou durante seu exílio em Londres: “Sabemos que a Revolução será realizada pelos trabalhadores em pessoa, e, por consequência, cremos no ingresso dos anarquistas nas associações de trabalhadores”[lxxxvii].

No mesmo mês, ele escreveu em Le Père Peinard um artigo (“A astuto, astuto e meio”), que marcou a reviravolta do anarquismo ao sindicalismo: “Cometemos o terrível erro de restringirmo-nos em demasia aos grupos de afinidades. Os grupos de afinidades não têm raízes na massa popular”[lxxxviii].

Se apontássemos o principal ponto comum entre Fernand Pelloutier e Émile Pouget, eu diria que eles desempenharam um papel fundamental no engajamento dos anarquistas no movimento sindical e que ambos eram táticos e organizadores de destaque.

5. — IEL: Lemos em produções historiográficas termos como “sindicalismo de ação direta” ou outros, como “sindicalismo de intenção revolucionária”. O que você diria sobre isso?

René Berthier : Dizer que o sindicalismo é “ação direta” é apenas uma maneira de qualificar o sindicalismo revolucionário. Por exemplo, Jacques Julliard escreveu, em 1972, um livro chamado Fernand Pelloutier et les origines du syndicalisme d’action directe, e é sobre o sindicalismo revolucionário. Sabemos que Pelloutier é um daqueles militantes anarquistas que estavam na origem da fundação do sindicalismo revolucionário.

A expressão “sindicalismo de intenção revolucionária” é recente, parece que serve para designar, sob o mesmo termo, duas correntes distintas, sindicalismo revolucionário e anarcossindicalismo. Aqueles que usam essa fórmula parecem considerar que as duas expressões são quase sinônimas, exceto por algumas nuances, e que não há mal em reuni-las no mesmo termo. No entanto, apesar dos pontos comuns, são duas correntes que têm diferenças importantes demais para serem confundidas. Fico tentado a acreditar que as pessoas que usam a expressão “sindicalismo de intenção revolucionária” simplesmente ignoram essas diferenças.

“Sindicalismo de intenção revolucionária” é uma expressão que parece ser utilizada principalmente pelos plataformistas[lxxxix], e que encaixa no espírito de Black Flame, o livro de Schmidt e van der Walt. Eu digo “no espírito” porque não está no livro, pelo que sei.

Em francês, a expressão “sindicalismo de intenção revolucionária” soa curiosamente porque, em nossa língua, uma intenção é um desejo de fazer algo, uma disposição de espírito pela qual nos propomos a agir. Mas quando uma pessoa declara que tem intenção fazer algo, é implicitamente entendido que ele não tem certeza de que está fazendo isso. Por fim, os camaradas que imaginaram essa expressão poderiam ter falado em “sindicalismo com um desejo revolucionário!”

Mais seriamente, rejeito a expressão “sindicalismo de intenção revolucionária” por duas razões, uma histórica e outra política.

♦ Ninguém sonharia em separar, sob o mesmo vocábulo, duas correntes estéticas nascidas em gerações distintas. O sindicalismo revolucionário nasceu entre 1890 e 1905 em circunstâncias e contextos bastante específicos: o legado da repressão da Comuna de Paris, a divisão do movimento socialista e suas brigas internas, etc.

O anarcossindicalismo nasceu na década de 1920, ou seja, uma geração depois, a partir da Revolução Russa, por uma ruptura na corrente sindicalista revolucionária que estava dentro da C.G.T.U. (uma cisão da C.G.T. francesa). Os sindicalistas revolucionários estavam divididos sobre a questão da adesão à Internacional Sindical Vermelha (ISR em francês — Internationale Syndicale Rouge), uma organização criada à margem da Internacional Comunista. Parte da corrente decidiu apoiar o regime comunista na Rússia e advogou a adesão à ISR (quando a repressão antioperários no país não podia mais ser ignorada), enquanto a outra parte se recusou a aderir. O anarcossindicalismo nasceu precisamente naquele tempo. A criação da A.I.T. de Berlim, no final de 1922 início de 1923, resulta da dupla constatação feita pela corrente sindicalista revolucionária “não bolchevique” de que era impossível trabalhar com os bolcheviques e que era impossível para eles prescindir de uma organização internacional.[xc]

No entanto, os textos fundadores da segunda A.I.T. não falam de anarcossindicalismo. De fato, os sindicalistas revolucionários que romperam com Moscou se viam como os verdadeiros sindicalistas revolucionários, não tinham motivos para mudar de nome. Especialmente porque a expressão “anarcossindicalista” era inicialmente um insulto dirigido pelos comunistas e sindicalistas revolucionários pró-comunistas àqueles que se opunham à filiação à Internacional Sindical Vermelha. Levou vários anos para que a expressão se tornasse comum. O anarcossindicalismo como corrente existia, portanto, na prática no início da década de 1920, mas foi apenas entre 1925 e 1930 que o nome foi amplamente adotado, e não foi até 1937 que a expressão adquiriu um caráter “Oficial”, em discurso de Pierre Besnard em um congresso anarquista internacional!

Os sindicalistas revolucionários que aderiram às teses comunistas simplesmente acabaram se dissolvendo no movimento comunista na França. Eles também constituíram boa parte dos principais quadros dirigentes do partido.

O sindicalismo revolucionário havia estabelecido a regra de neutralidade do sindicato em relação aos partidos e organizações políticas. A A.I.T. de Berlim havia decidido claramente a oposição do movimento sindical aos partidos. É uma distinção essencial. De fato, o movimento operário brasileiro havia precedido por dez anos os arranjos feitos pela A.I.T. em seu congresso em Berlim. De fato, o Segundo Congresso Operário Brasileiro “confirmou as orientações do sindicalismo revolucionário com grande influência anarquista e negou novamente qualquer possibilidade de o proletariado se organizar por meio de partidos políticos”.[xci] Embora o anarcossindicalismo não seja mencionado explicitamente, é disso que se trata.

As duas correntes não se distinguem pelo fato de o sindicalismo revolucionário ser uma forma “atenuada” de anarcossindicalismo ou de não se referir explicitamente ao anarquismo. [Especialmente porque existem anarcossindicalistas que rejeitam a participação no movimento anarquista, que autores como Schmidt e van der Walt parecem ignorar.] Eles se distinguem pelo fato de terem aparecido com 25 anos de intervalo e pelo fato de possuírem uma abordagem totalmente diferente para lidar com os partidos.

Quando a corrente anarcossindicalista decolou, o sindicalismo revolucionário perdeu sua influência. Alguns militantes continuaram se referindo aos temas tradicionais do sindicalismo revolucionário, notadamente a neutralidade sindical; eles se recusaram a apoiar o comunismo russo, mas também se recusaram a se juntar à corrente anarcossindicalista, mantendo-se fiéis aos princípios iniciais do movimento. Eu conheci no início dos anos 70 velhos militantes sindicalistas revolucionários que sabiam perfeitamente porque não eram anarcossindicalistas e não era “por ignorância ou recusa tática”, para usar a expressão de Schmidt e van der Walt.[xcii]

♦ Penso que certo desconhecimento da história do movimento operário explica o recurso à expressão “sindicalismo de intenção revolucionária”, desconhecimento ao qual se pode acrescentar uma intenção pedagógica, que pode parecer paradoxal. É o que emerge das minhas discussões com um camarada brasileiro que propaga esse conceito. Mas penso que também existem razões políticas: falar em “sindicalismo de intenção revolucionária” nos permite ampliar o “perímetro” do anarquismo, ou seja, integrar ao conceito “anarquismo”, indivíduos, correntes ou movimentos que podem até parecer próximos, mas que não fazem parte dele. Os argumentos de Schmidt e van der Walt prosseguem em círculos concêntricos. No centro, está o anarquismo propriamente dito. A importância numérica desse movimento sempre foi relativamente reduzida. Então eles vão expandi-lo incorporando sindicalismo revolucionário e o anarcossindicalismo. Esse processo aumenta consideravelmente o número de pessoas, já que essas duas correntes constituíram movimentos de massa no passado. Ambos são definidos como “variantes” ou “estratégias” do anarquismo.

Em relação a este ponto, não há grande coisa sobre a qual os autores de Black Flame possam fundamentar-se para justificar fatualmente essa hipótese. Sindicalismo revolucionário e anarcossindicalismo não se diferenciam na base de fatos históricos, mas na ideia de que o segundo “situa-se explicitamente no interior da tradição anarquista”, ao passo que o primeiro “não faz o liame tão explícito por causa da ignorância ou da denegação tática de seu laço com o anarquismo” (Black Flame, p. 16, versão em inglês). Tendo assim procedido, os autores de Black Flame criaram, portanto, uma entidade muito numerosa mas assaz nebulosa, que eles chamam de “Broad anarchist tradition” (tradição anarquista ampla), na qual eles vão ainda introduzir pessoas que nunca pediram para ser anarquistas, ou movimentos que decerto podem ter um vago caráter “antiautoritário” mas dos quais não se pode dizer que eles integram-se em uma “tradição” anarquista[xciii].

O paradoxo da retórica de Schmidt/van der Walt é que eles opõem-se ao que denominam  a “autoidentificação”, isto é, eles recusam-se a considerar como anarquista uma pessoa simplesmente porque ela declara-se tal; mas não hesitam em fazer “a alter-identificação”, isto é, designar como anarquista uma pessoa ou um grupo que não reclama essa honra.[xciv]

Um último ponto a concluir. Ao folhear documentos publicados por certos libertários brasileiros, às vezes tive a impressão de que seus autores relutavam em falar de “sindicalismo revolucionário” porque a expressão “revolucionário” lhes parecia desproporcional se considerarmos os meios de ação que eles dispõem no atual equilíbrio de forças. É o que entendo quando leio em um texto do CAB que “o termo ‘revolucionário’ hoje pode parecer estranho, porque parece prepotente demais diante de uma atuação que nos conduz  a certas limitações no campo prático”[xcv]. Referindo-se ao “sindicalismo de intenção revolucionária”, os autores do texto parecem ter a impressão de serem mais realistas, mais “terra a terra”, mas, ao fazê-lo, negligenciam um fato essencial: que o sindicalismo revolucionário tem uma função reivindicativa / defensiva e uma função ofensiva / construtiva, e que, se um dos dois aspectos domina em um determinado momento, é apenas circunstancial. É óbvio que, no momento, no Brasil e em qualquer outro lugar, é o aspecto defensivo que domina, mas justamente por essa razão é importante insistir no aspecto construtivo, é vital não edulcorar, não atenuar o conceito de sindicalismo revolucionário, rotulando-o com um qualificativo, “intencional”, que parece um pouco vago.

O sindicalismo revolucionário pertencente à história do movimento operário brasileiro, tem sido uma corrente histórica do movimento operário brasileiro de que os ativistas de hoje devem se orgulhar particularmente: “Os anarquistas estiveram na liderança dos dois primeiros congressos operários. Tal fato nos permite afirmar a hegemonia da estratégia do ‘anarquismo de massas’ dentro do movimento operário na Primeira República, atuando dentro do modelo do sindicalismo revolucionário”[xcvi]. Rejeitar esse termo em benefício de outro que apenas expressa um dilúvio de doutrina é, em minha opinião, insultar os revolucionários que, há cem anos, lutaram e frequentemente morreram sob sua bandeira.

6. — IEL: Você pode definir o papel de Pierre Besnard no sindicalismo revolucionário?

René Bérthier:  Pierre Besnard, nascido em 1886, não faz parte da primeira geração do sindicalismo revolucionário. Após a Grande Guerra, ele foi um militante  ativo na federação de ferroviários da C.G.T., onde ocupou importantes mandatos na região de Paris. Ele foi demitido de seu emprego em maio de 1920 por entrar em greve. Em 20 de maio de 1921, Besnard substituiu Monatte como secretário geral do Comitê Central dos Comitês Sindicalistas Revolucionários, que reunia oponentes da linha reformista da direção da C.G.T.. Nos CSR se reuniram militantes  comunistas (que seguiram as recomendações da Internacional Comunista), anarquistas, anarcossindicalistas e sindicalistas revolucionários. Os CSRs foram criados após o Congresso de Lyon da C.G.T. (1919) e estavam na origem da divisão que constituía a C.G.T.U. (“U” para “Unificado”). Besnard é, sem dúvida, o personagem que expressa da maneira mais significativa a transição entre o sindicalismo revolucionário e o anarcossindicalismo.

Quando a Revolução Russa eclodiu, o sindicalismo revolucionário, que era a corrente revolucionária dominante no movimento operário mundial, apoiou com entusiasmo a revolução. Mas pouco a pouco, quando as notícias começaram a se infiltrar e os militantes se deram conta de que o regime soviético estava reprimindo a classe operária e todos aqueles que erguiam uma voz discordante, a corrente sindicalista revolucionária se dividiu em duas: uma, com Pierre Besnard , que se recusou a apoiar tal regime, e outra, com Pierre Monatte, que optou por permanecer surdo às trágicas notícias que vinham da Rússia.  

As duas correntes coexistiram por algum tempo dentro da C.G.T.U.. O ponto de ruptura foi estabelecido na questão da adesão à Internacional Sindical Vermelha, o anexo sindical da Internacional Comunista.[xcvii] Parte do movimento sindical revolucionário declarou-se a favor da adesão e de fato desapareceu como corrente, sendo absorvida pelos Partidos Comunistas, quando não ajudou a criá-los[xcviii]; a outra parte, depois de ter participado das primeiras reuniões do ISR e de perceber a impossibilidade de colaborar com os bolcheviques, participou em 1922-1923 da criação em Berlim da Associação Internacional dos Trabalhadores (A.I.T.-Berlim). Os documentos fundadores desta nova Internacional não falam de anarcossindicalismo, é apenas uma questão de sindicalismo revolucionário. De fato, os militantes se viam como os verdadeiros sindicalistas revolucionários. O termo “anarcossindicalismo”, de criação recente, ainda não estava em uso. No entanto, a A.I.T.-Berlim era, sem dúvida nenhuma, uma organização anarcossindicalista.

Dentro da C.G.T.U., a ruptura foi consumada no congresso de Saint-Etienne (25 de junho a 1º de julho de 1921). Comunistas e sindicalistas revolucionários da tendência Monatte venceram por 743 mandatos, contra 406 de Pierre Besnard. Naquela época, “anarcossindicalista” e “anarcossindicalismo” eram termos depreciativos usados por comunistas e por sindicalistas revolucionários pró-comunistas para denotar aqueles que se recusavam a ingressar na Internacional Sindical Vermelha. Além disso, mesmo dentro do movimento anarquista, o anarcossindicalismo não era bem-vindo: Pierre Besnard escreveu em 1937 que, em 1917, “os anarquistas comunistas eram excessivamente reservados, e até hostis, a essa nova formação anarquista“[xcix]. Sabemos que, na própria Rússia, as duas correntes experimentaram uma situação de extremo antagonismo. Tudo isso não está de acordo com as teses daqueles que escrevem que o anarcossindicalismo é uma “estratégia” do anarquismo. O próprio Pierre Besnard, por muito tempo, se recusou a usar esse termo. Foi apenas no Congresso Anarquista Internacional de 1937 que esse termo foi adotado, em um relatório que o próprio fez como secretário da A.I.T., intitulado “Anarcossindicalismo e anarquismo”.[c]

Em 11 de janeiro de 1924, dois anarquistas foram mortos pelos comunistas em um comício na Casa dos Sindicatos, em Paris. A tendência de Besnard retirou-se da C.G.T.U. e formou um sindicato federativo autônomo, que depois se tornou, em 1926, a Confederação Geral do Trabalho — Sindicalista Revolucionária (C.G.T.-SR).

No congresso da C.G.T.U de 1929, os comunistas votaram a favor de uma moção:

“O congresso finalmente especifica sua determinação de trabalhar em todos os aspectos em estreito acordo com o PC, o único partido do proletariado e da luta de classes revolucionária que, através de todas as batalhas do período passado, conquistou seu lugar de dirigentes da vanguarda proletária do movimento operário.”

Os sindicalistas revolucionários que ainda estavam na C.G.T.U., os amigos de Monatte que travavam um combate de retaguarda, conseguiram fazer acrescentar a seguinte frase: “A proclamação desse papel dirigente e seu reconhecimento não poder iam ser interpretados como a subordinação do movimento sindical“. Ou seja, o sindicato reconhece o papel dirigente do partido, mas não lhe é subordinado! Essa lamentável situação mostrava claramente os limites da ação dos sindicalistas revolucionários no seio de uma organização dominada pelos comunistas.

Monatte, cujo prestígio entre os trabalhadores havia servido grandemente aos comunistas, teria aderido ingenuamente no Partido. Ele foi excluído em 1924 e foi tratado por seus ex-companheiros da pior maneira possível.[ci]

Na década de 1930, anarquistas e sindicalistas revolucionários podiam ser encontrados em três organizações:

• Primeiro, muitos militantes anarquistas, desaprovando a divisão da C.G.T.U. e a divisão que levou à C.G.T.-SR, permaneceram na C.G.T. histórica, reformista.

• Os remanescentes da corrente de Monatte que não haviam sido excluídos ou que não haviam ingressado no PC reuniram na C.G.T.U. e formaram uma batalha retaguarda. Ironia da história; Monatte foi incapaz de seguir seus camaradas pró-comunistas para a C.G.T.U., já que seu sindicato não havia se separado e permanecido na reformista C.G.T..

• A corrente de Besnard estava na C.G.T.-SR, criada oficialmente em 2 de novembro de 1926, em Lyon, e que adotou uma carta, o documento de Lyon, que constituía uma clara ruptura com a carta de Amiens[cii]. Besnard tornou-se secretário da organização em julho de 1929, que na melhor das hipóteses recebeu 15.000 membros, mas tinha apenas 4.000 em julho de 1939. Na realidade, mesmo que a C.G.T.-SR realmente tivesse sindicatos, ela desempenhou praticamente um papel de organização específica. Muitos anarquistas se opuseram à criação da C.G.T.-SR, uma oposição que se manifestou nos congressos anarquistas da época. No Congresso da União Anarquista, em 1930, apenas dois grupos de vinte e dois eram a favor da nova confederação, que alguns, em tom de escárnio, chamaram a C.G.T.-SR, “C.G.T. sans rien” (C.G.T. Sem Nada), devido ao seu pequeno número de participantes efetivos.

A C.G.T.-SR juntou-se à A.I.T., estabelecida em Berlim no início de 1923. A A.I.T. adotou a idéia de romper com a Carta de Amiens: Alexandre Shapiro escreveu que “a Grande Guerra varreu a Carta do neutralismo sindical. E a divisão na Primeira Internacional entre Marx e Bakunin teve seu eco — à distância de quase meio século — na divisão historicamente inevitável dentro do movimento operário internacional no pós-guerra”.[ciii] Essas palavras aparecem na introdução de Alexandre Shapiro ao discurso de Pierre Besnard, então secretário da A.I.T., no Congresso Anarquista Internacional de 1937. Este relatório foi intitulado “L’anarcho-syndicalisme et l’anarchisme” e  se constitui, de certa forma, no batismo do anarcossindicalismo, que se ergue pela primeira vez como doutrina.

Após a Segunda Guerra Mundial, Pierre Besnard retomou suas atividades sindicais, participou de várias tentativas de reconstruir uma organização sindical revolucionária. Ele contribuiu para a criação da Confederação Nacional do Trabalho na França, mas morreu alguns meses depois.

A intervenção de Pierre Besnard está situada no período descendente do movimento sindicalista revolucionário na França. Majoritário no momento da cisão de 1921, o declínio do movimento se deve em grande parte a seus erros estratégicos, pois se fraturou com a adesão de parte dos militantes à estratégia do comunismo russo. Besnard figura como um dos militantes que foram capazes de resistir às ilusões do comunismo soviético, conseguindo manter, como escreveu meu velho camarada Jacky Toublet, sua “bússola libertária”.

A CG.T.-SR teve um papel muito ativo durante a Guerra da Espanha. Besnard participou da criação de comitês sindicalistas anarquistas para a defesa do proletariado espanhol e foi escolhido como secretário da Conferência desses comitês, reunida em 24 e 25 de outubro de 1936. Ele foi confirmado nessa função pela plenária da A.I.T., realizada em Paris, de 11 a 13 de novembro, com o objetivo de intensificar a propaganda internacional em favor da Espanha “vermelha”. Porém, durante essa sessão plena, Besnard havia feito duras críticas à participação governamental da C.N.T. espanhola. A princípio moderadas, suas críticas se tornariam mais severas.

A C.N.T., que ameaçava deixar a A.I.T., conduziu a Internacional ao congresso extraordinário da associação em dezembro de 1937. As outras seções se curvaram: uma “resolução sobre autodisciplina” foi votada pelo congresso, cada seção comprometendo-se a não fazer críticas públicas à C.N.T. espanhola. No mesmo espírito, Pierre Besnard foi demitido do cargo de secretário-geral e substituído pelo espanhol Horatio Prieto. A A.I.T. foi assim “normalizada” e, a partir de janeiro de 1938, o Combat Syndicaliste, o jornal da C.G.T.-SR, se contentaria, morto na alma, em passar os comunicados oficiais da C.N.T..

O movimento libertário espanhol estava, às vésperas da guerra civil, muito profundamente dividido em uma corrente “comunalista” ou anarquista-comunista, inspirada por Kropotkin (diria-se “horizontalista” hoje), e uma corrente coletivista ou sindicalista, inspirada em Bakunin, àqual Rudolf Rocker, Cornelissen, Higinio Noja, Juan Peiro, Angel Pestana, Gaston Leval, Pierre Besnard e outros se uniram. Confrontados com a ausência de um programa “comunalista”, além das visões idílicas no estilo kropotkiniano, os “sindicalistas” decidiram reagir contra o espontaneismo, o otimismo e as visões rústicas. Até o estabelecimento da Frente Popular em 1936, o movimento libertário foi atravessado por vigorosas polêmicas sobre o papel dos sindicatos na sociedade pós-revolucionária: “A partir de 1932, o apelo à construção do projeto libertário comunista se multiplicarão e, tanto na Espanha quanto no exterior, começam a discutir a futura estrutura organizacional, econômica e social do anarquismo.”[civ]

Diego Abad de Santillan havia participado em 1931 no IV Congresso da A.I.T., durante o qual se opôs a Pierre Besnard, que propôs a criação de federações de indústria. O livro de Besnard, Les syndicats ouvriers et la révolution sociale, traduzido em 1931, influenciou bastante os anarcossindicalistas espanhóis e teve um papel decisivo na escolha que eles fizeram de criar federações da indústria, que ajudaram sobremaneira o anarcossindicalismo espanhol a recuperar o controle da economia em áreas que os fascistas não controlavam.[cv]

O que caracteriza Les syndicats ouvries et la révolution sociale é a perspectiva do sindicalismo operário em um contexto internacional de ascensão do fascismo: é uma obra programática que desenvolve um certo número de reivindicações transitórias destinadas a mobilizar os trabalhadores nesse período de crise mundial, que levaria à Guerra Civil espanhola e à Segunda Guerra Mundial.

Um princípio essencial abordado no livro é que o estabelecimento de uma sociedade socialista (libertária, obviamente) não podia ser plenamente realizada sem que os produtores estivessem engajados em sua organização de classe como produtores, com base em seu papel no processo de produção: verticalmente em federações de indústria, horizontalmente em federações locais, regionais, etc. Se esta organização é ou não chamada de “sindicato”, estritamente, isto não é de grande importância.

7. — IEL: Até que ponto é possível se reivindicar o sindicalismo revolucionário nos tempos atuais?

René Berthier:  O sindicalismo revolucionário surgiu na década de 1890 na França e se desenvolveu na maioria dos países para se tornar a principal força revolucionária. Sofreu uma grave crise na época da Grande Guerra, depois reapareceu na época da Revolução Russa, que provocou, no movimento, uma profunda fratura entre a corrente pró-comunista e a corrente que pretendia manter os valores iniciais do movimento. Os militantes que escolheram apoiar o bolchevismo desapareceram como sindicalistas revolucionários para se juntarem aos partidos comunistas, dos quais eles forneceram parte da liderança. Na França, isso representava problemas reais: a liderança stalinista do PC lamentou nos anos 30 que os quadros intermediários da C.G.T. tendiam a não seguir à letra as instruções do partido e a priorizar a lógica sindical em sua atividade, em vez da lógica do partido.

       A corrente que recusou a apoiar a ditadura comunista reapareceu gradualmente na forma de anarcossindicalismo. A Segunda Guerra Mundial deu um golpe terrível no movimento, primeiro porque muitos militantes foram mortos por regimes fascistas, pelo stalinismo e até por regimes democráticos. A preeminência do modelo político e sindical comunista e a miragem soviética sobre o movimento operário também contribuíram muito para o declínio do movimento em muitos países. Por fim, a ilusão de que o sistema parlamentar seria capaz de melhorar a condição salarial a longo prazo também foi uma das causas do descontentamento dos trabalhadores com a luta de classes.

Respondendo à questão: “Podemos reivindicar o sindicalismo revolucionário hoje” necessita-se interrogar acerca das condições de seu surgimento e as razões de seu desaparecimento como um movimento de massas. Também devemos destacar as razões pelas quais ele reapareceu nas décadas de 1920 e 1930 na forma de anarcossindicalismo, a fim de poder decidir qual corrente queremos reivindicar.

Falei algumas palavras sobre as condições de seu surgimento: a República formada após o esmagamento da Comuna foi ainda mais dura com as Internacionais do que com o Império derrotado; a repressão antioperára foi terrível. A classe operária se opunha categoricamente a esta República, que massacrara os insurgentes da Comuna, e também relutava em relação às múltiplas seitas socialistas divididas em vários partidos concorrentes, que desejavam obter seus votos. Foi esse contexto que favoreceu o surgimento do sindicalismo revolucionário, que também se desenvolveu em muitos outros países, segundo o princípio de que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, com poucas variações.

Colocando a questão: poder reivindicar o sindicalismo revolucionário (ou anarcossindicalismo) nos dias de hoje, equivale a pensar se as condições atuais para o reaparecimento dessa corrente são as mesmas que no início do século XX. Não me parece que seja esse o caso. Pelo menos, não nas formas que ele assumira naquela época.

Depois de 1906 na França, uma série de duras greves falharam e foram severamente reprimidas. Os limites da estratégia de confronto permanente, na ausência de uma perspectiva revolucionária, haviam sido alcançados. Além disso, dentro da C.G.T., uma poderosa corrente reformista cresceu. A tendência a aceitar as mediações sociais finalmente prevaleceu de 1908-1910: negociações em conflitos sociais, estratégia parlamentar. A Carta de Amiens foi, de fato, o sinal dessa mudança de estratégia. O refluxo do movimento sindicalista revolucionário antes da Primeira Guerra Mundial não foi o resultado de erros estratégicos de sua parte, mas o resultado de profundas mudanças na sociedade às quais não se podia opor. O fim das querelas entre as grupelhos socialistas e a unificação do partido oferece uma alternativa legalista e pacífica à estratégia de ação direta do sindicalismo revolucionário, outro polo de identificação da classe operária. O declínio do movimento revolucionário na França segue, com muita precisão, a ascensão da perspectiva parlamentar. Em contraste, o movimento revolucionário continuará em países como a Espanha, onde o menor movimento reivindicativo era seguido por uma terrível repressão, o assassinato de militantes, onde a tropa disparava contra a multidão: o trabalhador que reivindicava, dentro daqueles limites, foi praticamente obrigado a ser revolucionário.

Em geral, os militantes revolucionários não analisaram realmente as causas das mudanças no comportamento da classe operária, confrontadas com a alternativa “revolução ou reforma”. Claro que eles não tinham perspectiva suficiente. Para explicar o refluxo do movimento revolucionário, usava-se a denúncia das manobras de políticos que enganavam a classe operária, ou a passividade desta última. Assim, James Guillaume, explicando as razões pelas quais ele deixou a Suíça para se estabelecer em Paris, escreveu: “Nas margens do Léman, em Genebra, em Lausanne, em Vevey, malgrado os esforços de alguns camaradas dedicados, nós não tínhamos conosco a massa operária, muito disposta a ser desencaminhada pelos políticos.”[cvi]

Penso que a maior fraqueza do movimento libertário hoje, uma das principais razões de seu caráter extremamente minoritário, reside na ausência de análises sobre a significação e as consequências da instauração do regime representativo nas sociedades modernas.

Esses poucos detalhes me pareciam necessários para mostrar que as circunstâncias que viram o surgimento do sindicalismo revolucionário não são reproduzíveis. Durante o auge do movimento, poucas confederações sindicais podiam ser descritas como “sindicalistas revolucionárias”: a maioria dos militantes sindicalistas revolucionários era organizada em tendências dentro de organizações reformistas. Esta é a razão pela qual a recusa da C.G.T. em participar do congresso sindicalista revolucionário internacional em 1913 causou tanto choque: ela era a única organização de massa considerada sindicalista revolucionária.[cvii] Hoje, parece-me pouco realista imaginar a criação de organizações de massa hegemônicas na classe operária, como a C.G.T. francesa nos anos 1890-1900, a C.G.T. portuguesa ou a C.N.T. nos anos 1920-1930, ou a FORA argentina.

A reconstrução da C.N.T. na Espanha após a morte de Franco levantou novamente o problema da relação entre anarquismo e sindicalismo. Um problema que percorreu toda a história do sindicalismo revolucionário sem realmente encontrar uma solução. A reconstituição da C.N.T. espanhola em 1976 também não encontrou uma solução e levou à cisão e à criação da C.G.T., que hoje constitui na Espanha apenas uma alternativa sindical entre outras. Na França, aqueles que reivindicaram a herança da C.G.T.-SR tentaram criar uma organização após a guerra; eles acumularam erros estratégicos, queriam fazer uma “C.N.T. à francesa” a despeito de qualquer análise do contexto e, sessenta anos depois, estão divididos em quatro ou cinco correntes opostas que não excedem o nível de incontáveis grupos.

A mesma constatação pode ser observada em quase todos os países.

Há um último ponto que deve ser levantado antes de responder à pergunta “podemos reivindicar nos dias de hoje o sindicalismo revolucionário?” Um dos fundamentos do sindicalismo revolucionário tem sido o princípio da neutralidade sindical. Inicialmente, essa neutralidade era entendida como um princípio ativo, dinâmico: o sindicato não lidava com a política parlamentar dos partidos; mas, em virtude do princípio: “o sindicato é suficiente para tudo”, se autorizou a tomar posição sobre toda questão política de forma independente. Ele não negou a si mesmo nenhum campo de intervenção, a ponto de muitos grupos anarquistas chegarem a considerar que os sindicatos eram concorrentes de organizações políticas, incluindo anarquistas.

A ascensão da corrente reformista na C.G.T. derrubou esse conceito de “neutralidade”.[cviii]  Originalmente, o conceito de neutralidade andava de mãos dadas com a ideia de autonomia ou independência sindical, o que significava que a organização sindical se reservava o direito de se posicionar sobre qualquer assunto que considerasse importante , incluindo assuntos considerados “políticos”. A noção de que “nada é estranho ao sindicato” é uma noção perfeitamente consistente com as posições desta parte do movimento anarquista que aderiu à ação sindical e que viu nela a forma pela qual a ação anarquista deveria se exercer. Mas esse ponto de vista também despertou forte oposição de outra parte do movimento anarquista, que se viu despojado de seu campo de intervenção.

Além disso, uma análise cuidadosa dos debates no Congresso de Amiens de 1906 mostra a extensão do ataque reformista, com o objetivo de remover toda a ideia de autonomia sindical. Foi assim que a liderança confederal foi criticada por não respeitar o “apoliticismo” confederal. Porque a propaganda antirreligiosa não respeitava as crenças de muitos membros da confederação. Da mesma forma, “quando você vota na greve geral de desapropriação […] você não respeita as opiniões dos radicais. Você também não respeita as opiniões dos nacionalistas quando pratica antipatriotismo e antimilitarismo”.[cix] Estamos em uma perspectiva de “neutralidade” no sentido mais restrito da palavra, mas não no sentido de que a organização sindical possa decidir sobre qualquer orientação, mesmo política, desde que emane do próprio sindicato e não de uma instância exterior.

Foi essa concepção restritiva de neutralidade sindical e “apoliticismo” que acabou dominando a C.G.T., após o Congresso de Amiens em 1906: não havia mais a questão de lutar contra o Estado, contra o exército, contra o parlamentarismo. É nesse sentido que considero que a resolução de Amiens não era, ao contrário da ideia geralmente aceita, a exposição-típica da doutrina sindicalista revolucionária; era, pelo contrário, a expressão do início de seu refluxo.  Portanto, entenderemos que não é esse sindicalismo revolucionário a que nos referiremos hoje. Será preferido o anarcossindicalismo, que de alguma forma o substituiu, reafirmando inequivocamente a preeminência da organização de massas sobre a organização política.

Se dificilmente se pode esperar reconstituir, em sua forma, um movimento sindicalista revolucionário de massa, tal como existia no início do século XX, pode-se, por outro lado, definir quais são os valores do sindicalismo revolucionário que são necessários esforçar-se para difundir e recuperar o espaço perdido, ou uma parte substancial dele. Os militantes de hoje podem restringir um certo número de princípios fundamentais sobre os quais se basear para começar a reconquistar, mesmo que apenas parcialmente, o terreno perdido.

Esses princípios são enunciados por Ralph Darlington[cx], que enfatiza que o sindicalismo revolucionário apresentou um certo número de constantes em suas várias manifestações internacionais:

A luta de classes;

Oposição ao parlamentarismo e ao Estado;

Independência de partidos políticos;

Sindicalismo como instrumento da revolução;

Ação direta;

A greve geral;

 controle operário;

Antimilitarismo;

Internacionalismo.

A esses princípios, acrescentaria que os militantes de hoje devem insistir particularmente na ideia de controle dos mandatos, rotação dos mandatos e revogabilidade.

Vamos insistir, particularmente, na ideia de que uma transformação profunda da sociedade só pode ser feita pela organização de classe dos trabalhadores, ou seja, pela organização que agrupa os trabalhadores de acordo com seu papel no processo produtivo. Hoje uma organização de luta pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores, amanhã órgão de reconstrução de uma sociedade emancipada.

Anexos -entrevista René Berthier para o IEL.

Anarcossindicalismo e anarquismo. Tática e intervenção sindical.

Relatório de Pierre Besnard, Secretário da AIT no Congresso Anarquista Internacional de 1937 (extratos)

Disponível em:(http: //monde-nouveau.net/IMG/pdf/rapport_de_pierre_besnard_1937.pdf

  • O papel dos grupos anarquistas e dos sindicatos:

    O exposto acima leva-nos normalmente e logicamente a considerar o papel dos grupos anarquista e dos sindicatos.

     Os anarcossindicalistas admitem perfeitamente que os grupos anarco-comunistas, mais móveis que os sindicatos, prospectem as massas trabalhadoras; que eles procurem seus membros e formem seus militantes; que eles fazem uma propaganda ativa e intenso trabalho de limpeza, a fim de trazer a eles e, consequentemente, aos sindicatos anarcossindicalistas, à causa da revolução social, o maior número possível de trabalhadores enganados e iludidos por todos os partidos políticos, sem exceção.

    Essa tarefa puramente ideológica. Essa tarefa de propaganda moral é, sem dúvida, responsabilidade dos grupos anarquistas comunistas, sob a condição expressa de que se identifiquem com o trabalho dos sindicatos anarco-sindicalistas, de que os complementem e fortaleçam, para o bem maior do comunismo libertário.

    Mas, sem rodeios, eu declaro que a responsabilidade pela decisão, a ação e o controle destes devem atualmente pertencer aos sindicatos, agentes de execução e realização de tarefas revolucionárias.

    Também acredito que cabe a esses sindicatos apresentar todas essas tarefas, sobretudo a econômica, defensivamente e ofensivamente.

    Por fim, considero que o sistema econômico, administrativo e social deve ser homogêneo, harmônico, e que a base desse sistema, para ser real, sólida e duradoura, só pode ser econômica.

     Reivindico como um direito aos sindicatos a realização de tarefas econômicas revolucionárias e pós-revolucionárias, porque a organização da produção é a verdadeira função dos trabalhadores.

     Por outro lado, é lógico que as comunas, organismos administrativos, seus serviços técnicos e sociais cuidem da distribuição da produção; interpretar os desejos dos homens no nível social, organizar a vida em todas as suas manifestações. A partir de agora, os grupos anarquistas têm o dever de preparar essas conquistas revolucionárias.[cxi]

      O trabalho de cada uma das organizações é, portanto, extremamente claro, perfeitamente definido. Será mais do que suficiente aceitar a atividade e os esforços de todos em cada nível, de acordo com as atribuições reais de cada pessoa.

     Em momento algum, dou a garantia mais formal, os sindicatos anarcossindicalistas não podem constituir um obstáculo ao avanço do comunismo revolucionário.

     Em nenhum momento, eles também podem se tornar reformistas, porque são e permanecerão revolucionários, federalistas e antiestatistas, porque visam, em uma palavra, como os grupos anarco-comunistas, estabelecer o comunismo libertário.

    Para concluir esta parte da minha exposição, afirmo:

  1. Que o movimento anarcossindicalista não pode se desviar, por causa do controle permanente e severo exercido sobre as organizações e seus militantes;
  • Que o movimento anarcossindicalista esgota, no plano atual, no domínio revolucionário, os meios de realização do comunismo libertário. Que cabe aos grupos anarco-comunistas, em um nível exclusivamente ideológico, levar a propaganda o mais longe possível;
  • Que o movimento anarco-comunista deve se interessar, sobretudo, nas tarefas de propaganda e educação; estudo e popularização social;
  • Que o melhor contato permanente que pode ser alcançado será, como na Espanha, a participação irrestrita de todos os anarquistas comunistas, em todos os países, a sindicatos anarcossindicalistas, responsáveis ​​pela preparação e execução da ação, sejam, somente eles, capazes de realizá-lo, com mão de obra e meios suficientes; que a doutrina experimental do anarcossindicalismo, que é a do próprio anarquismo, é forte e firme o suficiente para não arriscar nenhum ataque, mitigação ou desvio.
  • Que o anarco-comunismo, a verdadeira figura do socialismo, nasceu do fracasso total de todos os partidos políticos; que o anarcossindicalismo, forma moderna e ativa desse movimento, resultante do anarquismo, atualmente cumpre todas as tarefas positivas do anarco-comunismo e prepara os caminhos do comunismo libertário dos quais ele será o principal agente de realização; que as tarefas do anarco-comunismo – como as do anarcossindicalismo – se esgotarão no período pós-revolucionário, quando os homens, por sua evolução e desenvolvimento de suas faculdades de entendimento, poderão acessar o comunismo livre, a finalidade da anarquia.

     Em resumo, o anarcossindicalismo é a força necessária da luta, sob o regime atual, do agente de realização econômica do comunismo libertário, no período pós-revolucionário.

     O anarquismo ajuda o movimento anarcossindicalista, sem substituí-lo.

     A atividade de seus ativistas se confunde, nos sindicatos, com a de militantes anarco-sindicalistas.

     Os dois movimentos, portanto, devem-se ajuda permanente e mútua.

     E mais tarde, em paz, em concordância e harmonia, o anarquismo e o anarcossindicalismo, combinados em um movimento, buscarão a realização do comunismo livre, o objetivo supremo da anarquia.

     A tarefa mais urgente do anarcossindicalismo hoje é organizar os trabalhadores, com vistas à luta decisiva contra o capitalismo; preparar tecnicamente essa luta, sintetizar as forças de produção para a construção revolucionária da ordem comunista libertária; e, amanhã, a organização econômica. E isso, até o estabelecimento do comunismo livre; para defender, finalmente a revolução.

   A tarefa do anarquismo revolucionário consiste em ajudar com toda a sua força,  até sua realização, por todos os meios à sua disposição.

  • Relatos de anarquismo e anarco-sindicalismo.

    Claramente, as análises indicam existir uma conexão entre anarquismo e anarco-sindicalismo, tanto nacional quanto internacionalmente. AIT, além disso, previu essa possibilidade a partir de seu congresso constitutivo.

    Essas relações devem basear-se na independência e autonomia recíproca dos dois movimentos e permanecer no plano da perfeita igualdade.

    Além da co-penetração dos dois movimentos, através da ação de seus militantes, é desejável que em cada localidade, cada região, cada país, sejam estabelecidos contatos entre organizações anarquistas e anarcossindicalistas.

    Para serem frutíferos e duradouros, esses relacionamentos deverão se basear nos fundamentos da tolerância mútua, facilitados por uma identidade de doutrina em todos os níveis e um entendimento exato das tarefas que incumbem aos dois movimentos.

Essas tarefas são suficientemente definidas por este relatório para evitar confusão e sobreposição.

1. A unidade doutrinária dos anarquistas em cada país;

2. A unificação, também em cada país, de agrupamentos anarquistas, sobre o plano da doutrina única do anarquismo revolucionário.

Conclusões Gerais.

     Quaisquer que sejam os desejos do Congresso e os da AIT para alcançar essas relações, eles não serão capazes de alcançá-los, como os eventos exigem, se essas condições não forem atendidas previamente pelos movimentos anarquistas de cada país.

     Teria sido infinitamente preferível e também em conformidade com nossos princípios conhecidos, que são os do federalismo, se essa unidade de doutrina e essa unificação de forças anarquistas tivessem sido alcançadas antes do Congresso que daria nascer a Internacional Anarquista.

    Em nome dos anarco-sindicalistas que alcançaram esse duplo objetivo, pela constituição da atual AIT, desde 1922, peço a todos os nossos camaradas anarquistas revolucionários que nos sigam dessa maneira.

    Se todos aceitarem, a Internacional que sairá deste Congresso merecerá o título que certamente concederá e que só poderá ser: A Internacional Anarquista Revolucionária – e eu insisto – eles alcançarão esse objetivo sem dificuldade.

       Basta, mas é necessário, que todos concordem em romper definitivamente com as supostas forças democráticas, tanto políticas quanto sindicais; que eles afirmam que o anarquismo revolucionário, por seus objetivos, seus meios de ação, sua doutrina, não tem nada e não pode ter nada em comum com as chamadas forças “democráticas” que são, em todos os países, o melhores servos do capitalismo.[cxii]

      Se, levando esse gesto ao seu limite, o movimento anarquista revolucionário também rompe com toda a dissidência dos partidos políticos autoritários que, como seus partidos originais, têm apenas um desejo: tomar ou recuperar o poder, o movimento anarquista revolucionário e o movimento anarco-sindicalista poderão caminhar sem medo e juntos em direção a seu objetivo comum: a transformação social revolucionária através do estabelecimento do comunismo libertário, um passo necessário no comunismo livre.

Secretário Geral da AIT

Pierre Besnard


[i] Cf. Lucien van der Walt and Michael Schmidt. Black Flame: The Revolutionary Class Politics of Anarchism and Syndicalism (Counter-Power vol. 1). South Africa: AK Press, 2009, p.16.  

Cf. Também citado por Felipe Corrêa : “o sindicalismo revolucionário não surge nos anos 1890, tendo suas origens nos anos 1860 e desenvolvendo-se durante os anos 1870 e 1880…“ Ideologia e Estratégia : anarquismo, movimentos sociais e poder popular (Faísca, 2011, p. 69.)

[ii] De forma ilustrativa, James Guillaume situa o “nascimento” do sindicalismo revolucionário em 1904: os assalariados, ele diz, “se organizaram em grupos de trabalhadores locais (bolsas de trabalho), por um lado, em federações comerciais por outro lado. Da união dessas duas organizações surgiu, em 1895, a Confederação Geral do Trabalho, que, desde 1904, na maior parte, se colocou no terreno do sindicalismo revolucionário”. James Guillaume, L’internationale, documents et souvenirs, Tome IV, p. VII. Éditions Gérard Lebovici.

[iii] Citado por Jean Jaurès, Histoire sociaiste, XI, p. 490.

https ://fr.wikisource.org/wiki/Page :Jaur%C3%A8s_-_Histoire_socialiste,_XI.djvu/490

[iv] Alexandre Samis. Negras Tormentas, o federalismo e o internacionalismo na Comuna de Paris, São Paulo. Editora Hedra, 2011, pp 311-338.

[v] Ver : René Berthier, “Répression anti-syndicale et anti-anarchiste en France de la fin de la Commune à la Grande guerre”, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article552.

[vi] Edouard Dolléans, Histoire du mouvement ouvrier 1870-1936.

[vii] Cf. Marianne Enckell, La Fédération jurassienne. Les origines de l’anarchisme en Suisse, Genève-Paris, Entremonde, 2012.

[viii] Citado por par James Guillaume, L’Internationale, documents et souvenirs, tomos IV, VI, 8, p. 108, Éditions Gérard Lebovici.

[ix]  Edilene Toledo. Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário : trabalhadores e militantes em São Paulo na Primeira República. São Paulo : Perseu Abramo, 2004, p. 60.

[x] “Entre aqueles que reivindicam o anarquismo e se dizem anarquistas, com adjetivos diferentes ou sem adjetivos, existem duas frações: apoiadores e oponentes do princípio da organização. (…) O erro fundamental dos anarquistas que se opõem à organização é acreditar que não pode haver organização sem autoridade — e, convencido dessa hipótese, preferir renunciar a toda organização do que admitir a menor autoridade.” MALATESTA, E. (L’Agitazione, 11 juin 1897.)

[xi]   Cesar M. Lorenzo.Le mouvement anarchiste en Espagne. Les Éditions libertaires, pp. 44-45. “Coletivista”: Era o termo ao qual Bakunin se referia e seria aproximadamente sinônimo de “anarcossindicalista” em oposição a “anarquista-comunista”. O significado da palavra variou posteriormente.

[xii] Relatório de polícia: “Guillaume”, 18 mai 1895; in À contretemps, n° 36, janvier 2010.

[xiii] “Ed infatti vi furono, specialmente in Francia, degli anarchici che, entrati nel movimento operaio con i migliori propositi, per portare la parola ed i metodi nostri in mezzo alle masse, furono poi assorbiti e trasformati, innalzarono il grido ‘il sindacalismo basta a se stesso’… e ben tosto cessarono dall’essere anarchici.” (“Sindacalismo e anarchismo”, Umanità Nova, 6 aprile 1921)

[xiv] “Non è vero quel che pretendono i sindacalisti che l’organizzazione operaia di oggi servirà di quadro alla società futura e faciliterà il passaggio dal regime borghese al regime egualitario. È un’idea questa che trovava un favore fra i membri della Prima Internazionale; e se mal non ricordo, negli scritti di Bakunin si trova detto che la nuova società si realizzerebbe mediante l’entrata di tutti i lavoratori nelle Sezioni dell’Internazionale. Ma a me ciò pare un errore.” (“Sindacalismo e anarchismo”, Umanità Nova, 6 aprile 1921).

[xv] “Il movimento operaio, malgrado tutte le sue benemerenze e tutte le sue potenzialità, non può essere per se stesso un movimento rivoluzionario, nel senso di negazione delle basi giuridiche e morali della società attuale.” (“Sindacalismo e anarchismo”, Umanità Nova, 6 aprile 1921).

[xvi] “Se per la vita dell’organizzazione e per i bisogni e la volontà degli organizzati è ’proprio necessario transigere, cedere, venire a contatti impuri colla autorità e coi padroni’, che ciò sia; ma sia fatto dagli altri e non dagli anarchici.” “Sindacalismo e anarchismo”, Pensiero e Volontà, anno II, n° 6, 16 aprile-16 magio 1925.

     É verdade que Malatesta às vezes diz o contrário: “Nós, nesses últimos anos, nos aproximamos de diversos partidos de vanguarda para uma ação prática e nos demos sempre mal. Devemos, por isso, nos isolar, evitar os contatos impuros e não nos mover ou tentar nos mover exceto quando possamos fazê-lo unicamente com nossas forças e em nome do nosso programa integral? Eu não creio nisso.” Rivoluzione et lotta quotidiana, 6. L’alluvione fascista. www.liberliber.it. Mas nesta passagem, não se trata da luta sindical – o ponto central da crítica de Malatesta — mas a atividade dos anarquistas “especifistas“ (grifo do tradutor).

Agradeço imensamente à colega Profª Drª Cláudia Costa, historiadora e italianófila, pelo auxílio inestimável da transcrição direta da citação, em italiano, para o português. (Nota do tradutor)

[xvii] Em 1ºmai 1891 , La Révolte, n° 6, 18-24 outubro 1890. Citado por Jean Maitron, Le mouvement anarchiste en France, Tel Gallimard, t. I. Alguns autores acreditaram ver nesta incitação a prova de que Kropotkin era favorável ao sindicalismo revolucionário. De fato, o modelo sindical que Kropotkin tem em mente é a das Trade Unions inglesas. (Ver: René Berthier: “Concerning Black Flame: Was Kropotkin a Revolutionary Syndicalist?” http://monde-nouveau.net/spip.php?article741

[xviii] Citado por Jean Maitron, tomo I, p. 266.

[xix] “(…) os anarquistas engajados no movimento sindicalista revolucionário receberam duríssimas críticas de grande parte do mundo anarquista“. Edilene Toledo. Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário: trabalhadores e militantes em São Paulo na Primeira República. São Paulo : Perseu Abramo, 2004, p. 51.

[xx] Grifo do autor.

[xxi] Jacy Alves de Seixas, Mémoire et oubli, Anarchisme et syndicalisme révolutionnaire au Brésil, Éditions de la Maison des sciences de l’Homme, Paris, p. 106-107.

[xxii] Jules Guesde foi o líder de uma das muitas frações socialistas. Ele era extremamente rígido e considerou que o movimento sindical deveria estar subordinado ao Partido Socialista. Ele era ferozmente contrário à greve geral. Guesdistas e sindicalistas revolucionários eram adversários ferozes. Os guesdistas haviam fundado em 1886 uma organização sindical, a Federação Nacional dos Sindicatos (FNS), ancestral da C.G.T.. A corrente favorável à greve geral foi tão poderosa no movimento operário que os guesdistas não puderam impedir que a FNS se inclinasse a favor da greve geral em seu congresso em 1892.

[xxiii] Sexto Congresso Nacional de Bolsas do Trabalho, Toulouse 15, 16, 17 et 18 septembre 1897, Toulouse, imprimerie Berthoumieu, 1897, p. 50. 

[xxiv] A. Lagailse, primeiro secretário geral da C.G.T., é um personagem bastante evasivo: não sabemos seu primeiro nome, nem seu local e data de nascimento.

[xxv] 10º Congresso Nacional dos trabalhadores (IVº da C.G.T.), realizado em Rennes em 26, 27, 28, 29, 30 e 1º de outubro de 1898. Relatório sobre o trabalho do congresso, Rennes, Imprimerie des arts et manufactures, 1898, p. 107

[xxvi] Auguste Keufer, da Federação do Livro (Artes graficas), é tesoureiro e um certo A. Pergay, motorista de charretes, arquivista.

[xxvii] 11º Congresso Nacional de trabalhadores (V da C.G.T.), realizado na Bolsa de trabalhadores de Paris, em 10, 11, 12, 13 e 14 de setembro de 1900, op. cit., relatório do Comitê da confederação, p. 26.

[xxviii]Ver René Berthier, “Bakounine : une théorie de l’organisation”, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article378.

[xxix] Veja o relatório dos debates do congresso de Montpellier, 1902: “… Estamos convencidos de que as discussões profundas que eles promoverão, mostrarão a todos a força crescente do sindicalismo revolucionário e a conscientização cada vez mais esclarecida da legitimidade das demandas dos trabalhadores …” (Ibidem, p. 40)

“Muito honestamente, Bourchet acredita na superioridade da ação estritamente sindicalista revolucionária sobre a ação semi-sindical e semi-política …” (p. 220) http://www.ihs.cgt.fr/IMG/pdf_09_-_1902_-_Congres_Montpellier.pdf

[xxx] http://monde-nouveau.net/spip.php?article576.

[xxxi] 1906- XVº Congresso Nacional dos Trabalhadores (IXe de la C.G.T), e Conferência das Bolsas do Trabalho, Amiens, 8 a 16 outubro 1906.

[xxxii] Grifo do autor.

[xxxiii] “L’anarchosyndicalisme, l’autre socialisme”, Jacky Toublet, Prefácio à La Confédération générale du travail d’Émile Pouget, Editions C.N.T. Région parisienne, 1997.

[xxxiv]Cf. Marx, “De l’indifférence en matière politique”. http ://monde-nouveau.net/spip.php?article74.

[xxxv] Existe uma boa tradução dessa obra, de seu primeiro volume, para a língua portuguesa, sob o título: Da Capacidade Política das Classes Operárias. vol.1.. São Paulo: Intermezzo/CCS, 2019. (nota IEL)

[xxxvi] Ver “A propos du Manifeste des Soixante”, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article74.

[xxxvii] Proudhon, De la Capacité Politique des Classes Ouvrières.

[xxxviii] No original em francês, Berthier ressalta uma noção de progressão na frase : “mais qui à ce moment-là” (les grévistes) “outrepassaient, au for extérieur, leur droit”. Buscamos traduzir sem atribuir, obviamente, a ideia de que Proudhon, de alguma forma, defendia a legalidade burguesa como limite à ação política da classe trabalhadora (N.T.)

[xxxix] Samuel Hayat, “De l’anarchisme proudhonien au syndicalisme révolutionnaire : une transmission problématique”. Artigo publicado em Edouard Jourdain (dir.), Proudhon et l’anarchie, Publicação da société P.-J. Proudhon, 2012.

[xl] Ver Gaetano Manfredonia, “Les lignées proudhoniennes dans l’anarchisme français”, Les Travaux de l’Atelier Proudhon, n° 11, “Les anarchistes et Proudhon. Actes de la journée d’étude de la société P.-J. Proudhon, 19 octobre 1991”, Paris, Atelier Proudhon – EHESS, p. 37-66.

[xli] Cf. : “Manifeste des Soixante”, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article72. “A propos du Manifeste des Soixante” http ://monde-nouveau.net/spip.php?article74

[xlii] Existe uma boa tradução dessa obra para a língua portuguesa, sob o título: O Anarquismo e os Sindicatos Operários. São Paulo: Intermezzo, 2019. (nota IEL)

[xliii] Na citação original em francês de Émile Pouget: “Proudhon, […] pressentant le syndicalisme, évoquait le fédéralisme économique qui se prépare et qui dépasse, de toute la supériorité de la vie, les concepts inféconds de tout le politicanisme…”.

[xliv] S. Hayat, Loc. cit.

[xlv] Cf. Pierre Ansart, Naissance de l’anarchisme, PUF, 1970, p. 131.

[xlvi] S. Hayat, loc. Cit. Canuts são operários tecelões de seda na França. Apesar de, via de regra, serem melhor remunerados, se destacaram em diversas revoltas naquele país no século XIX, com destaque em Lyon. Ver, por exemplo, “Mutuellisme et démocratie, l’exemple des Canuts de Lyon”. Disponível em https://mapetitebibliothequerouge.wordpress.com/2018/05/06/mutuellisme-et-democratie-lexemple-des-canuts-de-lyon/. (NT)

[xlvii] “Rejeitamos a ideia de que personagens como William Godwin (1756-1836), Max Stirner (1806-1856), Proudhon, Benjamin Tucker (1854-1939) e Leon Tolstoy (1828-1910) fazem parte da grande tradição anarquista”. Schmidt-van der Walt, Black Flame, AK Press, p. 9.

[xlviii] Proudhon “… era hostil às greves, o que o isolou do movimento laboral emergente”. (Black Flame).

[xlix] Schmidt e Van der Walt esquecem ou ignoram que na França, como na Itália, o movimento anarquista suposto ser o “herdeiro” da A.I.T. (mas que de fato havia esquecido sua herança) se ter, no início vigorosamente oposto ao sindicalismo. Este é um episódio que obviamente tendemos a esconder quando queremos fazer de conta que o sindicalismo é uma “estratégia” do anarquismo.

[l] 11º Congresso Nacional dos Trabalhadores (V° da C.G.T.), realizado na bolsa de trabalho de Paris, em 10, 11, 12, 13 e 14 de setembro de 1900. Paris, Imprimerie nouvelle, 1900.

[li] http ://1libertaire.free.fr/DColson20.html

[lii] Traduzido para o francês por Éditions Noir & Rouge.

[liii] Ver o ensaio de leitura indispensável de Maurizio Antonioli Maurizio Antonioli, Bakounine entre syndicalisme révolutionnaire et anarchisme, Éditions Noir & Rouge, pp. 14-15.

[liv] Ver o ensaio fundamental de Maurizio Antonioli, Bakounine entre syndicalisme révolutionnaire et anarchisme, Éditions Noir & Rouge.

[lv] Carlo Romani, Oreste Ristori, vita avventurosa di un anarchico tra Toscana e Sudamerica, Biblioteca Franco Serantini, pp. 163-164. Nesse congresso, uma resolução evoca a existência da luta de classes, que os operários não criaram “mas que foram forçados a aceitar”. Isto é muito nítido. O que me faz pensar no bilionário americano Warren Buffett, que disse há pouco tempo: “A luta de classes existe, nós vencemos”. De fato, a citação em si é: “Há uma luta de classes, é claro, mas é a minha classe, a dos ricos, que está em guerra. E nós vencemos.” [Publicado no Brasil : Carlo Romani. Oreste Ristori — Uma aventura anarquista. São Paulo: AnnaBlume/Fapesp, 2002.]

[lvi]Alexandre Samis, Sindicalismo e anarquismo no Brasil, file :///C :/Users/unknown2/AppData/Local/Microsoft/Windows/INetCache/IE/NRSOBRFR/alexandre-samis-sindicalismo-e-anarquismo-no-brasil.pdf. e https://ithanarquista.files.wordpress.com/2013/01/alexandre-samis-sindicalismo-e-anarquismo-no-brasil.pdf

[lvii] Luiggi Fabbri, “Il sindacalismo”, in Il Pensiero, 1er junho 1905, citado por M. Antonioli, op. cit.

[lviii] Ver : “A proposito di sindicalismo”, in La Vita Operaia, 14 julho 1906, citado por M. Antonioli, op. cit.

[lix] R. Caughi, “Bakounine et le syndicalisme”, in Les Temps Nouveaux, 26 janeiro 1907. http ://monde-nouveau.net/spip.php?article506.

[lx] M. Isidine, “Le syndicalisme révolutionnaire et les partis politiques en Russie”, in Les Temps Nouveaux, 6 julho 1907. Isidine era um pseudônimo de Marie Goldsmith, que, juntamente com Pierrot, tinha feito parte do grupo ESRI. (Estudantes Sindicalistas Revolucionários Internacionalistas). Ver J. Maitron, Le groupe des étudiants… loc. cit. Cf. http ://monde-nouveau.net/spip.php?article507.

[lxi] Resposta de Pierrot (ao artigo de Lagardelle) in Les Temps Nouveaux , 27 abril 1907. Todo o debate foi retomado em “Il Divenire Sociale”, 16 mai 1907.

[lxii] M. Pierrot, “Le syndicalisme”, in Les Temps Nouveaux, 11 mai 1907. http ://monde-nouveau.net/spip.php?article508

[lxiii] Ver : Gaston Leval, “La Crise permanente de l’anarchisme”, http ://monde-nouveau.net/IMG/pdf/Leval_Crise_permanente.pdf

[lxiv] Anarquistas no sindicato, um debate entre Neno e Joao Crispim, Terra livre/núcleo de estudos libertários Carlo Aldegheri, p. 17.

[lxv] Carlos Augusto Addor, A insurreiçao anarquista no Rio de Janeiro, p. 145 (ed. Achiamé, 2002).

[lxvi] Christina Roquete Lopreato, O Espírito da revolta, a greve geral anarquista de 1917, ed. Annablume / FAPESP, p. 216

[lxvii] Os allemanistas (partidários de Jean Allemane, fundador em 1891 do Partido Operário Socialista Revolucionário) eram operários apegados à política eleitoral, mas que buscavam uma alternativa revolucionária ao parlamentarismo. Eles apoiavam o sindicalismo e a greve geral. Muitos militantes allemanistas fizeram campanha ao lado de Fernand Pelloutier no interior das Bolsas do Trabalho. Pelloutier então pensou que o POSR — o partido mais importante do socialismo na França — estava desenvolvendo uma evolução que o aproximava do anarquismo. De fato era, escreveu ele, um “berçário da anarquia”. (La Revue bleue, n° 6, 8 août 1896. Citado por Jean Maitron. Le mouvement anarchiste en France, T.1, p. 293).

Até a Revolução Russa, houve muitas tentativas na Europa de reunir socialistas revolucionários, anarquistas e sindicalistas revolucionários. A recomposição desejada por alguns anarquistas fracassou na questão da participação nas eleições e na do Estado. Também é uma constante que, quando grupos de socialistas da oposição deixam a maison mére (“casa mãe”) social-democrata para frequentar os anarquistas, eles rapidamente acabam voltando “para casa”. Os opositores da política social-democrata acabarão percebendo que estes últimos mantêm mais afinidades com a “casa mãe” do que com a corrente anarquista. A atração pelas sirenes eleitorais superava a perspectiva de uma greve geral.

[lxviii] Citado por Marc Angenot, Discours social / Social Discourse Nouvelle série Volume XIV (2002), p.14.

[lxix] Sobre as Bourses du travail, ver :

* Fernand Pelloutier, Histoire des Bourses du travail (http ://kropot.free.fr/Pelloutier-Bourses.htm)

* David Rappe, “Les Bourses du travail, une expression de l’autonomie ouvrière” in Cahiers d’histoire, revue d’histoire critique, Dossier : les Bourses du travail : quels enjeux ? (https ://journals.openedition.org/chrhc/2360)

* David Rappe, La Bourse du travail de Lyon, éditions Atelier de création libertaire (http ://libertaire.pagesperso-orange.fr/portraits/bourse.htm)

* Vitor Ahagon, A trajetória militante de Adelino de Pinho : passos anarquistas na educação e no sindicalismo, Universidade de Sao Paulo, 2015(https ://www.academia.edu/36599934/A_trajet%C3%B3ria_militante_de_Adelino_de_Pinho_passos_anarquistas_na_educa%C3%A7%C3%A3o_e_no_sindicalismo)

[lxx] Ver: “1893 : Débat sur la grève générale au congrès national des chambres syndicales et groupes corporatifs ouvriers

(http ://monde-nouveau.net/spip.php?page=recherche&recherche=1893).

[lxxi] Ver: Congrès de Nantes ftp ://ftp.bnf.fr/024/N0241316_PDF_1_-1DM.pdf

[lxxii] Jean Maitron, Le mouvement anarchiste en France, Gallimard, vol. I, p. 291 nota 82.

[lxxiii] Ver : René Berthier, “Bakounine : une théorie de l’organisation”, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article378

[lxxiv] Essa constatação, que é o resultado de minha pesquisa, pode ser modificada naturalmente por pesquisas posteriores.

[lxxv] Thiago Lemos Silva, prefácio, Anarquistas no sindicato, um debate entre Neno e Joao Crispim, Terra livre/núcleo de estudos libertários Carlo Aldegheri, p. 21.

[lxxvi] Após a execução de Ravachol, Le Père Peinard, o hebdomadário de Pouget, dedicou sua primeira página à greve geral como um método revolucionário. (4 de setembro de 1892.)

[lxxvii] Por “sabotage”, entende-se a implementação de todos os meios que levam à redução dos lucros dos empregadores, não à destruição. É a aplicação do princípio: “Má remuneração, mau trabalho”.

[lxxviii]Resumo do Congresso de Bourges, em setembro de 1904. http ://www.ihs.cgt.fr/spip.php?rubrique70.

[lxxix] Édouard Dolléans, Histoire du mouvement ouvrier (1871-1936): tome II. Librairie Armand Collin. p. 81.

[lxxx] Ver Émile Pouget, 1906 le congrès d’Amiens, et la présentation de Miguel Chueca. Editions C.N.T. région parisienne. 2006.

[lxxxi] “A greve geral revolucionária”. Confederação Geral do Trabalho, Comissão de Propaganda e Greve Geral. 1901.

[lxxxii] https ://resistance71.wordpress.com/2010/12/23/greve-generale-un-concept-revolutionnaire/.

[lxxxiii] Thiago Lemos Silva, prefácio, Anarquistas no sindicato, um debate entre Neno e Joao Crispim, Terra livre/núcleo de estudos libertários Carlo Aldegheri, p. 20.

[lxxxiv] Um documento do departamento de polícia de Paris, datado de 27 de janeiro de 1897, nos diz que Pelloutier é “o parceiro do anarquista Pouget, para a administração da Sociedade de Jornais e Publicações Populares” (sociedade para a exploração de diversos jornais anarquistas, tais como Le Monde Nouveau — La SocialeLe Père Peinard La Clameur, com sede na casa de Pouget, 15 rue Lavieuville). (Https: //anarchiv.wordpress.com/2016/12/27/fernand-pelloutier-et-emile-pouget-en-relations-daffaires-en-janvier-1897/

[lxxxv] http ://maitron-en-ligne.univ-paris1.fr/spip.php?article156461.

[lxxxvi] Pelloutier, “Carta aos Anarquistas”, 1900.

[lxxxvii] Citado por Jean Maitron, http ://maitron-en-ligne.univ-paris1.fr/spip.php?article155495.

[lxxxviii] Ibidem.

[lxxxix] Corrente do campo anarquista cujo nome é uma referência direta ao documento cuja autoria nos remete aos anarquistas russos N. Makhno e P. Archinoff. Sob o título de Plataforma Organizacional para a União Geral de Anarquistas, o texto tornou-se público em 1926. Pela natureza de seu conteúdo e principalmente em função da conjuntura histórica a “Plataforma” se torna ponto de polêmica atraindo para a arena dos debates o experiente militante anarquista italiano Errico Malatesta. Ver para esse debate: Errico Malatesta. Autoritarismo e Anarquismo. São Paulo: Imaginário, 2004. (nota IEL)

[xc] Ver : Arthur Lehning : Du syndicalisme révolutionnaire à l’anarchosyndicalisme : La naissance de l’Association internationale des travailleurs de Berlin . http ://monde-nouveau.net/spip.php?article464. O relato de um ativista que participou dos eventos.

[xci] Hamilton Moraes Theodoro dos Santos, Anarquismo e Formação do Partido comunista do Brasil (PCB). Rio de Janeiro: Rizoma editorial, 2017, p. 81.

[xcii] Black Flame, p. 16.

[xciii] São assim declarados como parte da “vasta tradição anarquista”:

Congresso de Basiléia da A.I.T. em 1869;

Os mártires de Chicago em 1887;

A greve dos mineiros em Joanesburgo em junho de 1918.

Ōsugi Sakae, Itō Noe e um garoto de seis anos espancado até a morte pela polícia de Tóquio em 1923;

O levante contra Franco em junho de 1936;

Os 250.000 manifestantes na Cidade do México em outubro de 1968;

Centenas de milhares de manifestantes em Seattle em novembro de 1999 contra a conferência da OMC.

[xciv] Na seção “Broad Anarchist Tradition” foram incluídos sindicalistas como Daniel De Leon (1852-1914), James Connolly (1868-1916) e William Big Bill Haywood (1869-1928), que claramente rejeitaram o anarquismo.

[xcv] “O termo “revolucionário” hoje pode soar estranho, por parecer prepotente demais diante de uma atuação que nos conduz a certas limitações no campo prático“. Caderno de formação sindical // n° 01, Coordenação Anarquista Brasileira – CAB) https ://anarquismo.noblogs.org/files/2017/09/Caderno-de-Formação-Sindical-da-CABFINAL.pdf

[xcvi] Hamilton Moraes Theodoro dos Santos. Anarquismo e Formação do Partido comunista do Brasil (PCB). Rio de Janeiro: Rizoma editorial, 2017, p. 9.

[xcvii] Um historiador alemão publicou recentemente uma obra que se torna incontornável sobre a Internacional Sindical Vermelha (traduzido para o inglês): Reiner Tosstorff, The Red International of Labour Unions (RILU) 1920-1937. Publicado em 2016 por Haymarket Books, Chicago, Il. (918 pages)

     Primeira edição em alemão : Profintern : Die Rote Gewerkschaftsinternationale 1920-1937 por Ferdinand Schöningh, Paderborn, 2004.

Ver também: “Recensão do livro de Reiner Tosstorff, The Red International of Labour Unions (RILU) 1920-1937” (A Internacional Vermelha dos Sindicatos operários [RILU] 1920-1937), http ://monde-nouveau.net/spip.php?article700.

[xcviii] Citando Astrojildo Pereira, o historiador brasileiro Hamilton Moraes Theodoro dos Santos escreve: “(…) foram nove os fundadores do PCB, presentes no congresso de fundação do partido em 25 de março de 1922. Desse grupo, sete eram ex-militantes libertários”. Hamilton Moraes Theodoro dos Santos, Anarquismo e Formação do Partido comunista do Brasil (PCB). Rio de Janeiro: Rizoma editorial, 2017, p. 9.

[xcix] Relatório de Pierre Besnard, secretário da A.I.T ao Congresso anarquista International de 1937. monde-nouveau.net/IMG/pdf/rapport_de_pierre_besnard_1937.pdf.

[c] Na França, as pesquisas sobre a questão do surgimento do termo “anarcossindicalismo” não são recentes. Consultemos, com resultados positivos, o livro de Daniel Colson: Anarcho-syndicalisme et communisme. Saint-Etienne 1920-1925, éd. Centre d’études foréziennes-Atelier de création libertaire (1986). É uma pena que Schmidt e van der Walt não tenham consultado essa fonte em francês, que os teria evitado de fazer muitas aproximações lamentáveis. Veja também René Berthier: “De l’origine de l’anarcho-syndicalisme“ http ://monde-nouveau.net/spip.php?article603. Myrtille resume a questão em Les origines du communisme libertaire en Espagne, vol. 2, éditions Divergences, Annexe I.

[ci] L’Humanité de 11 septembre 1925, artigo intitulado: “Pierre Monatte, saboteur du mouvement ouvrier” ? (http ://monde-nouveau.net/spip.php?article593).

[cii] Sobre a C.G.T.-SR, ver :

Claire Auzias, La C.G.T.-SR 1926-1928 : un épisode de décentralisation syndicale, Le Mouvement social suppl. 144 (1988).

Jérémie Berthuin, La C.G.T.-SR et la révolution espagnole De l’espoir à la désillusion Juillet 1936-décembre 1937, Ed. C.N.T.-RP, 2000 (ISBN 978-2-9504-9487-0).

Pierre Besnard, Les syndicats ouvriers et la révolution sociale, Paris, 1930.

Pierre Besnard, Le monde nouveau, C.G.T.-SR, 1936.

Michel Laguionie, 1924 — 1939, l’échec de la troisième C.G.T. (C.G.T.-SR) à Limoges.

[ciii] Introdução de A. Shapiro ao discurso de Pierre Besnard no Congresso Anarquista International de 1937. http ://monde-nouveau.net/spip.php?article588.

[civ] Myrtille, Giménologue, Les chemins du communisme libertaire en Espagne 1868-1937, vol 2, p. 148. Éditions Divergences, 2018.

[cv] Sobre os debates extremamente vigorosos entre partidários e opositores das federações da indústria na C.N.T., veja: Myrtille, Giménologue, Les chemins du communisme libertaire en Espagne 1868-1937, ch. 5. Éditions Divergences, 2018.

[cvi] James Guillaume. L’Internationale, documents et souvenirs, Tome IV, p. 304.

[cvii] A questão da recusa da C.G.T. em participar deste congresso é muito complexa. Veja:

* Wayne Thorpe, “Towards a Syndicalist International: the 1913 London Congress”, International Review of Social History, Vol. 23, No. 1 (1978), pp. 33-78.

* Wayne Thorpe : “The Workers Themselves” : R evolutionary Syndicalism and International Labour, 1913-1923, Dordrecht/Boston/London.

* René Berthier, Le congrès syndicaliste révolutionnaire international de 1913, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article715.

[cviii] Sendo a C.G.T. uma organização em que os mandatos eram eletivos, pouco a pouco os militantes revolucionários foram substituídos por reformistas. A corrente revolucionária sofreu assim uma verdadeira erosão. Além disso, novas federações de orientação reformista aderiram à C.G.T., ajudando a reverter o equilíbrio de forças.

[cix] Victor Renard, delegado (guesdista) dos trabalhadores do setor têxtil, congresso de Amiens, 1906.

[cx] Ralph Darlington, Radical unionism, capítulo I. Haymarket Books, 2013.

[cxi] Curiosamente, Besnard se encontra por trás dos princípios do anarco-sindicalismo, na medida em que não faz referência aos sindicatos locais (e à federação destes em um nível mais amplo) na administração horizontal e geográfica, da sociedade pós-revolucionária. Lembremos que Bakunin descreveu uma estrutura composta pela federação de sindicatos, que ele chamou de “sections de métier”, e a federação de “seções centrais”, ou seja, o equivalente a bourses du travail ou sindicatos locais. (comentário de René Berthier).

[cxii] Esta é uma mensagem endereçada por Pierre Besnard aos líderes da CNT e da FAI que envolveram suas organizações na colaboração ao governo. (Nota de René Berthier)

Entrevista 2 René Berthier – 29 de jan de 2019

Tradução: Leonardo Brito

Revisão: IEL

“(…) o sindicalismo revolucionário não foi a criação de um único autor ou mesmo de um grupo de autores. Apesar do “ismo” que lhe confere um ar teórico, o sindicalismo revolucionário foi originalmente o nome dado a um movimento, e não a uma teoria pré-concebida da sociedade. Assim, líderes sindicais revolucionários, como Victor Griffuelhes (secretário da C.G.T.), Émile Pouget (editor do jornal sindical A Voz do Povo) e Georges Yvetot (líder da seção do conselho de Trabalho da C.G.T.) estavam mais interessados em ‘dar expressão à prática do sindicalismo revolucionário à medida que evoluiu’ na luta diária para melhorar a vida dos trabalhadores, do que ‘construir um arcabouço teórico no qual ele pudesse se conformar’. Nesta perspectiva, dizia-se, o sindicalismo revolucionário não era um conjunto artificial de doutrinas impostas à classe trabalhadora, mas uma teoria aberta em constante desenvolvimento, cuja formação surgiu como resultado da experiência da luta em si (…)”.

Ralph Darlington,

Radical Unionism. The Rise and Fall of Revolutionary Syndicalism.

Haymarket Books, Chicago, Illinois, p. 17.

1. — IEL: Em que contexto político e social o sindicalismo revolucionário teria surgido na França?

René Berthier: A questão me parece relevante em sua formulação, porque fala da “emergência” do sindicalismo revolucionário, que implica um processo que ocorre ao longo do tempo, excluindo a tentação de definir artificialmente uma data, como alguns autores fazem. Alguns falando de 1860 ou 1870[i], ou seja, o período da A.I.T., outros falando de 1895, ou seja, a fundação da C.G.T.[ii]. Não há dúvida de que o sindicalismo, como entendido pela corrente federalista da A.I.T. e por Bakunin, apresentou analogias com o que mais tarde será o sindicalismo revolucionário, mas designar a A.I.T. como o local e o momento específico da fundação do sindicalismo revolucionário não corresponde à realidade histórica e não é de grande interesse.

*  *  *

O último terço do século XIX viu as consequências de uma crise causada pela Guerra Civil nos Estados Unidos, que desencadeou uma reação em cadeia global. Em 1873, um colapso financeiro causou estagnação por cerca de trinta anos, o que seria compensado pelas conquistas coloniais, pela concentração de grandes empresas e pela absorção ou desaparecimento de pequenas empresas. Os pesados tributos de guerra pagos pela França, a título de indenização, para a Alemanha retardaram a recuperação dos investimentos no país. A concentração de empresas levou a uma concentração da força de trabalho em fábricas cada vez maiores. As oficinas de artesanato foram afetadas e muitos pequenos chefes se proletarizaram. Os pequenos camponeses, cujas fazendas eram as mais frágeis, foram contratados nas cidades.

Inicialmente, o sindicalismo revolucionário organizou trabalhadores qualificados a partir de oficinas de artesanato e de pequenas mecânicas. Ele também operou as mais diversas movimentações nos complexos e nas fábricas, entre os trabalhadores da terra e, no caso da Itália, entre os trabalhadores agrícolas e os mineiros. Por volta de 1910, o sindicalismo revolucionário conseguiu se adaptar à reestruturação industrial adotando o sindicalismo industrial que organizava os trabalhadores não pela profissão, mas pela fábrica e pelo ramo industrial. Operários qualificados, especialmente da mecânica e da indústria pesada, tornaram-se a ponta de lança desse sindicalismo de combate. Esse desenvolvimento foi particularmente notável na Itália, Catalunha, Estados Unidos e, na década de 1920, na Argentina.

*   *   *

No dia seguinte ao esmagamento da comuna de Paris, Adolphe Thiers, chefe do governo da nova República, telegrafou para representantes do governo nas províncias: “O chão está cheio de cadáveres; esse terrível espetáculo servirá de lição”.[iii] Assim, ecoou o terrível terror experimentado pela burguesia francesa durante a insurreição, definindo o tom da repressão que irá se abater sobre o movimento operário. Mas o exército e a polícia não foram os únicos atores da repressão: uma vez que o exército de Versalhes entrou na capital, os partidários parisienses de Thiers participaram ativamente na caça aos communards. Os “bons cidadãos” fizeram maravilhas: 400.000 cartas de denúncia, a maioria delas anônimas, foram enviadas às autoridades. Podemos, dessa forma, entender a oposição que mais tarde o sindicalismo revolucionário desenvolverá em relação ao exército, à polícia e aos “bons cidadãos”.

No entanto, o proletariado francês imediatamente começou a se reorganizar, apesar da lei de Dufaure, aprovada em 14 de março de 1872, que punia severamente a afiliação à Internacional. De fato, a República era muito menos tolerante que o Segundo Império. Cada tentativa de reconstruir qualquer estrutura de trabalho, mesmo a mais trivial, foi seguida de prisões e citações ao Conselho de Guerra. Fernand Pelloutier descreve em Histoire des Bourses du Travail a atmosfera que reinava na época: “A seção francesa da Internacional dissolvida, os revolucionários fuzilados, mandados para a prisão ou condenados ao exílio; clubes dispersos, reuniões proibidas; terror confinando os poucos homens que escaparam ao massacre nas profundezas de seus lares: essa era a situação do proletariado após a Comuna”. O historiador brasileiro Alexandre Samis descreve perfeitamente em Negras Tormentas[iv], livro publicado em 2011, a escala da repressão que se seguiu ao esmagamento da Comuna. Uma repressão que deixou traços profundos na memória colet va. Por outro lado, a classe trabalhadora começa a se reorganizar imediatamente[v]. O medo reina, mas, como Édouard Dolléans escreve, “o fogo está queimando sob as cinzas das organizações de trabalhadores destruídas”[vi].

*   *   *

As primeiras manifestações da reconstrução do movimento operário foram tímidas e extremamente moderadas. As autoridades tinham pleno poder para proibir reuniões. Elas enxergavam a Internacional por trás do menor movimento de protesto e quase sistematicamente aplicavam a repressão como medida preventiva. O movimento operário, que estava se reformando lentamente, manteve um discurso que permaneceu reformista, cooperativista e mutualista. Entre o fim da Internacional e o estabelecimento do movimento sindicalista revolucionário na França, houve uma “geração perdida” de militantes. A geração de ativistas da A.I.T. havia desaparecido e uma nova geração, menos formada, mais impaciente, a substituiu. Órfãos da Internacional, aqueles que reivindicavam a herança da A.I.T. participaram dos congressos socialistas internacionais organizados pela social-democracia, tendo que resistir às tentativas de exclusão que, finalmente, terminaria por acontecer, em 1896, no Congresso de Londres, da IIª Internacional. Os líderes socialistas franceses, em particular Jean Jaurès, não foram os menos empenhados em excluir anarquistas e socialistas antiparlamentares.

Uma forma de esquecimento do legado da Internacional se estabeleceu, agravada pela mitificação do que foi percebido como um período heroico do movimento operário antiautoritário.

*  *  *

Uma pequena parte do movimento anarquista se juntou ao movimento sindical depois da Comuna — Pouget é um exemplo. Mas grande parte do movimento era hostil à ação sindical.

Deve-se ter claro que, depois do Congresso de Verviers, em 1877, a Internacional antiautoritária, cujos efetivos haviam colapsado, se transformou em diversos grupos de afinidades. Não era mais uma organização de classe, uma organização de trabalhadores — exceto na Espanha. A Federação do Jura, que havia reduzido para 400 aderentes[vii], era de fato um grupo específico no qual debatiam os intelectuais do movimento: Kropotkin, Reclus, etc.

Foi sob o impulso de militantes italianos, que posteriormente aderiram à federação,

Foi sob o impulso de ativistas italianos, cuja federação havia se unido tardiamente, que a A.I.T. antiautoritária deu à luz ao anarquismo, na forma de insurrecionalismo, ou seja, antissindicalismo. Foi assim que Malatesta expressou seu ponto de vista no oitavo congresso da Internacional, em 1876:

“Do nosso ponto de vista, para nós italianos, a Internacional não deve ser uma associação exclusivamente de operários; o objetivo da revolução social, de fato, não é apenas a emancipação da classe trabalhadora, mas a emancipação de toda a humanidade; e a Internacional, que é o exército da revolução, deve agrupar sob sua bandeira todos os revolucionários, sem distinção de classe.”[viii]

Encontramos o mesmo problema colocado no movimento anarquista brasileiro, como escreve Edilene Toledo:

“De fato, uma parte considerável dos anarquistas no Brasil se declarava abertamente hostil ao sindicalismo, porque a ideia anarquista era salvar toda a humanidade, e não apenas os trabalhadores, como podemos observar neste artigo do jornal libertário La Barricata de São Paulo, escreve em italiano: “O sindicalismo não tem nada em comum com o anarquismo, ou melhor; a característica efetiva da ação do sindicalismo é a negação do anarquismo”.[ix]

A influência do Malatesta me parece evidente.

A extrema proximidade do insurrecionalismo e do individualismo determinará a matriz a partir da qual o movimento anarquista europeu se desenvolverá, o que explicará a orientação marcadamente antissindicalista de grande parte do movimento em seu início. Todas essas posições eram totalmente contrárias às desenvolvidas por Bakunin: é nesse sentido que penso que o anarquismo inicial, como surgiu da Internacional antiautoritária, é uma ruptura com o bakuninismo.

Malatesta tentou defender o princípio de organização dentro do movimento libertário[x], mas ou foi mal compreendido ou era ambíguo demais.  O fato é que a corrente anarquista comunista, da qual ele é, como Kropotkin, um precursor, foi fortemente impregnada de insurrecionalismo, desenvolvendo-se assim sobre bases antissindicais e antiorganizacionais.

Sendo assim que, como na França, uma onda de anarquismo insurrecional atingiu a Espanha, durante a qual anarquistas comunistas militantes se esforçaram por destruir organizações de massa de inspiração libertária, quer por atos, quer pela palavra: “No final de 1891, vindo de Londres, o famoso revolucionário italiano Errico Malatesta atacou os coletivistas durante sua grande turnê de propaganda”[xi]. Mas o coletivismo (como era entendido na época) era o nome (em preferência a ‘anarquismo’) a que se referia Bakunin. O relatório da polícia nos diz que foi Malatesta “quem fundou todos os grupos de ação na Espanha e que converteu os coletivistas à anarquia”[xii]. Este debate voltará mais tarde, quando o sindicalismo revolucionário virá a aparecer: Malatesta será resolutamente hostil a ele. Malatesta escreve:

“E, de fato, especialmente na França, houve anarquistas que, entrando no movimento operário com as melhores intenções, para levar nossa palavra e nossos métodos às massas, foram então absorvidos e transformados, eles gritaram: “o sindicalismo basta-se a si mesmo”… e rapidamente deixaram de ser anarquistas.”[xiii].

Malatesta se opõe a um dos principais fundamentos do sindicalismo revolucionário, a dupla tarefa, reivindicada hoje, construtivo amanhã:

“O que os sindicalistas afirmam é falso, que a organização dos trabalhadores de hoje servirá como uma estrutura para a sociedade futura e facilitará a transição do regime burguês para o regime igualitário. É uma ideia que encontrou resposta favorável entre os membros da Primeira Internacional; e se bem me lembro, nos escritos de Bakunin, diz-se que a nova sociedade seria alcançada com a entrada de todos os trabalhadores nas Seções da Internacional. Mas parece-me um erro[xiv].”  

Malatesta ainda acusou os ativistas de “embriaguez sindical” (ubriacatura sindacalista). Podemos ver que o ativista italiano rejeita tanto o sindicalismo revolucionário quanto Bakunin. No entanto, desenvolveu outra estratégia sindical, perfeitamente coerente, de fato próxima à da socialdemocracia: ele continua sendo muito favorável à entrada dos anarquistas no movimento sindical.

Malatesta insiste no fato de que existe uma distância entre o anarquismo e o movimento operário, o que não coincide com as opiniões de Schmidt e Van der Walt, mas estranhamente se assemelha ao ponto de vista de Karl Kautsky (adotado por Lenin), que insistiu que não havia equivalência entre o movimento operário e o socialismo: “O movimento operário e o socialismo não são de natureza identical”, diz Kautsky em As três fontes do marxismo: a classe operária não pode ser revolucionária por si só. Da mesma forma, Malatesta escreveu em 1925:

“O movimento operário, apesar de todos os seus méritos e todo o seu potencial, não pode ser um movimento revolucionário em si, no sentido de negar as bases legais e morais da sociedade atual”[xv].

Se compararmos as posições de Kautsky e Malatesta, na mesma época (1908 e 1907), encontramos estranhas semelhanças:

Kautsky Três fontes do Marxismo 1908   “ Considere, por exemplo, sindicatos. São sindicatos profissionais, que buscam defender os interesses imediatos de seus membros. Mas quão divergentes são os interesses de cada uma dessas profissões tomadas separadamente: marítimos e mineiros de carvão, cocheiros e tipógrafos! Sem a teoria socialista, eles não podem conhecer seus interesses comuns e as diferentes camadas do proletariado se veem como estrangeiras, até como inimigas”.  Malatesta Intervenção em Amsterdã 1907   “Mesmo que ele se adorne com o epíteto bastante inútil de revolucionário, o sindicalismo não é e nunca será mais do que um movimento legalista e conservador, sem outro objetivo acessível — e nem isso! — que a melhoria das condições de trabalho.” (…) “No seio da própria ‘classe’ operária, há, como entre os burgueses, a competição e a luta. Os interesses econômicos de uma determinada categoria operária estão irredutivelmente em oposição aos de uma outra categoria. E vemos às vezes que economicamente e moralmente alguns operários estão muito mais próximos da burguesia do que do proletariado.”

Se Malatesta preconizou efetivamente que os anarquistas se engajassem na atividade sindical — porque, afinal, é onde os trabalhadores estão localizados — ele colocou como condição que os referidos anarquistas não se perdessem nela: “

“Se pela vida da organização e para as necessidades e a vontade dos organizados, é realmente necessário fazer concessões, render-se, estabelecer contatos impuros com a autoridade e com os partidos, assim é. Mas que sejam os outros que façam isso e não os anarquistas”[xvi]. Em resumo, os anarquistas não devem sujar as mãos. Se Pelloutier, Pouget e tantos outros tivessem feito isso, nunca teria havido sindicalismo revolucionário.

Há algo profundamente incoerente no ponto de vista de Malatesta, que dá a impressão de que ele não tem ideia de como pode ser a atividade sindical na realidade concreta. De fato, ele escreve no mesmo artigo que “os anarquistas nos sindicatos deveriam lutar para mantê-los abertos a todos os trabalhadores, independentemente de sua opinião e partido”. Que sentido faz para a luta deixar sindicatos abertos a todos os partidos se isso resultar em outros partidos assumindo mandatos e não os anarquistas?

Quanto a Kropotkin, quando escreveu em La Révolte, em 1890, que era necessário que os anarquistas se unissem aos sindicatos[xvii], suas observações foram muito mal recebidas e despertaram críticas violentas, de acordo com um relatório policial de 23 de outubro de 1890[xviii]. Diz o relatório: “… Inúmeros protestos foram ouvidos; clamaram quase à traição. Muitas cartas individuais e de grupos foram dirigidas a seu jornal. Também vieram do exterior…”. Vemos mais uma vez uma semelhança surpreendente entre a situação do Brasil e da França: Edilene Toledo, por exemplo, nos diz que “os anarquistas envolvidos no movimento sindicalista revolucionário eram duramente criticados por grande parte do movimento anarquista”[xix]. Isso significa que a atividade dos anarquistas no movimento sindical foi aceita apenas marginalmente pelos ativistas, pelo menos durante algum tempo[xx].

Tomando o exemplo de São Paulo, Jacy Alves de Seixas mostra que as mesmas divisões do movimento anarquista na França também existiam no Brasil:

“Antes de 1903, havia, sem sombra de dúvida, da parte dos anarco-comunistas de São Paulo, uma disposição que os aproximava do nascente movimento operário. ‘Vamos nos juntar às suas associações’ (Il Risveglio, n° 44, 5/03/1899) foi um slogan adotado sem restrições. Mas esta afinidade estava longe de apresentar a inclinação sindicalista que vimos começar e que lidera os primeiros ‘rachas’ no seio do movimento anarquista. O engajamento de alguns dos militantes mais representativos na organização e na animação das ligas de resistência provoca, dentro do movimento, a atualização da discussão sobre a relevância da participação dos anarquistas no movimento operário e a questão essencial da orientação de sua ação.[xxi]

O que Jacy Alves de Seixas diz é perfeitamente coerente com a tese de um anarquismo inicial antissindical. A historiadora acrescenta que “à medida que as associações de resistência crescem em importância e o sindicalismo se espalha, os anarco-comunistas querem se destacar e aprofundar suas críticas ao: a) próprio sindicalismo revolucionário” e; b) aspecto incondicional da participação dos anarquistas sindicalistas no movimento operário. É, portanto, de dentro do grupo anarco-comunista de São Paulo, num momento em que a organização do movimento operário brasileiro está em pleno andamento, que uma corrente sindicalista revolucionária está surgindo”.

Em outras palavras, os anarco-comunistas se distanciaram do sindicalismo revolucionário no exato momento em que os sindicatos estavam se desenvolvendo e quando o movimento operário brasileiro estava em pleno andamento! E, para que o sindicalismo revolucionário aparecesse, ele teve que “se separar” (sic) do grupo anarco-comunista de São Paulo. Novamente, tudo isso mostra a inconsistência da história – mistificadora — de autores que retratam o sindicalismo revolucionário como uma “estratégia”  do anarquismo.

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A partir de 1890-1892 a 1902, é possível afirmar que houve um período propriamente “anarquista” do movimento operário francês, em particular nas Bolsas do Trabalho, que não foram fundadas por anarquistas, mas nas quais estes últimos rapidamente desempenharam um papel decisivo. De fato, as Bolsas do Trabalho, as estruturas geográficas estabelecidas na localidade, praticamente desempenharam o papel de grupos anarquistas no proletariado. Foi em 1892 que um certo número de bolsas do trabalho decidiu se reagrupar e criar uma federação. Os anarquistas não têm nada a ver com essa fundação, que resulta de uma cisão dentro da Federação Nacional dos Sindicatos de orientação guesdista.[xxii] Surgiram tensões entre os partidários da greve geral e os guesdistas, que se opunham a ela. Os antiguesdistas — allemanistas, anarquistas, blanquistas, positivistas (dos quais havia uma corrente, em particular na indústria gráfica) e adeptos da sensibilidade socialista que não estavam vinculados a um partido — criaram a Federação das Bolsas do Trabalho. Mas, dentro dessa nova organização, eclodiram conflitos entre as diferentes correntes socialistas que coexistiam ali. Anarquistas apareceram como aqueles que foram capazes de moderar conflitos. O anarquista Fernand Pelloutier foi eleito secretário adjunto da Federação Nacional do Trabalho em 1894, depois secretário em 1895 e empreendeu um notável trabalho de organização.

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A data de 1902 marca o fim deste período. A C.G.T. foi formada em 1895, mas não pode ser qualificada absolutamente de “sindicalista revolucionária”. A nova organização é fraca, vegeta, é mais um esboço do que uma estrutura efetiva. A Federação das Bolsas do Trabalho, desenvolvida dinamicamente por seu secretário Fernand Pelloutier, é muito mais estruturada e incomparavelmente mais poderosa. Ela – a federação – não estava preocupada em perder sua autonomia e só aceitou a ideia de uma confederação, na medida em que tinha “o único objetivo de decidir sobre fatos de interesse geral que dizem respeito ao movimento operário” — e fazer disso uma tática comum […] —, a realização dessa tática permaneceu sob os cuidados e às custas das federações pertencentes à confederação.” [xxiii]

A parte que é destacada aqui é decisiva. O processo de unificação das duas estruturas: horizontal (Federação das Bolsas do Trabalho) e vertical (C.G.T.) será concluído num congresso realizado em 1902. Pode-se dizer que o período propriamente “anarquista” do movimento sindical termina naquele tempo. A nova C.G.T. agora é liderada por Victor Griffuelhes, Émile Pouget e Alphonse Merrheim. Esses homens defenderão uma orientação fortemente tingida pelo anarquismo, que se tornará o sindicalismo revolucionário.

As Bolsas do Trabalho não desaparecerão, mas sua importância se tornará progressivamente menos importante do que a das estruturas verticais, industriais da organização. Isso não significa que o papel dos anarquistas diminuirá, mas na C.G.T. haverá uma mistura de ideias e estratégias, das quais não só os anarquistas mas também outras correntes do movimento operário participarão. Esta mistura criará o sindicalismo revolucionário cuja certidão de nascimento não é a carta de Amiens, ao contrário do que costuma ser dito.

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As relações entre a C.G.T. antes de 1902 e a Federação das Bolsas do Trabalho eram muito tensas. O secretário assistente da C.G.T., Paul Delesalle, era anarquista, mas o secretário geral, A. Lagailse, era reformista. Ele atacou Pelloutier e Delesalle e a Federação das Bolsas violentamente. Pelloutier respondeu aos ataques de Lagailse[xxiv] pedindo que “os dois órgãos que constituem a Confederação se reunissem apenas em caso de eventos imprevistos e que exigissem manifestamente um acordo”.[xxv] Neste início, a C.G.T. estava sob o controle dos reformistas[xxvi], o que explica os ataques a Pelloutier e Delesalle. Lagailse foi demitido do cargo de secretário-geral após o congresso de Rennes em função de sua atitude de “covardia imperdoável” durante uma greve nas ferrovias que ele havia rejeitado. E, a partir daí, não encontramos mais nenhum vestígio dele.

A saída de Lagailse parece ter ajudado a melhorar a situação, uma vez que o congresso seguinte acolhe com satisfação “que as divergências que haviam surgido anteriormente entre a Federação das Bolsas do Trabalho e a Confederação foram resolvidas, graças à maior conciliação dos dois lados”[xxvii]. Pouco a pouco, os anarquistas consolidam suas posições na C.G.T. Émile Pouget tornou-se responsável pelo La Voix du Peuple (A Voz do Povo), o hebdomadário da C.G.T. criado em dezembro de 1900.

A constituição final da C.G.T. ocorre pela integração no seu seio das Bolsas do Trabalho no congresso de Montpellier, em 1902, que marca a verdadeira fundação da C.G.T., porque são fundidas a estrutura vertical (sindicatos da indústria e do comércio) e a estrutura geográfica horizontal (Bolsas do Trabalho). Eu acrescentaria que essa estrutura dupla, que define precisamente o sindicalismo revolucionário e mais tarde o anarcossindicalismo, corresponde completamente ao esquema desenvolvido por Bakunin há trinta anos atrás.[xxviii] É, que eu saiba, no congresso de Montpellier, em 1902, que encontramos pela primeira vez a expressão “sindicalismo revolucionário”.[xxix] Ela é utilizada novamente no congresso de Bourges (1904) e ainda uma vez no congresso de Amiens (1906).

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  Os anos de 1902-1908 marcaram o período ascendente do sindicalismo revolucionário. A estratégia revolucionária foi adotada no congresso de Bourges em 1904, quando uma greve geral foi aprovada com o objetivo de obter a jornada de trabalho de 8 horas. Dentro da C.G.T. unificada, formou-se um movimento que claramente se destacava do anarquismo para formar uma doutrina separada. Podemos dizer que a “data de nascimento” do termo “sindicalismo revolucionário” como doutrina é 1º de janeiro de 1905: a revista socialista Le Mouvement Socialiste publica um artigo do ex-blanquista Victor Griffuelhes, secretário geral da C.G.T., intitulado “Sindicalismo Revolucionário”[xxx]. Mas nem é preciso dizer que o fato precedeu a palavra.

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 O Congresso de Amiens, realizado em 1906 é frequentemente apresentado como o ato fundador do sindicalismo revolucionário. Eu não compartilho dessa opinião. De fato, é preciso dizer que esta data também marca o início do declínio do sindicalismo revolucionário. A leitura do relato dos debates de Amiens mostra uma realidade que está longe do mito estabelecido, mas, ao mesmo tempo, revela uma realidade muito mais comovente[xxxi]. Vemos uma corrente sindicalista revolucionária certamente ainda poderosa, mas encurralado, na defensiva contra representantes de poderosas federações reformistas. A realidade que percebemos não é a do mito que foi construído após o fato. Pode-se ver que as oposições à política confederal (ou seja, sindicalista revolucionária) são extremamente vigorosas, que os golpes desferidos são frequentemente bastante baixos.

Os sindicalistas revolucionários enfrentam uma forte oposição; são seguidos de perto e assediados pelos guesdistas e socialistas reformistas, cujas forças estão longe de ser insignificantes, e precisavam se defender passo a passo.

O voto para a famosa “Carta de Amiens” por uma esmagadora maioria de delegados, incluindo anarquistas, revela por si só a extensão das concessões que tiveram que ser feitas aos reformistas, a fim de evitar a cisão. Os reformistas entenderam perfeitamente que isso era uma derrota para os anarquistas. Logo após o Congresso de Amiens, dois congressos socialistas foram realizados sucessivamente, durante os quais se podem ler testemunhos de extrema satisfação dos líderes[xxxii] do partido. Edouard Vaillant (deputado socialista, ex-anarquista) declarou que o Congresso de Amiens foi uma vitória sobre os anarquistas, e Victor Renard, guesdista e líder da poderosa federação têxtil da C.G.T., triunfou dizendo que “os anarquistas que predominam na C.G.T. consentiram em colocar uma mordaça.”[xxxiii] Estamos falando aqui de anarquistas, não de sindicalistas revolucionários. Uma leitura cuidadosa dos debates no Congresso de Amiens mostra claramente que o inimigo dos reformistas são os anarquistas.

 Os anarquistas então permanecem muito presentes na C.G.T., mas por meio de eleições dentro da organização serão progressivamente removidos dos principais mandatos em benefício dos reformistas. Uma leitura cuidadosa da ata do Congresso de Amiens revela um declínio acentuado no movimento revolucionário. Apresentada como um compromisso com uma fração da corrente reformista para bloquear os guesdistas, a Carta de Amiens consagra de fato a divisão do trabalho entre partido e sindicato. É significativo que duas grandes figuras do movimento anarquista, Pouget e Delesalle, tenham deixado a C.G.T. em 1908.

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 Os anos 1909-1914 mostram uma corrente revolucionária na defensiva, que ainda se mantém pela força de exercício, que ainda conserva a confiança de muito numerosos trabalhadores, mas que está em perda de velocidade e deve afrontar simultaneamente a feroz repressão do poder, uma sucessão de sérios fracassos nas lutas, e graves crises internas provocadas pelos reformistas cuja força cresce na C.G.T.. Além disso, a renovação dos mandatos mostra que, pouco a pouco, os militantes revolucionários são gradualmente expulsos de posições de responsabilidade em favor dos reformistas. Quando a Grande Guerra eclodiu, a C.G.T. já não podia ser qualificada propriamente de “sindicalista revolucionária”.

O movimento sindicalista revolucionário reapareceu após a guerra, após a Revolução Russa, mas se fragmentou em duas correntes opostas: uma que apoiava o regime comunista na Rússia e que praticamente desapareceu como corrente para se fundir nos partidos comunistas; e uma outra que se transforma em anarcossindicalismo.

2. — IEL: Quais são os possíveis elos entre o sindicalismo revolucionário e o anarquismo de Proudhon?

René Berthier: Como pode um pensador socialista que se colocava como “oposto às greves” ser reivindicado pelo sindicalismo revolucionário? O que levanta uma primeira pergunta: Proudhon foi realmente contrário a greves? Como costuma acontecer com o absurdo que circula sobre o movimento anarquista, é também aí Marx a origem. Assim, quando Marx relata que Proudhon ficou encantado com o fato de os mineiros de Rives-de-Gier terem sido reprimidos após entrar em greve[xxxiv], ele simplesmente mostra que só leu superficialmente De la Capacité Politique des Classes Ouvrières[xxxv] (de fato, a citação incluída em De la Capacité… está originalmente no Système des Contradictions Économiques). Proudhon diz simplesmente que, do ponto de vista da legislação da época, a greve era ilegal e que a repressão era, pelas mesmas razões, legal. Portanto, ele não está satisfeito com o fato de os mineiros terem sido reprimidos. Proudhon também aponta: “a plebe trabalhadora, cujas nobres aspirações que compartilho aqui da melhor maneira possível, ainda não é — infelizmente! — mais que uma multidão inorgânica; o trabalhador não se colocou no mesmo nível que o mestre”. Ele (Proudhon) faz aqui referência explícita ao artigo 1781 do Código Civil, que estabelecia que, em um julgamento, a palavra do patrão valia mais do que a de seus trabalhadores; situação que, obviamente, ele não aprova.[xxxvi] O fato de a “plebe trabalhadora” ser uma “multidão inorgânica” significa para Proudhon que ela não tem consciência coletiva e que não constitui, portanto, uma organização.

Proudhon destaca igualmente que “essas lutas de coalizões entre operários e senhores (…) quase sempre terminam em vantagem para estes em detrimento daqueles.”[xxxvii] Ele não contesta que os grevistas agem “sob o impulso de um sentimento de justiça que eu não nego” (destaque do autor).

O que ele pretende mostrar é a contradição entre a ação de greve dos trabalhadores “que, admito expressamente, não estavam errados, interiormente, ao queixarem-se” (enfatiza Berthier, novamente), mas que naquele momento “se excedeu externamente, o seu direito”.[xxxviii] (“externamente”, ou seja, do ponto de vista da lei em vigor). Essa contradição é sempre solucionada em benefício dos patrões: “ela é encontrada, muito mais odiosa (sic), em favor geralmente concedido a estes [os empregadores], e a repressão, que é o privilégio comum dos outros [os trabalhadores]”.

A questão é assim, expressa à maneira de Proudhon, isto é, complicada, mas não creio que essa passagem precise ser “decifrada”.

Marx evoca uma passagem De la Capacité… na qual Proudhon escreve que “a autoridade que levou os mineiros de Rives-de-Gier ao fuzilamento estava em uma situação infeliz”, mas que ela tinha “que sacrificar seus filhos para salvar a República”. Naturalmente, o que Proudhon expõe aqui é o ponto de vista do Estado, sem aprová-lo. Os sindicalistas revolucionários franceses, mais inteligentes que Marx, entenderam isso perfeitamente. Proudhon diz das greves que elas não podem mudar fundamentalmente o estado da sociedade (o que Marx também diz) (…). Esse é um ponto no qual os sindicalistas revolucionários concordarão com Proudhon. E em muitos outros pontos: a separação de classes, a recusa da ação parlamentar, a insistência na ação econômica, o federalismo… A proximidade entre Proudhon e o sindicalismo revolucionário, sem dúvida, tem sua principal explicação no fato de que seu pensamento está muito intimamente ligado ao pensamento do movimento operário de seu tempo. O mesmo problema surgirá mais tarde para Bakunin.

Samuel Hayat coloca uma questão muito relevante: ele se pergunta “se Proudhon havia expressado, em seio mesmo de suas contradições, uma latência da condição proletária”?[xxxix]

A questão central a saber é: se o encontro entre Proudhon e o movimento operário é obra do acaso ou se existe uma relação efetiva. Que o movimento operário de sua época influenciou Proudhon, não há dúvida: é difícil imaginar um pensador socialista impermeável ao seu ambiente. Os militantes anarquistas liam muito[xl]. Na França, grupos de operários se reuniam para discutir as teorias de Proudhon, ou mesmo para questionar o próprio Proudhon. Um desses leitores, Tolain, membro e fundador da Associação Internacional dos Trabalhadores, sequer partilhava as opiniões de Proudhon sobre as candidaturas operárias.[xli] Desta maneira, não surpreende que as seções francesas da A.I.T. tenham reivindicado Proudhon durante os primeiros congressos da organização.

Da mesma forma, não é de surpreender que os militantes que ajudaram a criar a C.G.T. e descobriram o sindicalismo revolucionário conheciam o trabalho de Proudhon, especialmente porque muitos deles vieram do movimento anarquista. Em L’anarchisme et les syndicats ouvriers[xlii] , publicado em 1895, Fernand Pelloutier falou da “análise magistral” de Proudhon sobre impostos. Émile Pouget reivindica Proudhon em sua brochura L’Action Direct: “Proudhon, […] pressentindo o sindicalismo, evocou o federalismo econômico que está sendo preparado e que vai além, com toda a superioridade da vida, dos conceitos estéreis do politicismo”.[xliii]

Podemos divagar interminavelmente para saber se foi Proudhon que influenciou o movimento operário do seu tempo ou o inverso. Uma questão, estritamente, que nos traz nenhum interesse, porque se resume à do ovo e da galinha. É óbvio que Proudhon foi fortemente influenciado pelo movimento operário de seu tempo; que ele desenvolveu uma teoria geral inspirada por essa influência; que essa teoria, muito mais que a de Victor Considerant, Louis Blanc e outros, foi reconhecida pelos proletários da época, reconhecimento que proporcionou a Proudhon novos temas para reflexão. É um movimento permanente entre prática e teoria.

Samuel Hayat explica, assim, o reconhecimento do pensamento de Proudhon:[xliv]

“É a Pierre Ansart que devemos a formalização mais convincente[xlv]. Como vimos, segundo ele, Proudhon não está em conexão abstrata com o movimento operário. Existe uma homologia estrutural entre o pensamento de Proudhon e certas estruturas sociais. (…) Essa homologia está associada a uma homologia de práticas com as do mutualismo dos canuts [xlvi].”

Este resumo muito esquemático da relação entre Proudhon e o sindicalismo revolucionário torna ainda mais impressionante o impasse criado pelos autores de Black Flame sobre o autor de Système des Contradictions Économiques.[xlvii]

As posições de Proudhon sobre as greves não o “isolaram do nascente movimento operário”[xlviii], ao contrário do que Schmidt e van der Walt escrevem; estão completamente enganados. Essa oposição a greves parciais, consideradas inúteis e contraproducentes, foi compartilhada por amplos setores do movimento anarquista[xlix], depois pelo movimento sindical revolucionário, que reconheceu em Proudhon um precursor! Este é um paradoxo que, naturalmente, Schmidt e van der Walt acharão difícil de entender. A própria C.G.T. francesa, em seu 5º congresso, votou por uma resolução perfeitamente alinhada com a linha proudhoniana:

“… Não acreditamos que devamos incentivar greves parciais que consideramos prejudiciais, mesmo que elas produzam resultados apreciáveis, porque nunca compensam os sacrifícios feitos e os resultados que podem dar são insuficientes para modificar a questão social.”[l]

Sob o risco de surpreender nossos camaradas sul-africanos, os primeiros anos da C.G.T. estavam perfeitamente alinhados com o proudhonismo.

O sociólogo francês Daniel Colson discute, em seu estudo Proudhon et le syndicalisme révolutionnaire [li], as razões pelas quais “os sindicalistas revolucionários poderiam se reconhecer em Proudhon, embora as propostas uns dos outros pudessem divergir tanto”: “Nós subestimamos, diz ele, ou ignoramos completamente a extraordinária inteligência prática e teórica dos movimentos operários da época” (grifo nosso). Os sindicalistas revolucionários, Pelloutier à frente, sabiam bem que as vantagens obtidas pelas greves seriam anuladas pelo sistema, e certamente não se ressentiam de Proudhon por não entenderem que, apesar disso, as greves foram usadas como treinamento para a classe trabalhadora — o que Bakunin havia compreendido perfeitamente — na “ginástica revolucionária”, como disse Pouget.

Um ponto final deve ser feito para sublinhar a proximidade de Proudhon e o sindicalismo revolucionário (e, nem é preciso dizer, o anarcossindicalismo). Esta é a questão da organização da classe. Durante a revolução de 1848, Proudhon foi eleito para a Assembleia Constituinte. Ele tinha muitas ilusões e logo entendeu que não havia o que fazer: o sistema parlamentar é um sistema que permite à burguesia ascender ao poder, a classe operária não tem nada a ganhar.  É a partir daí que ele considerará outro modo de organização e intervenção para os trabalhadores. Naturalmente, ele descreve isso com sua linguagem, que não corresponde à linguagem de hoje, mas transposta, fica assim: os trabalhadores devem se organizar em estruturas nas quais as pessoas não estão agrupadas como cidadãos, mas em como trabalhadores, quer dizer, de acordo com seu papel no processo de produção.

É assim que ele consagra, em Idée générale de la Révolution e na Capacité Politique des Classes Ouvrières, o longo desenvolvimento sobre as “companhias operárias de produção”, chamadas para substituir a organização capitalista de produção. O grande sociólogo Georges Gurvitch (ausente da bibliografia da Black Flame) qualificou La Capacité Politique como um “catecismo do movimento operário francês”.

Naturalmente, os sindicalistas revolucionários que leram Proudhon entenderam perfeitamente o seu ponto de vista.

3. — IEL: Quais são os possíveis elos entre o sindicalismo revolucionário e o anarquismo de Bakunin?

René Berthier: A ligação entre anarquismo e sindicalismo revolucionário é obviamente uma questão vital para o movimento libertário. O bicentenário de Bakunin nos deu a oportunidade de reeditar um texto de Maurizio Antonioli, datado de 1976, mas extremamente instrutivo, que estuda exatamente essa questão: Bakounine entre syndicalisme révolutionnaire et anarchisme[lii].  Sua reedição nos permitiu lembrar que a relação entre essas duas correntes é extremamente complexa e, às vezes, conflitante. De fato, o início do século XX assistiu ao desenvolvimento de debates que se transformaram em polêmicas vigorosas sobre o parentesco entre Bakunin e o sindicalismo, entre o A.I.T. e o sindicalismo revolucionário. É claro que o movimento anarquista se viu dividido sobre essa questão, como mostra o Sr. Antonioli:

“Por um lado, apoiar o ‘parentesco incontestável’ entre as posições bakuninianas e as do sindicalismo, um núcleo constituído por militantes da C.G.T. (Pierre Monatte e o grupo de ‘La Vie Ouvrière’), com o apoio de James Guillaume ,  ‘Le Père Guillaume’, companheiro de Bakunin e historiador da Internacional.

“Do outro lado, uma frente composta, mas substancialmente unitária, que passava pela Volontà de Ancone (Malatesta e Fabbri), Les Temps Nouveaux de Paris (Pierrot e Clair) e Le RéveilIl Risveglio de Genebra (Bertoni e Wintsch); em resumo, os periódicos mais representativos do comunismo anarquista franco-italiano-suíço”.[liii]  

Desde o início, portanto, a ideia de um parentesco entre Bakunin e o anarquismo, por um lado, o sindicalismo revolucionário, por outro, não era unânime. O movimento anarquista especifico contesta que havia um parentesco. A ideia de que o sindicalismo revolucionário foi uma “estratégia” do anarquismo é contestada pelos próprios anarquistas. É que, depois de uma geração de quase esquecimento, Bakunin e a Federação do Jura voltaram à cena graças a James Guillaume, que reeditou um texto do revolucionário russo, de agosto de 1869, Politique de l’Internationale e o Fragment formant une suite à L’Empire Knouto-germanique, escrito em novembro-dezembro de 1872. Além disso, as obras de Bakunin começaram a ser publicadas pela Édition Stock, sob a supervisão de James Guillaume. Finalmente, os dois primeiros volumes de L’Internationale, documents et souvenirs de Guillaume foram publicados em 1907. Todos esses textos destacavam a importância primordial que Bakunin atribuía à luta econômica e às “caixas de resistência” (os sindicatos) na formação da consciência de classe das massas operárias.[liv] Mas tudo isso está acontecendo em um momento em que o sindicalismo revolucionário já existia.

O surgimento do sindicalismo revolucionário na França foi amplamente percebido pelos militantes anarquistas. A extrema complexidade das relações entre o movimento anarquista e o movimento sindicalista revolucionário dentro da C.G.T. francesa é obscurecida por abordagens às vezes simplistas da história. De fato, vemos que o movimento anarquista se opôs à atividade sindical. Também observamos que o período estritamente “anarquista” do movimento sindical francês, parte do qual ocorreu antes da fundação da C.G.T., foi muito curto — coincide aproximadamente com o apogeu das Bolsas do Trabalho — 1892-1902.

Uma parte notável do movimento anarquista francês na época era simplesmente oposta ao próprio princípio de organização. Se lermos as teses do congresso anarquista internacional de Amsterdã, constataremos que o principal tema de debate não era o sindicalismo, mas a pergunta: “Devemos nos organizar?”. Essa questão percorreu todo o movimento libertário internacional, incluindo no Brasil. Carlo Romani nos mostra que a oposição dos antiorganizacionistas à organização “institucional” (ou seja, uma organização permanente) poderia ir longe o suficiente: quando, em abril de 1906, o Primeiro Congresso Operário Brasileiro foi realizado no Rio de Janeiro, o jornal de Oreste Ristori, La Battaglia, tentou ridicularizar o que chamou de “congresso batráquico internacional”, no qual participariam os “intrépidos ‘condottiere’ do exército liliputiano…”[lv] Romani designa Oreste Ristori como um partidário de Malatesta.

Este congresso foi, no entanto, de suma importância na história do movimento operário brasileiro e não mereceu ser tratado dessa maneira.

Escreve, também, o historiador Alexandre Samis:

“Acompanhando a tendência dos anos anteriores, a despeito da presença de reformistas “trabalhistas” nos debates, o Congresso aprovou a filiação de suas teses ao sindicalismo revolucionário francês. Assim, a neutralidade sindical, o federalismo, a descentralização, o antimilitarismo, o antinacionalismo, a ação direta, a greve geral, etc. passaram a fazer parte dos princípios dos sindicatos signatários das propostas do “Primeiro Congresso Operário Brasileiro”, nome adotado pela comissão de redação das deliberações finais do referido encontro.”[lvi]

É verdade que parte do movimento anarquista francês se entusiasmava com o sindicalismo revolucionário quando, após James Guillaume ter publicado vários textos sobre a Federação Jurássica e artigos de Bakunin, ele descobriu a óbvia correlação de práticas entre os textos que estavam lendo e o que eles viam se desenrolando diante de seus olhos. Não é mais necessário sublinhar que a publicação dos textos de Bakunin começou em 1903; que a publicação por James Guillaume de sua Internationale, documents et souvenirs começou em 1905, ou seja, data claramente posterior ao surgimento do sindicalismo revolucionário. O enorme trabalho de edição realizado por James Guillaume é posterior — ligeiramente depois, é verdade — ao surgimento do sindicalismo revolucionário e não poderia, assim, ser designado como uma causa deste último.

A evocação da história da Associação Internacional dos Trabalhadores tem suscitado controvérsias entre partidários e oponentes da filiação, entre Bakunin e o sindicalismo revolucionário, entre o anarquismo e o sindicalismo revolucionário — uma controvérsia cuja aspereza demonstra que a ideia não era óbvia ou aceita por todos. Podemos, portanto, fazer-nos uma pergunta um tanto perversa: os anarquistas que descobriram o sindicalismo revolucionário através dos textos de Bakunin e da Federação do Jura, publicados por James Guillaume, não viram nada se desenrolar diante de seus olhos antes da publicação desses textos? O movimento anarquista — pelo menos o que ainda não estava na C.G.T. —  “descobriu” o sindicalismo revolucionário apenas naquela época? Uma pesquisa sobre essa questão poderia ser interessante.

Luigi Fabbri salientou a ideia de uma “matriz exclusivamente anarquista” para o sindicalismo. Ele também disse que o sindicalismo não era mais do que “socialismo anarquista em ação”[lvii]. Falar da “matriz exclusivamente anarquista” do sindicalismo não me parece estar em conformidade com a realidade, apenas porque os fenômenos históricos nunca têm determinações únicas, um ponto de vista compartilhado por Bakunin.

Em julho de 1906, La Vita Operaria,de Ancona, escreveu[lviii]: “Sindicalismo é o conceito utilizado primeiro por Bakunin e a Internacional, para às organizações de resistência dos operários baseadas na abolição do capitalismo e na substituição das organizações federais de trabalhadores no estado burguês por meio da ação direta e revolucionária do proletariado”.

René Caughi (Henri Gauche) publica, em Les Temps Nouveaux[lix], em 27 de janeiro de 1907, sob o título “Bakounine et le syndicalisme”, extratos da Política da Internacional. Ele comenta: “Bakunin era, portanto, ‘sindicalista’, muito antes de o sindicalismo ser criado” (!!!). Caughi acrescenta: “Parece que o mundo operário — o único que conta — quer apoiar a ideia bakuniniana contra a ideia marxista”. Deve-se notar que isso não é uma questão de sindicalismo revolucionário, mas do sindicalismo como um todo.

Marie (Maria Isidorovna) Goldsmith, uma amiga íntima de Kropotkin, compartilhou essa opinião. No Les Temps Nouveaux, de 6 de julho de 1907[lx], ela insistiu na “semelhança e mesmo, em muitos aspectos, na identidade das ideias sindicalistas com as ideias anarquistas”. E acrescenta: “Bakunin, em seu artigo La Politique de l’Internationale, expõe a linha de ação que ele gostaria de ver seguida pelo movimento operário nos termos do atual movimento sindical que parece ser a realização exata de seu programa.”

Marc Pierrot, por sua vez, sublinhou um ponto; “todas as concepções que são a própria expressão do sindicalismo revolucionário” foram “propagadas especialmente pelos camaradas anarquistas”[lxi] e que o federalismo típico da C.G.T. havia sido “reivindicado no passado por Bakunin” e “condenado por Marx”[lxii].

Poderíamos multiplicar as citações da época afirmando uma continuidade entre as ideias de Bakunin e o sindicalismo revolucionário, uma continuidade sobre a qual existe um acordo quase total entre 1905 e 1908. No entanto, esses artigos se contentam em constatar a identidade entre as teses de Bakunin, a Federação do Jura e as práticas do sindicalismo revolucionário, que eles podem observar diante dos olhos. Nenhum deles estabelece uma relação de causa e efeito.

É indiscutível que nas posições desenvolvidas por Bakunin encontramos o essencial das ideias defendidas posteriormente pelo sindicalismo revolucionário. É nesse espírito que Gaston Leval nos formou quando participamos do seu Centro de Sociologia Libertária, no final dos anos 1960. É claro que a ideia geral de Gaston permanece correta e eu entendo por que ele pensava assim. Ele queria, em particular, reagir contra os desvios sectários e antissindicais do movimento anarquista da época.[lxiii]

No entanto, afirmar que um homem, mesmo Bakunin, é o “fundador” de um movimento como o sindicalismo revolucionário é inconcebível. Pode ter havido precursores, como Bakunin, que viveu o movimento operário “de dentro”. “Teóricos”, como Georges Sorel — um teórico fora do próprio movimento e que poucos militantes de seu tempo conheciam.  O fato é que o sindicalismo revolucionário é uma produção natural da classe operária francesa, cuja aparição está ligada a um contexto histórico muito particular: influência do proudhonismo, esmagamento da Comuna, divisões sórdidas do movimento socialista, rejeição de tentativas dos radicais burgueses para capturar as organizações de trabalhadores, etc. É este contexto que explica a formação do sindicalismo revolucionário, não o pensamento de Bakunin, e menos ainda o de Sorel. Rejeitando qualquer ideia de “determinismo monocausal”, segundo a expressão admirável de Thiago Lemos Silva[lxiv], dirá que, mesmo que as mesmas causas produzam os mesmos efeitos gerais, as determinações que produziram o sindicalismo revolucionário brasileiro não são absolutamente idênticas àquelas que produziram seu homólogo francês, que Carlos Augusto Addor mostra:

“Reafirmamos que no processo de formação da classe operária no Brasil, no sentido mencionado na Introdução deste livro de formação de uma identidade cultural própria o anarquismo desempenha um papel fundamental. Isso porque é a única corrente organizatória e ideológica do movimento operário no Brasil que, nas duas primeiras décadas do século XX, ao mesmo tempo:

“a) elabora uma crítica radical à sociedade capitalista e ao Estado burguês, propondo a construção de uma sociedade alternativa, livre e igualitária;

“b) elabora um projeto e uma prática cultural relativamente autônoma, marcados por uma identidade de classe;

“c) penetra significativamente na classe operária, conduzindo ou participando das maiores greves e manifestações públicas ocorridas no período, assim como participa ativa e efetivamente no processo de organização sindical dos trabalhadores urbanos”[lxv] 

Esta análise é confirmada por Christina Roquete Lopreato, para quem a experiência da luta constitui, como pensava Bakunin, o principal catalisador da consciência revolucionária:

“ A greve geral de 1917 representa (…) o marco histórico no processo de formação da classe operária se autoconstituindo em seu enfrentamento concreto com o capital.”[lxvi]

Assim, devido à maior complexidade das estratificações sociais e suas inter-relações, a formação do movimento sindicalista revolucionário não pode ser totalmente creditada à parte do movimento anarquista que se engajou na ação sindical: outras correntes contribuíram, ainda que de maneira mais marginal: socialistas revolucionários, allemanistas[lxvii], blanquistas, positivistas para a França, sem dúvida outras correntes para os outros países.

4. — IEL: Do seu ponto de vista, como colocar as figuras de Fernand Pelloutier e Émile Pouget no campo do sindicalismo revolucionário?

René Berthier: Colocar Fernand Pelloutier e Émile Pouget em perspectiva me parece extremamente interessante porque ambos representam duas abordagens absolutamente complementares ao sindicalismo revolucionário, e é significativo que ambos sejam militantes anarquistas. Para lembrar, Bakunin imaginou a organização da classe operária na forma de uma organização vertical representada pelas “seções laborais” (os sindicatos) e uma organização horizontal representada pelas “seções centrais” (Bolsas do Trabalho). É a conjunção dessas duas estruturas que, segundo ele, constitui a organização de classe dos trabalhadores. Agora Pelloutier e Pouget são representativos, em minha opinião, dessa estrutura dupla: Pelloutier para a estrutura horizontal e Pouget para a estrutura vertical.

Bakunin insistiu particularmente na necessidade de nunca subestimar o papel das seções centrais, das estruturas interprofissionais, porque são instâncias eminentemente políticas: é nelas que o trabalho de reflexão é essencial para a elaboração de uma estratégia. Fernand Pelloutier entendeu isso perfeitamente. Foi ele quem destacou a importância da estrutura geográfica (horizontal) na organização da classe operária. Ele foi inicialmente um adepto de Jules Guesde, líder de uma corrente socialista que defendia a subordinação do sindicato ao partido socialista. Havia uma Federação Nacional dos Sindicatos, criada em 1886, de inspiração guesdista, antecedente da C.G.T. Os guesdistas queriam fazer da FNS uma correia de transmissão para sua política. Seu controle era tal que eles convocavam congressos de organização sindical na abertura ou encerramento dos congressos do partido. Foi a própria atitude dos guesdistas que impediu a FNS de se desenvolver, criando conflitos internos, sem falar da oposição dos antiguesdistas: allemanistas, anarquistas, blanquistas, positivistas e membros de sensibilidade socialista, mas que não pertenciam a nenhum partido.

O controle da corrente guesdista sobre a FNS permaneceu precário, no entanto: com efeito, num momento em que a greve geral tinha o apoio da maioria da classe operária, os guesdistas se opunham categoricamente a ela; contudo, seu princípio foi adotado durante o congresso da Federação Nacional dos Sindicatos, realizado em 1887, em oposição às posições dos líderes guesdistas.

O recurso à greve geral entrava em contradição com a conquista do poder político pelo partido ou… melhor dizendo, pelos cinco ou seis partidos políticos que disputavam os sufrágios da classe operária. A extrema divisão do movimento socialista foi um dos fatores que explicaram a força do sindicato como centro de identificação da classe operária. Em Le Socialiste de 4-11 de novembro de 1908 (guesdista), um militante enumerava “quase uma quarentena de tendêncais no Partido”[lxviii]. Face à multiplicação de capelas socialistas e à passagem ao governo de ex-socialistas como Millerand e Briand, o reflexo sindical vai sobrepor-se à política. O princípio da independência sindical sobrepujará a intransigência doutrinal. Compreende-se desde logo que o discurso sindicalista revolucionário relativo à unidade da classe operária tenha podido ser também bem compreendido pelos trabalhadores. O fim das querelas entre capelas socialistas e a unificação do partido em 1905 forneceu uma alternativa legal e pacífica à estratégia de ação direta do sindicalismo revolucionário. O declínio do movimento revolucionário na França segue muito precisamente a ascensão da perspectiva parlamentar.

No interior da Federação Nacional dos Sindicatos, as tensões entre os partidários da greve geral e os guesdistas levaram os primeiros a criar uma Federação das Bolsas do Trabalho (bourses du travail). As bolsas do trabalho, que são um legado da Revolução Francesa, já existiam; elas foram legalizadas em 1887, mas permaneceram isoladas umas das outras. Foi em 1892 que uma dúzia delas decidiram se federar, juntando-se rapidamente a outras. Mas dentro dessa nova organização, eclodiram conflitos entre as diferentes correntes que coexistiam ali. Os anarquistas destacaram-se pela capacidade de moderar os conflitos (ou talvez pela sua indiferença em relação aos desafios dos conflitos internos do movimento socialista…).

Fernand Pelloutier

Fernand Pelloutier foi nomeado vice-secretário da Federação das Bolsas do Trabalho em 1894, depois secretário no ano seguinte e dedicou-se completamente ao desenvolvimento da organização até sua morte prematura em 1901[lxix]. Essas bolsas eram inicialmente serviços de emprego (bureaux de placement), onde operários e empregadores negociavam o preço da mão-de-obra. Os anarquistas modificarão completamente o espírito, transformando-os em estruturas horizontais de solidariedade, atuando como fundos de greve, desemprego, enfermidades, assistência funeral, dedicando-se à educação e à formação com bibliotecas e aulas noturnas, no espírito da “propaganda pelo fato”, como inicialmente entendido pela Associação Internacional dos Trabalhadores. 

O apoio ao princípio da greve geral foi quase unânime no movimento operário francês, a ponto de um congresso convocado em 1893, que reuniu os delegados das bolsas do trabalho e das câmaras sindicais, ter votado por unanimidade a greve geral[lxx]. Os membros do congresso se reuniram em Nantes no ano seguinte para discuti-la. Foi, portanto, em Nantes[lxxi], em setembro de 1894, que a mudança ocorreu durante o VI Congresso da Federação Nacional de Sindicatos e Grupos corporativos. Este congresso é particularmente importante porque põe fim à ideia de subordinação do movimento sindical à política eleitoral dos partidos socialistas. Os sindicalistas se livram da tutela dos guesdistas e demonstram sua autonomia.

Por maioria de dois terços, o congresso aprova a tese de Fernand Pelloutier “

“Considerando que, na presença de poder militar colocado a serviço do capital, uma insurreição armada ofereceria apenas às classes dominantes uma nova oportunidade para reprimir as demandas sociais no sangue dos trabalhadores; considerando que o último meio revolucionário é, portanto, a greve geral, o VI Congresso Nacional dos Sindicatos Operários da França decide: a greve geral deve ser organizada imediatamente.”  

Para Pelloutier, a escolha da greve geral responde a uma preocupação muito prática: em 1886, uma inovação técnica obrigou a reconsiderar a pertinência do erguimento de barricadas insurrecionais e tornou, acreditou-se, à época, o recurso à greve geral mais pertinente e menos sangrento: a introdução do fuzil Lebel no exército francês. Esse fuzil, que permitia disparar oito balas sem recarregar, substituía o modelo em uso, de um único tiro. Isso confirmava as análises de Bakunin ao final de sua vida: o Estado doravante adquiriu uma força de repressão ultrapassando amplamente os meios de que dispunha a classe operária para afrontá-lo. Para Pelloutier, a greve geral, que situava a ação do proletariado nas empresas e não na rua, era o meio de limitar os confrontos sangrentos, sem os suprimir totalmente.

Em 1894, em Nantes, mil seiscentas e sessenta e duas organizações operárias deram um mandato à Federação dos Sindicatos de Trabalhadores de Limoges e do Centro para organizar o VII Congresso Corporativo que levaria à fundação da C.G.T.. Os guesdistas foram derrotados e decidiram se retirar do congresso, cedendo assim a liderança da organização a seus adversários anarquistas, allemanistas e blanquistas. “Não é menos verdade, no entanto, comenta Jean Maitron, que os anarquistas desempenharam um papel de liderança com ativistas como F. Pelloutier, E. Pouget, G. Yvetot, P. Delesalle, etc. e que o movimento sindical naquela época estava impregnado pela ideologia libertária.”[lxxii]

Os guesdistas da FNS tristemente continuarão sua jornada por alguns anos, antes de evaporarem em 1898, mas sem abandonar a ideia de um dia assumir o controle do movimento sindical. No entanto, eles tiveram sua revanche em 1896: com seus camaradas social-democratas alemães, eles excluirão dos congressos socialistas os anarquistas que participavam dessas reuniões desde o final da A.I.T.

A fundação da C.G.T. no congresso realizado em Limoges, de 23 a 28 de setembro de 1895, não entusiasmou Pelloutier, que a considerava uma entidade confusa e supérflua. De fato, era no início uma organização pouco estruturada, ineficaz, balbuciante. Por alguns anos, ele teve que travar, contra ela e sua direção reformista, uma guerrilha pela liderança no movimento sindical. Também é significativo que a fusão da Federação Nacional das Bolsas do Trabalho à C.G.T. não tenha ocorrido até 1902, após sua morte.

O Congresso de Montpellier da C.G.T. em 1902 foi, de fato, a verdadeira fundação da Confederação, porque foram fundidas a estrutura vertical (indústria ou profissão) e a estrutura geográfica horizontal (bolsas do trabalho). Vemos repetir esta estrutura dupla, definidora precisamente do sindicalismo revolucionário e mais tarde do anarcossindicalismo, e que corresponde completamente ao esquema desenvolvido por Bakunin.[lxxiii] Foi durante o congresso de Montpellier que a expressão “sindicalismo revolucionário” foi pronunciada pela primeira vez.[lxxiv]  

Thiago Lemos Silva escreve:

“Foi a partir do trabalho desenvolvido por Pelloutier e outros anarquistas junto à Federação de Bolsas do Trabalho em fins do século XIX, que se instituiu e se estruturou a Confederação Geral do Trabalho no ano 1902, órgão sindical, que como já assinalamos, serviu de inspiração para o movimento operário do Brasil e de outras partes do mundo”[lxxv].

Pelloutier desempenhou um papel determinante na virada greve-generalista do movimento sindical, depois, na virada sindicalista do movimento anarquista. No dia seguinte ao seu desaparecimento, ele foi considerado um dos “pais fundadores” do sindicalismo francês.

Émile Pouget

Nascido em 1860, Émile Pouget se envolveu muito cedo no movimento operário. Desde 1879, ele participou da criação do Sindicato dos Empregados Têxteis. Em 24 de fevereiro de 1889, ele editou um jornal semanal panfletário, Le Père Peinard, onde se propôs a despertar a consciência dos operários. Ele defendia a ação direta e a greve geral como instrumentos de luta que deveriam preceder a revolução. Em meados da década de 1890, enquanto os anarquistas permaneceram divididos na questão dos atentados, Pelloutier e Pouget se opuseram a eles[lxxvi] e fizeram campanha para que os anarquistas ingressassem nos sindicatos. Pouget desempenhou um papel cada vez mais importante na jovem Confederação Geral do Trabalho, onde defendeu a tendência revolucionária do sindicalismo contra os reformistas. Em 1897, ele fez adotar o princípio da sabotagem[lxxvii] como meio de ação sobre o patronato, além das reivindicações pela jornada de oito horas e pelo repouso semanal (Congresso de Bourges, em 1904). Ele também assumiu, a partir de 1900, o primeiro órgão de imprensa da C.G.T., La Voix du Peuple.

Foi a partir do congresso de Bourges que ele parou de reivindicar publicamente o anarquismo, sem repudiá-lo explicitamente. Durante anos, ele continuou se cercando de anarquistas, mas como líder sindical ele fez a unidade operária prevalecer sobre suas orientações ideológicas. Ele desenvolveu a ideia de que o sindicato é o “partido do trabalho” com sua própria doutrina. O sindicalismo é a “quintessência de várias doutrinas sociais, depois de eliminar tudo o que elas podem ter de estreito e demasiadamente sistemático”.[lxxviii]

Pouget desempenhou um papel excepcional como secretário assistente da C.G.T. ao lado de Victor Griffuelhes, secretário de origem blanquista. Os dois homens formaram, de 1901 a 1908, um conjunto de extraordinária complementaridade: “Em 1902, Griffuelhes foi nomeado secretário geral da C.G.T., Émile Pouget era seu assistente na seção de federações. Graças à diversidade de seus dons, esses dois militantes vão formar uma equipe perfeita.[lxxix] Pouget assumiu seu papel de líder operário, estrategista, organizador, um mentor de seu secretário Griffuelhes.[lxxx]

Émile Pouget escreveu em 1901, na A Greve Geral Revolucionária: “A greve geral não se limita à cessação do trabalho, mas deve ser seguida imediatamente da posse e reorganização da produção, além da circulação de produtos.”[lxxxi]  Assim, a contribuição anarquista sobre a questão da greve geral foi essencial no sindicalismo revolucionário: análise do papel do Estado, a recusa do parlamentarismo e dos políticos, antimilitarismo, antipatriotismo, ação direta. Não é possível dissociar anarquistas e sindicalistas revolucionários sobre esta questão[lxxxii], que foi colocada com insistência por militantes que, após o final da A.I.T., não se resignaram a serem “órfãos da Internacional” e que se obstinaram a participar dos congressos socialistas internacionais organizados pela social-democracia alemão. Esses militantes eram anarquistas? sindicalistas? Eles eram anarquistas, mas ao mesmo tempo inquestionavelmente sindicalistas revolucionários. O historiador brasileiro Thiago Lemos Silva, em seu prefácio de Anarquistas no sindicato, no debate entre Neno Vasco e João Crispim, também escreve que “a tentativa, portanto, de operar a separação entre anarquismo e sindicalismo revolucionário, reduzindo o alcance da contribuição dos seus militantes ao movimento operário, torna-se duvidosa”[lxxxiii].

Émile Pouget participou, em Amiens, da redação da famosa carta que leva o nome da cidade, e que na origem registrava apenas uma resolução do congresso. Esta “carta” resulta de um compromisso entre sindicalistas revolucionários e uma parte dos socialistas reformistas contra outra fração socialista reclamada por Jules Guesde. Os guesdistas, agora minoria no partido que fora unificado no ano anterior, defendiam a subordinação do sindicato ao partido. A fração majoritária da corrente socialista entendeu que a neutralidade sindical, entendida no sentido restritivo, os convinha perfeitamente, pois obrigava a C.G.T. a não assumir uma posição política. A rigidez mental dos guesdistas os impedia de entender que o princípio da “neutralidade” sindical estava lhes prestando um serviço. O desafio não era apenas impedir que partidos políticos entrassem no sindicato; era também, e talvez mais, impedir que o sindicato usurpasse os poderes dos partidos políticos. Por trás da aparente vitória sobre os guesdistas, houve um retrocesso em relação ao sindicalismo revolucionário original.

Se os sindicalistas revolucionários, e entre eles os anarquistas, aceitaram esse compromisso, é porque o guesdismo apareceu como um perigo maior, mas a leitura atenta das atas dos congressos socialistas após Amiens mostra que o objetivo dos reformistas moderados era o mesmo dos guesdistas, suas táticas eram simplesmente mais inteligentes. Na época do Congresso de Amiens, o partido socialista recém-unificado apareceu, portanto, como um novo centro de identificação para a classe operária: a C.G.T. não estava mais sozinha.

O Congresso de Amiens avaliza, na prática, a divisão social-democrata do trabalho entre a luta econômica e política. De certa forma, a Carta de Amiens é uma vitória indireta para o guesdismo. A C.G.T. é então dividida em três tendências: uma tendência guesdista ainda forte; uma tendência reformista ascendente e uma tendência sindicalista revolucionária.

Este congresso também marca o início de uma evolução que transformará profundamente a C.G.T. — uma evolução que, sem dúvida, explica a saída de Pouget da atividade sindical em 1909. Greves muito duras haviam enfraquecido a liderança federal. A terrível greve em Draveil-Villeneuve-Saint-Georges em 1908-1909, durante a qual vários operários foram mortos pela polícia, resultou na prisão de quase todo o comitê confederal da C.G.T., incluindo Émile Pouget. Os reformistas se aproveitaram disso para preencher os postos vagos, que os sindicalistas revolucionários conseguiram recuperar quando foram libertados, não sem algumas perdas. Em 1909, Pouget tentou lançar um grande diário sindical revolucionário, o La Révolution, que cessou rapidamente por falta de meios. Significativamente, 1909 também foi a data da criação de La Vie Ouvrière, que se tornou o porta-voz do sindicalismo revolucionário que poderia ser descrito como “revisionista” ou “modernista”, liderado por Pierre Monatte. Este último foi ao congresso anarquista internacional em Amsterdã, no lugar de Pouget, que havia desistido. Pouget então se retirou do movimento sindical e morreu discretamente em 1931.

As atividades de Pelloutier e Pouget eram perfeitamente complementares, cada uma em seu campo de atividade, sem nunca perder de vista a perspectiva geral do movimento operário e do movimento anarquista.

Pouget, refugiado em Londres, aproveitou a anistia de 1895 para retornar à França. De maio de 1895 a outubro de 1896, publicou o semanário La Sociale. Foi um período de colaboração ativa com Fernand Pelloutier e Bernard Lazare: os três homens tentaram implementar um esforço de aproximação europeia entre anarquistas e socialistas antiparlamentares para combater a crescente influência da social-democracia. Sindicalismo, antiparlamentarismo e greve geral deveriam ser os três pilares desta aproximação.

Na primavera de 1896, eles tentaram iniciar um diário, La Clameur, com o qual desejavam aproximar Jean Allemane[lxxxiv]. O projeto fracassou, o Congresso de Tours da C.G.T. (setembro de 1896) se recusou a apoiá-los: valendo lembrar de que, na sua fundação, a C.G.T. permanecia dominada pelos reformistas. Contudo, em outubro de 1896, Pelloutier e Pouget ainda estavam tentando arrecadar fundos para concluir seu projeto (cf. Le Père Peinard, 25 de outubro de 1896).

Em julho de 1896, Pelloutier e Pouget, novamente, com Hamon, Lazare e Malatesta, organizaram uma operação antiparlamentar no Congresso Socialista Internacional de Londres. Pelloutier foi o delegado da Federação das Bolsas do Trabalho, participando das conferências de Saint Martin’s Hall, que reuniram, à margem do congresso socialista, representantes europeus do anarquismo e do socialismo antiparlamentar. Embora este congresso tenha terminado com a exclusão definitiva dos anarquistas dos congressos socialistas internacionais, Jean Maitron considera um sucesso para Pelloutier. “Os guesdistas e os parlamentares socialistas, escreve Maitron, foram colocados em minoria na delegação francesa, dominada por uma coalizão de allemanistas, anarquistas e sindicalistas reformistas”.  Leon de Seilhac, citado por Maitron, vive no Congresso de Londres — isto é, a separação final dos anarquistas e socialistas – “o ponto culminante da carreira de Pelloutier”, um “golpe de habilidade e força que libertou para sempre os trabalhadores dos políticos”, uma “emboscada” onde “os guesdistas foram surpreendidos e esmagados pelas coortes romanas, sob o comando de Pelloutier, Pouget, etc. Foi um golpe de gênio”[lxxxv]. Acho que Maitron se empolga com sua verve lírica.

Pelloutier conclamava os anarquistas a engajar-se ainda mais no movimento sindical. “Os sindicatos […] sustentam, além do mais, semear na sociedade capitalista o germe de grupos livres de produtores por quem parece dever realizar-se nossa concepção comunista e anarquista. Devemos, portanto, abstendo-nos de cooperar em sua tarefa, correr o risco de que um dia as dificuldades os desencorajem e que eles lancem-se nos braços da política?” [lxxxvi].

Pouget não disse nada diferente, em outubro de 1894, no periódico The Torch no qual colaborou durante seu exílio em Londres: “Sabemos que a Revolução será realizada pelos trabalhadores em pessoa, e, por consequência, cremos no ingresso dos anarquistas nas associações de trabalhadores”[lxxxvii].

No mesmo mês, ele escreveu em Le Père Peinard um artigo (“A astuto, astuto e meio”), que marcou a reviravolta do anarquismo ao sindicalismo: “Cometemos o terrível erro de restringirmo-nos em demasia aos grupos de afinidades. Os grupos de afinidades não têm raízes na massa popular”[lxxxviii].

Se apontássemos o principal ponto comum entre Fernand Pelloutier e Émile Pouget, eu diria que eles desempenharam um papel fundamental no engajamento dos anarquistas no movimento sindical e que ambos eram táticos e organizadores de destaque.

5. — IEL: Lemos em produções historiográficas termos como “sindicalismo de ação direta” ou outros, como “sindicalismo de intenção revolucionária”. O que você diria sobre isso?

René Berthier : Dizer que o sindicalismo é “ação direta” é apenas uma maneira de qualificar o sindicalismo revolucionário. Por exemplo, Jacques Julliard escreveu, em 1972, um livro chamado Fernand Pelloutier et les origines du syndicalisme d’action directe, e é sobre o sindicalismo revolucionário. Sabemos que Pelloutier é um daqueles militantes anarquistas que estavam na origem da fundação do sindicalismo revolucionário.

A expressão “sindicalismo de intenção revolucionária” é recente, parece que serve para designar, sob o mesmo termo, duas correntes distintas, sindicalismo revolucionário e anarcossindicalismo. Aqueles que usam essa fórmula parecem considerar que as duas expressões são quase sinônimas, exceto por algumas nuances, e que não há mal em reuni-las no mesmo termo. No entanto, apesar dos pontos comuns, são duas correntes que têm diferenças importantes demais para serem confundidas. Fico tentado a acreditar que as pessoas que usam a expressão “sindicalismo de intenção revolucionária” simplesmente ignoram essas diferenças.

“Sindicalismo de intenção revolucionária” é uma expressão que parece ser utilizada principalmente pelos plataformistas[lxxxix], e que encaixa no espírito de Black Flame, o livro de Schmidt e van der Walt. Eu digo “no espírito” porque não está no livro, pelo que sei.

Em francês, a expressão “sindicalismo de intenção revolucionária” soa curiosamente porque, em nossa língua, uma intenção é um desejo de fazer algo, uma disposição de espírito pela qual nos propomos a agir. Mas quando uma pessoa declara que tem intenção fazer algo, é implicitamente entendido que ele não tem certeza de que está fazendo isso. Por fim, os camaradas que imaginaram essa expressão poderiam ter falado em “sindicalismo com um desejo revolucionário!”

Mais seriamente, rejeito a expressão “sindicalismo de intenção revolucionária” por duas razões, uma histórica e outra política.

♦ Ninguém sonharia em separar, sob o mesmo vocábulo, duas correntes estéticas nascidas em gerações distintas. O sindicalismo revolucionário nasceu entre 1890 e 1905 em circunstâncias e contextos bastante específicos: o legado da repressão da Comuna de Paris, a divisão do movimento socialista e suas brigas internas, etc.

O anarcossindicalismo nasceu na década de 1920, ou seja, uma geração depois, a partir da Revolução Russa, por uma ruptura na corrente sindicalista revolucionária que estava dentro da C.G.T.U. (uma cisão da C.G.T. francesa). Os sindicalistas revolucionários estavam divididos sobre a questão da adesão à Internacional Sindical Vermelha (ISR em francês — Internationale Syndicale Rouge), uma organização criada à margem da Internacional Comunista. Parte da corrente decidiu apoiar o regime comunista na Rússia e advogou a adesão à ISR (quando a repressão antioperários no país não podia mais ser ignorada), enquanto a outra parte se recusou a aderir. O anarcossindicalismo nasceu precisamente naquele tempo. A criação da A.I.T. de Berlim, no final de 1922 início de 1923, resulta da dupla constatação feita pela corrente sindicalista revolucionária “não bolchevique” de que era impossível trabalhar com os bolcheviques e que era impossível para eles prescindir de uma organização internacional.[xc]

No entanto, os textos fundadores da segunda A.I.T. não falam de anarcossindicalismo. De fato, os sindicalistas revolucionários que romperam com Moscou se viam como os verdadeiros sindicalistas revolucionários, não tinham motivos para mudar de nome. Especialmente porque a expressão “anarcossindicalista” era inicialmente um insulto dirigido pelos comunistas e sindicalistas revolucionários pró-comunistas àqueles que se opunham à filiação à Internacional Sindical Vermelha. Levou vários anos para que a expressão se tornasse comum. O anarcossindicalismo como corrente existia, portanto, na prática no início da década de 1920, mas foi apenas entre 1925 e 1930 que o nome foi amplamente adotado, e não foi até 1937 que a expressão adquiriu um caráter “Oficial”, em discurso de Pierre Besnard em um congresso anarquista internacional!

Os sindicalistas revolucionários que aderiram às teses comunistas simplesmente acabaram se dissolvendo no movimento comunista na França. Eles também constituíram boa parte dos principais quadros dirigentes do partido.

O sindicalismo revolucionário havia estabelecido a regra de neutralidade do sindicato em relação aos partidos e organizações políticas. A A.I.T. de Berlim havia decidido claramente a oposição do movimento sindical aos partidos. É uma distinção essencial. De fato, o movimento operário brasileiro havia precedido por dez anos os arranjos feitos pela A.I.T. em seu congresso em Berlim. De fato, o Segundo Congresso Operário Brasileiro “confirmou as orientações do sindicalismo revolucionário com grande influência anarquista e negou novamente qualquer possibilidade de o proletariado se organizar por meio de partidos políticos”.[xci] Embora o anarcossindicalismo não seja mencionado explicitamente, é disso que se trata.

As duas correntes não se distinguem pelo fato de o sindicalismo revolucionário ser uma forma “atenuada” de anarcossindicalismo ou de não se referir explicitamente ao anarquismo. [Especialmente porque existem anarcossindicalistas que rejeitam a participação no movimento anarquista, que autores como Schmidt e van der Walt parecem ignorar.] Eles se distinguem pelo fato de terem aparecido com 25 anos de intervalo e pelo fato de possuírem uma abordagem totalmente diferente para lidar com os partidos.

Quando a corrente anarcossindicalista decolou, o sindicalismo revolucionário perdeu sua influência. Alguns militantes continuaram se referindo aos temas tradicionais do sindicalismo revolucionário, notadamente a neutralidade sindical; eles se recusaram a apoiar o comunismo russo, mas também se recusaram a se juntar à corrente anarcossindicalista, mantendo-se fiéis aos princípios iniciais do movimento. Eu conheci no início dos anos 70 velhos militantes sindicalistas revolucionários que sabiam perfeitamente porque não eram anarcossindicalistas e não era “por ignorância ou recusa tática”, para usar a expressão de Schmidt e van der Walt.[xcii]

♦ Penso que certo desconhecimento da história do movimento operário explica o recurso à expressão “sindicalismo de intenção revolucionária”, desconhecimento ao qual se pode acrescentar uma intenção pedagógica, que pode parecer paradoxal. É o que emerge das minhas discussões com um camarada brasileiro que propaga esse conceito. Mas penso que também existem razões políticas: falar em “sindicalismo de intenção revolucionária” nos permite ampliar o “perímetro” do anarquismo, ou seja, integrar ao conceito “anarquismo”, indivíduos, correntes ou movimentos que podem até parecer próximos, mas que não fazem parte dele. Os argumentos de Schmidt e van der Walt prosseguem em círculos concêntricos. No centro, está o anarquismo propriamente dito. A importância numérica desse movimento sempre foi relativamente reduzida. Então eles vão expandi-lo incorporando sindicalismo revolucionário e o anarcossindicalismo. Esse processo aumenta consideravelmente o número de pessoas, já que essas duas correntes constituíram movimentos de massa no passado. Ambos são definidos como “variantes” ou “estratégias” do anarquismo.

Em relação a este ponto, não há grande coisa sobre a qual os autores de Black Flame possam fundamentar-se para justificar fatualmente essa hipótese. Sindicalismo revolucionário e anarcossindicalismo não se diferenciam na base de fatos históricos, mas na ideia de que o segundo “situa-se explicitamente no interior da tradição anarquista”, ao passo que o primeiro “não faz o liame tão explícito por causa da ignorância ou da denegação tática de seu laço com o anarquismo” (Black Flame, p. 16, versão em inglês). Tendo assim procedido, os autores de Black Flame criaram, portanto, uma entidade muito numerosa mas assaz nebulosa, que eles chamam de “Broad anarchist tradition” (tradição anarquista ampla), na qual eles vão ainda introduzir pessoas que nunca pediram para ser anarquistas, ou movimentos que decerto podem ter um vago caráter “antiautoritário” mas dos quais não se pode dizer que eles integram-se em uma “tradição” anarquista[xciii].

O paradoxo da retórica de Schmidt/van der Walt é que eles opõem-se ao que denominam  a “autoidentificação”, isto é, eles recusam-se a considerar como anarquista uma pessoa simplesmente porque ela declara-se tal; mas não hesitam em fazer “a alter-identificação”, isto é, designar como anarquista uma pessoa ou um grupo que não reclama essa honra.[xciv]

Um último ponto a concluir. Ao folhear documentos publicados por certos libertários brasileiros, às vezes tive a impressão de que seus autores relutavam em falar de “sindicalismo revolucionário” porque a expressão “revolucionário” lhes parecia desproporcional se considerarmos os meios de ação que eles dispõem no atual equilíbrio de forças. É o que entendo quando leio em um texto do CAB que “o termo ‘revolucionário’ hoje pode parecer estranho, porque parece prepotente demais diante de uma atuação que nos conduz  a certas limitações no campo prático”[xcv]. Referindo-se ao “sindicalismo de intenção revolucionária”, os autores do texto parecem ter a impressão de serem mais realistas, mais “terra a terra”, mas, ao fazê-lo, negligenciam um fato essencial: que o sindicalismo revolucionário tem uma função reivindicativa / defensiva e uma função ofensiva / construtiva, e que, se um dos dois aspectos domina em um determinado momento, é apenas circunstancial. É óbvio que, no momento, no Brasil e em qualquer outro lugar, é o aspecto defensivo que domina, mas justamente por essa razão é importante insistir no aspecto construtivo, é vital não edulcorar, não atenuar o conceito de sindicalismo revolucionário, rotulando-o com um qualificativo, “intencional”, que parece um pouco vago.

O sindicalismo revolucionário pertencente à história do movimento operário brasileiro, tem sido uma corrente histórica do movimento operário brasileiro de que os ativistas de hoje devem se orgulhar particularmente: “Os anarquistas estiveram na liderança dos dois primeiros congressos operários. Tal fato nos permite afirmar a hegemonia da estratégia do ‘anarquismo de massas’ dentro do movimento operário na Primeira República, atuando dentro do modelo do sindicalismo revolucionário”[xcvi]. Rejeitar esse termo em benefício de outro que apenas expressa um dilúvio de doutrina é, em minha opinião, insultar os revolucionários que, há cem anos, lutaram e frequentemente morreram sob sua bandeira.

6. — IEL: Você pode definir o papel de Pierre Besnard no sindicalismo revolucionário?

René Bérthier:  Pierre Besnard, nascido em 1886, não faz parte da primeira geração do sindicalismo revolucionário. Após a Grande Guerra, ele foi um militante  ativo na federação de ferroviários da C.G.T., onde ocupou importantes mandatos na região de Paris. Ele foi demitido de seu emprego em maio de 1920 por entrar em greve. Em 20 de maio de 1921, Besnard substituiu Monatte como secretário geral do Comitê Central dos Comitês Sindicalistas Revolucionários, que reunia oponentes da linha reformista da direção da C.G.T.. Nos CSR se reuniram militantes  comunistas (que seguiram as recomendações da Internacional Comunista), anarquistas, anarcossindicalistas e sindicalistas revolucionários. Os CSRs foram criados após o Congresso de Lyon da C.G.T. (1919) e estavam na origem da divisão que constituía a C.G.T.U. (“U” para “Unificado”). Besnard é, sem dúvida, o personagem que expressa da maneira mais significativa a transição entre o sindicalismo revolucionário e o anarcossindicalismo.

Quando a Revolução Russa eclodiu, o sindicalismo revolucionário, que era a corrente revolucionária dominante no movimento operário mundial, apoiou com entusiasmo a revolução. Mas pouco a pouco, quando as notícias começaram a se infiltrar e os militantes se deram conta de que o regime soviético estava reprimindo a classe operária e todos aqueles que erguiam uma voz discordante, a corrente sindicalista revolucionária se dividiu em duas: uma, com Pierre Besnard , que se recusou a apoiar tal regime, e outra, com Pierre Monatte, que optou por permanecer surdo às trágicas notícias que vinham da Rússia.  

As duas correntes coexistiram por algum tempo dentro da C.G.T.U.. O ponto de ruptura foi estabelecido na questão da adesão à Internacional Sindical Vermelha, o anexo sindical da Internacional Comunista.[xcvii] Parte do movimento sindical revolucionário declarou-se a favor da adesão e de fato desapareceu como corrente, sendo absorvida pelos Partidos Comunistas, quando não ajudou a criá-los[xcviii]; a outra parte, depois de ter participado das primeiras reuniões do ISR e de perceber a impossibilidade de colaborar com os bolcheviques, participou em 1922-1923 da criação em Berlim da Associação Internacional dos Trabalhadores (A.I.T.-Berlim). Os documentos fundadores desta nova Internacional não falam de anarcossindicalismo, é apenas uma questão de sindicalismo revolucionário. De fato, os militantes se viam como os verdadeiros sindicalistas revolucionários. O termo “anarcossindicalismo”, de criação recente, ainda não estava em uso. No entanto, a A.I.T.-Berlim era, sem dúvida nenhuma, uma organização anarcossindicalista.

Dentro da C.G.T.U., a ruptura foi consumada no congresso de Saint-Etienne (25 de junho a 1º de julho de 1921). Comunistas e sindicalistas revolucionários da tendência Monatte venceram por 743 mandatos, contra 406 de Pierre Besnard. Naquela época, “anarcossindicalista” e “anarcossindicalismo” eram termos depreciativos usados por comunistas e por sindicalistas revolucionários pró-comunistas para denotar aqueles que se recusavam a ingressar na Internacional Sindical Vermelha. Além disso, mesmo dentro do movimento anarquista, o anarcossindicalismo não era bem-vindo: Pierre Besnard escreveu em 1937 que, em 1917, “os anarquistas comunistas eram excessivamente reservados, e até hostis, a essa nova formação anarquista“[xcix]. Sabemos que, na própria Rússia, as duas correntes experimentaram uma situação de extremo antagonismo. Tudo isso não está de acordo com as teses daqueles que escrevem que o anarcossindicalismo é uma “estratégia” do anarquismo. O próprio Pierre Besnard, por muito tempo, se recusou a usar esse termo. Foi apenas no Congresso Anarquista Internacional de 1937 que esse termo foi adotado, em um relatório que o próprio fez como secretário da A.I.T., intitulado “Anarcossindicalismo e anarquismo”.[c]

Em 11 de janeiro de 1924, dois anarquistas foram mortos pelos comunistas em um comício na Casa dos Sindicatos, em Paris. A tendência de Besnard retirou-se da C.G.T.U. e formou um sindicato federativo autônomo, que depois se tornou, em 1926, a Confederação Geral do Trabalho — Sindicalista Revolucionária (C.G.T.-SR).

No congresso da C.G.T.U de 1929, os comunistas votaram a favor de uma moção:

“O congresso finalmente especifica sua determinação de trabalhar em todos os aspectos em estreito acordo com o PC, o único partido do proletariado e da luta de classes revolucionária que, através de todas as batalhas do período passado, conquistou seu lugar de dirigentes da vanguarda proletária do movimento operário.”

Os sindicalistas revolucionários que ainda estavam na C.G.T.U., os amigos de Monatte que travavam um combate de retaguarda, conseguiram fazer acrescentar a seguinte frase: “A proclamação desse papel dirigente e seu reconhecimento não poder iam ser interpretados como a subordinação do movimento sindical“. Ou seja, o sindicato reconhece o papel dirigente do partido, mas não lhe é subordinado! Essa lamentável situação mostrava claramente os limites da ação dos sindicalistas revolucionários no seio de uma organização dominada pelos comunistas.

Monatte, cujo prestígio entre os trabalhadores havia servido grandemente aos comunistas, teria aderido ingenuamente no Partido. Ele foi excluído em 1924 e foi tratado por seus ex-companheiros da pior maneira possível.[ci]

Na década de 1930, anarquistas e sindicalistas revolucionários podiam ser encontrados em três organizações:

• Primeiro, muitos militantes anarquistas, desaprovando a divisão da C.G.T.U. e a divisão que levou à C.G.T.-SR, permaneceram na C.G.T. histórica, reformista.

• Os remanescentes da corrente de Monatte que não haviam sido excluídos ou que não haviam ingressado no PC reuniram na C.G.T.U. e formaram uma batalha retaguarda. Ironia da história; Monatte foi incapaz de seguir seus camaradas pró-comunistas para a C.G.T.U., já que seu sindicato não havia se separado e permanecido na reformista C.G.T..

• A corrente de Besnard estava na C.G.T.-SR, criada oficialmente em 2 de novembro de 1926, em Lyon, e que adotou uma carta, o documento de Lyon, que constituía uma clara ruptura com a carta de Amiens[cii]. Besnard tornou-se secretário da organização em julho de 1929, que na melhor das hipóteses recebeu 15.000 membros, mas tinha apenas 4.000 em julho de 1939. Na realidade, mesmo que a C.G.T.-SR realmente tivesse sindicatos, ela desempenhou praticamente um papel de organização específica. Muitos anarquistas se opuseram à criação da C.G.T.-SR, uma oposição que se manifestou nos congressos anarquistas da época. No Congresso da União Anarquista, em 1930, apenas dois grupos de vinte e dois eram a favor da nova confederação, que alguns, em tom de escárnio, chamaram a C.G.T.-SR, “C.G.T. sans rien” (C.G.T. Sem Nada), devido ao seu pequeno número de participantes efetivos.

A C.G.T.-SR juntou-se à A.I.T., estabelecida em Berlim no início de 1923. A A.I.T. adotou a idéia de romper com a Carta de Amiens: Alexandre Shapiro escreveu que “a Grande Guerra varreu a Carta do neutralismo sindical. E a divisão na Primeira Internacional entre Marx e Bakunin teve seu eco — à distância de quase meio século — na divisão historicamente inevitável dentro do movimento operário internacional no pós-guerra”.[ciii] Essas palavras aparecem na introdução de Alexandre Shapiro ao discurso de Pierre Besnard, então secretário da A.I.T., no Congresso Anarquista Internacional de 1937. Este relatório foi intitulado “L’anarcho-syndicalisme et l’anarchisme” e  se constitui, de certa forma, no batismo do anarcossindicalismo, que se ergue pela primeira vez como doutrina.

Após a Segunda Guerra Mundial, Pierre Besnard retomou suas atividades sindicais, participou de várias tentativas de reconstruir uma organização sindical revolucionária. Ele contribuiu para a criação da Confederação Nacional do Trabalho na França, mas morreu alguns meses depois.

A intervenção de Pierre Besnard está situada no período descendente do movimento sindicalista revolucionário na França. Majoritário no momento da cisão de 1921, o declínio do movimento se deve em grande parte a seus erros estratégicos, pois se fraturou com a adesão de parte dos militantes à estratégia do comunismo russo. Besnard figura como um dos militantes que foram capazes de resistir às ilusões do comunismo soviético, conseguindo manter, como escreveu meu velho camarada Jacky Toublet, sua “bússola libertária”.

A CG.T.-SR teve um papel muito ativo durante a Guerra da Espanha. Besnard participou da criação de comitês sindicalistas anarquistas para a defesa do proletariado espanhol e foi escolhido como secretário da Conferência desses comitês, reunida em 24 e 25 de outubro de 1936. Ele foi confirmado nessa função pela plenária da A.I.T., realizada em Paris, de 11 a 13 de novembro, com o objetivo de intensificar a propaganda internacional em favor da Espanha “vermelha”. Porém, durante essa sessão plena, Besnard havia feito duras críticas à participação governamental da C.N.T. espanhola. A princípio moderadas, suas críticas se tornariam mais severas.

A C.N.T., que ameaçava deixar a A.I.T., conduziu a Internacional ao congresso extraordinário da associação em dezembro de 1937. As outras seções se curvaram: uma “resolução sobre autodisciplina” foi votada pelo congresso, cada seção comprometendo-se a não fazer críticas públicas à C.N.T. espanhola. No mesmo espírito, Pierre Besnard foi demitido do cargo de secretário-geral e substituído pelo espanhol Horatio Prieto. A A.I.T. foi assim “normalizada” e, a partir de janeiro de 1938, o Combat Syndicaliste, o jornal da C.G.T.-SR, se contentaria, morto na alma, em passar os comunicados oficiais da C.N.T..

O movimento libertário espanhol estava, às vésperas da guerra civil, muito profundamente dividido em uma corrente “comunalista” ou anarquista-comunista, inspirada por Kropotkin (diria-se “horizontalista” hoje), e uma corrente coletivista ou sindicalista, inspirada em Bakunin, àqual Rudolf Rocker, Cornelissen, Higinio Noja, Juan Peiro, Angel Pestana, Gaston Leval, Pierre Besnard e outros se uniram. Confrontados com a ausência de um programa “comunalista”, além das visões idílicas no estilo kropotkiniano, os “sindicalistas” decidiram reagir contra o espontaneismo, o otimismo e as visões rústicas. Até o estabelecimento da Frente Popular em 1936, o movimento libertário foi atravessado por vigorosas polêmicas sobre o papel dos sindicatos na sociedade pós-revolucionária: “A partir de 1932, o apelo à construção do projeto libertário comunista se multiplicarão e, tanto na Espanha quanto no exterior, começam a discutir a futura estrutura organizacional, econômica e social do anarquismo.”[civ]

Diego Abad de Santillan havia participado em 1931 no IV Congresso da A.I.T., durante o qual se opôs a Pierre Besnard, que propôs a criação de federações de indústria. O livro de Besnard, Les syndicats ouvriers et la révolution sociale, traduzido em 1931, influenciou bastante os anarcossindicalistas espanhóis e teve um papel decisivo na escolha que eles fizeram de criar federações da indústria, que ajudaram sobremaneira o anarcossindicalismo espanhol a recuperar o controle da economia em áreas que os fascistas não controlavam.[cv]

O que caracteriza Les syndicats ouvries et la révolution sociale é a perspectiva do sindicalismo operário em um contexto internacional de ascensão do fascismo: é uma obra programática que desenvolve um certo número de reivindicações transitórias destinadas a mobilizar os trabalhadores nesse período de crise mundial, que levaria à Guerra Civil espanhola e à Segunda Guerra Mundial.

Um princípio essencial abordado no livro é que o estabelecimento de uma sociedade socialista (libertária, obviamente) não podia ser plenamente realizada sem que os produtores estivessem engajados em sua organização de classe como produtores, com base em seu papel no processo de produção: verticalmente em federações de indústria, horizontalmente em federações locais, regionais, etc. Se esta organização é ou não chamada de “sindicato”, estritamente, isto não é de grande importância.

7. — IEL: Até que ponto é possível se reivindicar o sindicalismo revolucionário nos tempos atuais?

René Berthier:  O sindicalismo revolucionário surgiu na década de 1890 na França e se desenvolveu na maioria dos países para se tornar a principal força revolucionária. Sofreu uma grave crise na época da Grande Guerra, depois reapareceu na época da Revolução Russa, que provocou, no movimento, uma profunda fratura entre a corrente pró-comunista e a corrente que pretendia manter os valores iniciais do movimento. Os militantes que escolheram apoiar o bolchevismo desapareceram como sindicalistas revolucionários para se juntarem aos partidos comunistas, dos quais eles forneceram parte da liderança. Na França, isso representava problemas reais: a liderança stalinista do PC lamentou nos anos 30 que os quadros intermediários da C.G.T. tendiam a não seguir à letra as instruções do partido e a priorizar a lógica sindical em sua atividade, em vez da lógica do partido.

       A corrente que recusou a apoiar a ditadura comunista reapareceu gradualmente na forma de anarcossindicalismo. A Segunda Guerra Mundial deu um golpe terrível no movimento, primeiro porque muitos militantes foram mortos por regimes fascistas, pelo stalinismo e até por regimes democráticos. A preeminência do modelo político e sindical comunista e a miragem soviética sobre o movimento operário também contribuíram muito para o declínio do movimento em muitos países. Por fim, a ilusão de que o sistema parlamentar seria capaz de melhorar a condição salarial a longo prazo também foi uma das causas do descontentamento dos trabalhadores com a luta de classes.

Respondendo à questão: “Podemos reivindicar o sindicalismo revolucionário hoje” necessita-se interrogar acerca das condições de seu surgimento e as razões de seu desaparecimento como um movimento de massas. Também devemos destacar as razões pelas quais ele reapareceu nas décadas de 1920 e 1930 na forma de anarcossindicalismo, a fim de poder decidir qual corrente queremos reivindicar.

Falei algumas palavras sobre as condições de seu surgimento: a República formada após o esmagamento da Comuna foi ainda mais dura com as Internacionais do que com o Império derrotado; a repressão antioperára foi terrível. A classe operária se opunha categoricamente a esta República, que massacrara os insurgentes da Comuna, e também relutava em relação às múltiplas seitas socialistas divididas em vários partidos concorrentes, que desejavam obter seus votos. Foi esse contexto que favoreceu o surgimento do sindicalismo revolucionário, que também se desenvolveu em muitos outros países, segundo o princípio de que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, com poucas variações.

Colocando a questão: poder reivindicar o sindicalismo revolucionário (ou anarcossindicalismo) nos dias de hoje, equivale a pensar se as condições atuais para o reaparecimento dessa corrente são as mesmas que no início do século XX. Não me parece que seja esse o caso. Pelo menos, não nas formas que ele assumira naquela época.

Depois de 1906 na França, uma série de duras greves falharam e foram severamente reprimidas. Os limites da estratégia de confronto permanente, na ausência de uma perspectiva revolucionária, haviam sido alcançados. Além disso, dentro da C.G.T., uma poderosa corrente reformista cresceu. A tendência a aceitar as mediações sociais finalmente prevaleceu de 1908-1910: negociações em conflitos sociais, estratégia parlamentar. A Carta de Amiens foi, de fato, o sinal dessa mudança de estratégia. O refluxo do movimento sindicalista revolucionário antes da Primeira Guerra Mundial não foi o resultado de erros estratégicos de sua parte, mas o resultado de profundas mudanças na sociedade às quais não se podia opor. O fim das querelas entre as grupelhos socialistas e a unificação do partido oferece uma alternativa legalista e pacífica à estratégia de ação direta do sindicalismo revolucionário, outro polo de identificação da classe operária. O declínio do movimento revolucionário na França segue, com muita precisão, a ascensão da perspectiva parlamentar. Em contraste, o movimento revolucionário continuará em países como a Espanha, onde o menor movimento reivindicativo era seguido por uma terrível repressão, o assassinato de militantes, onde a tropa disparava contra a multidão: o trabalhador que reivindicava, dentro daqueles limites, foi praticamente obrigado a ser revolucionário.

Em geral, os militantes revolucionários não analisaram realmente as causas das mudanças no comportamento da classe operária, confrontadas com a alternativa “revolução ou reforma”. Claro que eles não tinham perspectiva suficiente. Para explicar o refluxo do movimento revolucionário, usava-se a denúncia das manobras de políticos que enganavam a classe operária, ou a passividade desta última. Assim, James Guillaume, explicando as razões pelas quais ele deixou a Suíça para se estabelecer em Paris, escreveu: “Nas margens do Léman, em Genebra, em Lausanne, em Vevey, malgrado os esforços de alguns camaradas dedicados, nós não tínhamos conosco a massa operária, muito disposta a ser desencaminhada pelos políticos.”[cvi]

Penso que a maior fraqueza do movimento libertário hoje, uma das principais razões de seu caráter extremamente minoritário, reside na ausência de análises sobre a significação e as consequências da instauração do regime representativo nas sociedades modernas.

Esses poucos detalhes me pareciam necessários para mostrar que as circunstâncias que viram o surgimento do sindicalismo revolucionário não são reproduzíveis. Durante o auge do movimento, poucas confederações sindicais podiam ser descritas como “sindicalistas revolucionárias”: a maioria dos militantes sindicalistas revolucionários era organizada em tendências dentro de organizações reformistas. Esta é a razão pela qual a recusa da C.G.T. em participar do congresso sindicalista revolucionário internacional em 1913 causou tanto choque: ela era a única organização de massa considerada sindicalista revolucionária.[cvii] Hoje, parece-me pouco realista imaginar a criação de organizações de massa hegemônicas na classe operária, como a C.G.T. francesa nos anos 1890-1900, a C.G.T. portuguesa ou a C.N.T. nos anos 1920-1930, ou a FORA argentina.

A reconstrução da C.N.T. na Espanha após a morte de Franco levantou novamente o problema da relação entre anarquismo e sindicalismo. Um problema que percorreu toda a história do sindicalismo revolucionário sem realmente encontrar uma solução. A reconstituição da C.N.T. espanhola em 1976 também não encontrou uma solução e levou à cisão e à criação da C.G.T., que hoje constitui na Espanha apenas uma alternativa sindical entre outras. Na França, aqueles que reivindicaram a herança da C.G.T.-SR tentaram criar uma organização após a guerra; eles acumularam erros estratégicos, queriam fazer uma “C.N.T. à francesa” a despeito de qualquer análise do contexto e, sessenta anos depois, estão divididos em quatro ou cinco correntes opostas que não excedem o nível de incontáveis grupos.

A mesma constatação pode ser observada em quase todos os países.

Há um último ponto que deve ser levantado antes de responder à pergunta “podemos reivindicar nos dias de hoje o sindicalismo revolucionário?” Um dos fundamentos do sindicalismo revolucionário tem sido o princípio da neutralidade sindical. Inicialmente, essa neutralidade era entendida como um princípio ativo, dinâmico: o sindicato não lidava com a política parlamentar dos partidos; mas, em virtude do princípio: “o sindicato é suficiente para tudo”, se autorizou a tomar posição sobre toda questão política de forma independente. Ele não negou a si mesmo nenhum campo de intervenção, a ponto de muitos grupos anarquistas chegarem a considerar que os sindicatos eram concorrentes de organizações políticas, incluindo anarquistas.

A ascensão da corrente reformista na C.G.T. derrubou esse conceito de “neutralidade”.[cviii]  Originalmente, o conceito de neutralidade andava de mãos dadas com a ideia de autonomia ou independência sindical, o que significava que a organização sindical se reservava o direito de se posicionar sobre qualquer assunto que considerasse importante , incluindo assuntos considerados “políticos”. A noção de que “nada é estranho ao sindicato” é uma noção perfeitamente consistente com as posições desta parte do movimento anarquista que aderiu à ação sindical e que viu nela a forma pela qual a ação anarquista deveria se exercer. Mas esse ponto de vista também despertou forte oposição de outra parte do movimento anarquista, que se viu despojado de seu campo de intervenção.

Além disso, uma análise cuidadosa dos debates no Congresso de Amiens de 1906 mostra a extensão do ataque reformista, com o objetivo de remover toda a ideia de autonomia sindical. Foi assim que a liderança confederal foi criticada por não respeitar o “apoliticismo” confederal. Porque a propaganda antirreligiosa não respeitava as crenças de muitos membros da confederação. Da mesma forma, “quando você vota na greve geral de desapropriação […] você não respeita as opiniões dos radicais. Você também não respeita as opiniões dos nacionalistas quando pratica antipatriotismo e antimilitarismo”.[cix] Estamos em uma perspectiva de “neutralidade” no sentido mais restrito da palavra, mas não no sentido de que a organização sindical possa decidir sobre qualquer orientação, mesmo política, desde que emane do próprio sindicato e não de uma instância exterior.

Foi essa concepção restritiva de neutralidade sindical e “apoliticismo” que acabou dominando a C.G.T., após o Congresso de Amiens em 1906: não havia mais a questão de lutar contra o Estado, contra o exército, contra o parlamentarismo. É nesse sentido que considero que a resolução de Amiens não era, ao contrário da ideia geralmente aceita, a exposição-típica da doutrina sindicalista revolucionária; era, pelo contrário, a expressão do início de seu refluxo.  Portanto, entenderemos que não é esse sindicalismo revolucionário a que nos referiremos hoje. Será preferido o anarcossindicalismo, que de alguma forma o substituiu, reafirmando inequivocamente a preeminência da organização de massas sobre a organização política.

Se dificilmente se pode esperar reconstituir, em sua forma, um movimento sindicalista revolucionário de massa, tal como existia no início do século XX, pode-se, por outro lado, definir quais são os valores do sindicalismo revolucionário que são necessários esforçar-se para difundir e recuperar o espaço perdido, ou uma parte substancial dele. Os militantes de hoje podem restringir um certo número de princípios fundamentais sobre os quais se basear para começar a reconquistar, mesmo que apenas parcialmente, o terreno perdido.

Esses princípios são enunciados por Ralph Darlington[cx], que enfatiza que o sindicalismo revolucionário apresentou um certo número de constantes em suas várias manifestações internacionais:

A luta de classes;

Oposição ao parlamentarismo e ao Estado;

Independência de partidos políticos;

Sindicalismo como instrumento da revolução;

Ação direta;

A greve geral;

 controle operário;

Antimilitarismo;

Internacionalismo.

A esses princípios, acrescentaria que os militantes de hoje devem insistir particularmente na ideia de controle dos mandatos, rotação dos mandatos e revogabilidade.

Vamos insistir, particularmente, na ideia de que uma transformação profunda da sociedade só pode ser feita pela organização de classe dos trabalhadores, ou seja, pela organização que agrupa os trabalhadores de acordo com seu papel no processo produtivo. Hoje uma organização de luta pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores, amanhã órgão de reconstrução de uma sociedade emancipada.

Anexos -entrevista René Berthier para o IEL.

Anarcossindicalismo e anarquismo. Tática e intervenção sindical.

Relatório de Pierre Besnard, Secretário da AIT no Congresso Anarquista Internacional de 1937 (extratos)

Disponível em:(http: //monde-nouveau.net/IMG/pdf/rapport_de_pierre_besnard_1937.pdf

  • O papel dos grupos anarquistas e dos sindicatos:

    O exposto acima leva-nos normalmente e logicamente a considerar o papel dos grupos anarquista e dos sindicatos.

     Os anarcossindicalistas admitem perfeitamente que os grupos anarco-comunistas, mais móveis que os sindicatos, prospectem as massas trabalhadoras; que eles procurem seus membros e formem seus militantes; que eles fazem uma propaganda ativa e intenso trabalho de limpeza, a fim de trazer a eles e, consequentemente, aos sindicatos anarcossindicalistas, à causa da revolução social, o maior número possível de trabalhadores enganados e iludidos por todos os partidos políticos, sem exceção.

    Essa tarefa puramente ideológica. Essa tarefa de propaganda moral é, sem dúvida, responsabilidade dos grupos anarquistas comunistas, sob a condição expressa de que se identifiquem com o trabalho dos sindicatos anarco-sindicalistas, de que os complementem e fortaleçam, para o bem maior do comunismo libertário.

    Mas, sem rodeios, eu declaro que a responsabilidade pela decisão, a ação e o controle destes devem atualmente pertencer aos sindicatos, agentes de execução e realização de tarefas revolucionárias.

    Também acredito que cabe a esses sindicatos apresentar todas essas tarefas, sobretudo a econômica, defensivamente e ofensivamente.

    Por fim, considero que o sistema econômico, administrativo e social deve ser homogêneo, harmônico, e que a base desse sistema, para ser real, sólida e duradoura, só pode ser econômica.

     Reivindico como um direito aos sindicatos a realização de tarefas econômicas revolucionárias e pós-revolucionárias, porque a organização da produção é a verdadeira função dos trabalhadores.

     Por outro lado, é lógico que as comunas, organismos administrativos, seus serviços técnicos e sociais cuidem da distribuição da produção; interpretar os desejos dos homens no nível social, organizar a vida em todas as suas manifestações. A partir de agora, os grupos anarquistas têm o dever de preparar essas conquistas revolucionárias.[cxi]

      O trabalho de cada uma das organizações é, portanto, extremamente claro, perfeitamente definido. Será mais do que suficiente aceitar a atividade e os esforços de todos em cada nível, de acordo com as atribuições reais de cada pessoa.

     Em momento algum, dou a garantia mais formal, os sindicatos anarcossindicalistas não podem constituir um obstáculo ao avanço do comunismo revolucionário.

     Em nenhum momento, eles também podem se tornar reformistas, porque são e permanecerão revolucionários, federalistas e antiestatistas, porque visam, em uma palavra, como os grupos anarco-comunistas, estabelecer o comunismo libertário.

    Para concluir esta parte da minha exposição, afirmo:

  1. Que o movimento anarcossindicalista não pode se desviar, por causa do controle permanente e severo exercido sobre as organizações e seus militantes;
  • Que o movimento anarcossindicalista esgota, no plano atual, no domínio revolucionário, os meios de realização do comunismo libertário. Que cabe aos grupos anarco-comunistas, em um nível exclusivamente ideológico, levar a propaganda o mais longe possível;
  • Que o movimento anarco-comunista deve se interessar, sobretudo, nas tarefas de propaganda e educação; estudo e popularização social;
  • Que o melhor contato permanente que pode ser alcançado será, como na Espanha, a participação irrestrita de todos os anarquistas comunistas, em todos os países, a sindicatos anarcossindicalistas, responsáveis ​​pela preparação e execução da ação, sejam, somente eles, capazes de realizá-lo, com mão de obra e meios suficientes; que a doutrina experimental do anarcossindicalismo, que é a do próprio anarquismo, é forte e firme o suficiente para não arriscar nenhum ataque, mitigação ou desvio.
  • Que o anarco-comunismo, a verdadeira figura do socialismo, nasceu do fracasso total de todos os partidos políticos; que o anarcossindicalismo, forma moderna e ativa desse movimento, resultante do anarquismo, atualmente cumpre todas as tarefas positivas do anarco-comunismo e prepara os caminhos do comunismo libertário dos quais ele será o principal agente de realização; que as tarefas do anarco-comunismo – como as do anarcossindicalismo – se esgotarão no período pós-revolucionário, quando os homens, por sua evolução e desenvolvimento de suas faculdades de entendimento, poderão acessar o comunismo livre, a finalidade da anarquia.

     Em resumo, o anarcossindicalismo é a força necessária da luta, sob o regime atual, do agente de realização econômica do comunismo libertário, no período pós-revolucionário.

     O anarquismo ajuda o movimento anarcossindicalista, sem substituí-lo.

     A atividade de seus ativistas se confunde, nos sindicatos, com a de militantes anarco-sindicalistas.

     Os dois movimentos, portanto, devem-se ajuda permanente e mútua.

     E mais tarde, em paz, em concordância e harmonia, o anarquismo e o anarcossindicalismo, combinados em um movimento, buscarão a realização do comunismo livre, o objetivo supremo da anarquia.

     A tarefa mais urgente do anarcossindicalismo hoje é organizar os trabalhadores, com vistas à luta decisiva contra o capitalismo; preparar tecnicamente essa luta, sintetizar as forças de produção para a construção revolucionária da ordem comunista libertária; e, amanhã, a organização econômica. E isso, até o estabelecimento do comunismo livre; para defender, finalmente a revolução.

   A tarefa do anarquismo revolucionário consiste em ajudar com toda a sua força,  até sua realização, por todos os meios à sua disposição.

  • Relatos de anarquismo e anarco-sindicalismo.

    Claramente, as análises indicam existir uma conexão entre anarquismo e anarco-sindicalismo, tanto nacional quanto internacionalmente. AIT, além disso, previu essa possibilidade a partir de seu congresso constitutivo.

    Essas relações devem basear-se na independência e autonomia recíproca dos dois movimentos e permanecer no plano da perfeita igualdade.

    Além da co-penetração dos dois movimentos, através da ação de seus militantes, é desejável que em cada localidade, cada região, cada país, sejam estabelecidos contatos entre organizações anarquistas e anarcossindicalistas.

    Para serem frutíferos e duradouros, esses relacionamentos deverão se basear nos fundamentos da tolerância mútua, facilitados por uma identidade de doutrina em todos os níveis e um entendimento exato das tarefas que incumbem aos dois movimentos.

Essas tarefas são suficientemente definidas por este relatório para evitar confusão e sobreposição.

1. A unidade doutrinária dos anarquistas em cada país;

2. A unificação, também em cada país, de agrupamentos anarquistas, sobre o plano da doutrina única do anarquismo revolucionário.

Conclusões Gerais.

     Quaisquer que sejam os desejos do Congresso e os da AIT para alcançar essas relações, eles não serão capazes de alcançá-los, como os eventos exigem, se essas condições não forem atendidas previamente pelos movimentos anarquistas de cada país.

     Teria sido infinitamente preferível e também em conformidade com nossos princípios conhecidos, que são os do federalismo, se essa unidade de doutrina e essa unificação de forças anarquistas tivessem sido alcançadas antes do Congresso que daria nascer a Internacional Anarquista.

    Em nome dos anarco-sindicalistas que alcançaram esse duplo objetivo, pela constituição da atual AIT, desde 1922, peço a todos os nossos camaradas anarquistas revolucionários que nos sigam dessa maneira.

    Se todos aceitarem, a Internacional que sairá deste Congresso merecerá o título que certamente concederá e que só poderá ser: A Internacional Anarquista Revolucionária – e eu insisto – eles alcançarão esse objetivo sem dificuldade.

       Basta, mas é necessário, que todos concordem em romper definitivamente com as supostas forças democráticas, tanto políticas quanto sindicais; que eles afirmam que o anarquismo revolucionário, por seus objetivos, seus meios de ação, sua doutrina, não tem nada e não pode ter nada em comum com as chamadas forças “democráticas” que são, em todos os países, o melhores servos do capitalismo.[cxii]

      Se, levando esse gesto ao seu limite, o movimento anarquista revolucionário também rompe com toda a dissidência dos partidos políticos autoritários que, como seus partidos originais, têm apenas um desejo: tomar ou recuperar o poder, o movimento anarquista revolucionário e o movimento anarco-sindicalista poderão caminhar sem medo e juntos em direção a seu objetivo comum: a transformação social revolucionária através do estabelecimento do comunismo libertário, um passo necessário no comunismo livre.

Secretário Geral da AIT

Pierre Besnard


[i] Cf. Lucien van der Walt and Michael Schmidt. Black Flame: The Revolutionary Class Politics of Anarchism and Syndicalism (Counter-Power vol. 1). South Africa: AK Press, 2009, p.16.  

Cf. Também citado por Felipe Corrêa : “o sindicalismo revolucionário não surge nos anos 1890, tendo suas origens nos anos 1860 e desenvolvendo-se durante os anos 1870 e 1880…“ Ideologia e Estratégia : anarquismo, movimentos sociais e poder popular (Faísca, 2011, p. 69.)

[ii] De forma ilustrativa, James Guillaume situa o “nascimento” do sindicalismo revolucionário em 1904: os assalariados, ele diz, “se organizaram em grupos de trabalhadores locais (bolsas de trabalho), por um lado, em federações comerciais por outro lado. Da união dessas duas organizações surgiu, em 1895, a Confederação Geral do Trabalho, que, desde 1904, na maior parte, se colocou no terreno do sindicalismo revolucionário”. James Guillaume, L’internationale, documents et souvenirs, Tome IV, p. VII. Éditions Gérard Lebovici.

[iii] Citado por Jean Jaurès, Histoire sociaiste, XI, p. 490.

https ://fr.wikisource.org/wiki/Page :Jaur%C3%A8s_-_Histoire_socialiste,_XI.djvu/490

[iv] Alexandre Samis. Negras Tormentas, o federalismo e o internacionalismo na Comuna de Paris, São Paulo. Editora Hedra, 2011, pp 311-338.

[v] Ver : René Berthier, “Répression anti-syndicale et anti-anarchiste en France de la fin de la Commune à la Grande guerre”, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article552.

[vi] Edouard Dolléans, Histoire du mouvement ouvrier 1870-1936.

[vii] Cf. Marianne Enckell, La Fédération jurassienne. Les origines de l’anarchisme en Suisse, Genève-Paris, Entremonde, 2012.

[viii] Citado por par James Guillaume, L’Internationale, documents et souvenirs, tomos IV, VI, 8, p. 108, Éditions Gérard Lebovici.

[ix]  Edilene Toledo. Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário : trabalhadores e militantes em São Paulo na Primeira República. São Paulo : Perseu Abramo, 2004, p. 60.

[x] “Entre aqueles que reivindicam o anarquismo e se dizem anarquistas, com adjetivos diferentes ou sem adjetivos, existem duas frações: apoiadores e oponentes do princípio da organização. (…) O erro fundamental dos anarquistas que se opõem à organização é acreditar que não pode haver organização sem autoridade — e, convencido dessa hipótese, preferir renunciar a toda organização do que admitir a menor autoridade.” MALATESTA, E. (L’Agitazione, 11 juin 1897.)

[xi]   Cesar M. Lorenzo.Le mouvement anarchiste en Espagne. Les Éditions libertaires, pp. 44-45. “Coletivista”: Era o termo ao qual Bakunin se referia e seria aproximadamente sinônimo de “anarcossindicalista” em oposição a “anarquista-comunista”. O significado da palavra variou posteriormente.

[xii] Relatório de polícia: “Guillaume”, 18 mai 1895; in À contretemps, n° 36, janvier 2010.

[xiii] “Ed infatti vi furono, specialmente in Francia, degli anarchici che, entrati nel movimento operaio con i migliori propositi, per portare la parola ed i metodi nostri in mezzo alle masse, furono poi assorbiti e trasformati, innalzarono il grido ‘il sindacalismo basta a se stesso’… e ben tosto cessarono dall’essere anarchici.” (“Sindacalismo e anarchismo”, Umanità Nova, 6 aprile 1921)

[xiv] “Non è vero quel che pretendono i sindacalisti che l’organizzazione operaia di oggi servirà di quadro alla società futura e faciliterà il passaggio dal regime borghese al regime egualitario. È un’idea questa che trovava un favore fra i membri della Prima Internazionale; e se mal non ricordo, negli scritti di Bakunin si trova detto che la nuova società si realizzerebbe mediante l’entrata di tutti i lavoratori nelle Sezioni dell’Internazionale. Ma a me ciò pare un errore.” (“Sindacalismo e anarchismo”, Umanità Nova, 6 aprile 1921).

[xv] “Il movimento operaio, malgrado tutte le sue benemerenze e tutte le sue potenzialità, non può essere per se stesso un movimento rivoluzionario, nel senso di negazione delle basi giuridiche e morali della società attuale.” (“Sindacalismo e anarchismo”, Umanità Nova, 6 aprile 1921).

[xvi] “Se per la vita dell’organizzazione e per i bisogni e la volontà degli organizzati è ’proprio necessario transigere, cedere, venire a contatti impuri colla autorità e coi padroni’, che ciò sia; ma sia fatto dagli altri e non dagli anarchici.” “Sindacalismo e anarchismo”, Pensiero e Volontà, anno II, n° 6, 16 aprile-16 magio 1925.

     É verdade que Malatesta às vezes diz o contrário: “Nós, nesses últimos anos, nos aproximamos de diversos partidos de vanguarda para uma ação prática e nos demos sempre mal. Devemos, por isso, nos isolar, evitar os contatos impuros e não nos mover ou tentar nos mover exceto quando possamos fazê-lo unicamente com nossas forças e em nome do nosso programa integral? Eu não creio nisso.” Rivoluzione et lotta quotidiana, 6. L’alluvione fascista. www.liberliber.it. Mas nesta passagem, não se trata da luta sindical – o ponto central da crítica de Malatesta — mas a atividade dos anarquistas “especifistas“ (grifo do tradutor).

Agradeço imensamente à colega Profª Drª Cláudia Costa, historiadora e italianófila, pelo auxílio inestimável da transcrição direta da citação, em italiano, para o português. (Nota do tradutor)

[xvii] Em 1ºmai 1891 , La Révolte, n° 6, 18-24 outubro 1890. Citado por Jean Maitron, Le mouvement anarchiste en France, Tel Gallimard, t. I. Alguns autores acreditaram ver nesta incitação a prova de que Kropotkin era favorável ao sindicalismo revolucionário. De fato, o modelo sindical que Kropotkin tem em mente é a das Trade Unions inglesas. (Ver: René Berthier: “Concerning Black Flame: Was Kropotkin a Revolutionary Syndicalist?” http://monde-nouveau.net/spip.php?article741

[xviii] Citado por Jean Maitron, tomo I, p. 266.

[xix] “(…) os anarquistas engajados no movimento sindicalista revolucionário receberam duríssimas críticas de grande parte do mundo anarquista“. Edilene Toledo. Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário: trabalhadores e militantes em São Paulo na Primeira República. São Paulo : Perseu Abramo, 2004, p. 51.

[xx] Grifo do autor.

[xxi] Jacy Alves de Seixas, Mémoire et oubli, Anarchisme et syndicalisme révolutionnaire au Brésil, Éditions de la Maison des sciences de l’Homme, Paris, p. 106-107.

[xxii] Jules Guesde foi o líder de uma das muitas frações socialistas. Ele era extremamente rígido e considerou que o movimento sindical deveria estar subordinado ao Partido Socialista. Ele era ferozmente contrário à greve geral. Guesdistas e sindicalistas revolucionários eram adversários ferozes. Os guesdistas haviam fundado em 1886 uma organização sindical, a Federação Nacional dos Sindicatos (FNS), ancestral da C.G.T.. A corrente favorável à greve geral foi tão poderosa no movimento operário que os guesdistas não puderam impedir que a FNS se inclinasse a favor da greve geral em seu congresso em 1892.

[xxiii] Sexto Congresso Nacional de Bolsas do Trabalho, Toulouse 15, 16, 17 et 18 septembre 1897, Toulouse, imprimerie Berthoumieu, 1897, p. 50. 

[xxiv] A. Lagailse, primeiro secretário geral da C.G.T., é um personagem bastante evasivo: não sabemos seu primeiro nome, nem seu local e data de nascimento.

[xxv] 10º Congresso Nacional dos trabalhadores (IVº da C.G.T.), realizado em Rennes em 26, 27, 28, 29, 30 e 1º de outubro de 1898. Relatório sobre o trabalho do congresso, Rennes, Imprimerie des arts et manufactures, 1898, p. 107

[xxvi] Auguste Keufer, da Federação do Livro (Artes graficas), é tesoureiro e um certo A. Pergay, motorista de charretes, arquivista.

[xxvii] 11º Congresso Nacional de trabalhadores (V da C.G.T.), realizado na Bolsa de trabalhadores de Paris, em 10, 11, 12, 13 e 14 de setembro de 1900, op. cit., relatório do Comitê da confederação, p. 26.

[xxviii]Ver René Berthier, “Bakounine : une théorie de l’organisation”, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article378.

[xxix] Veja o relatório dos debates do congresso de Montpellier, 1902: “… Estamos convencidos de que as discussões profundas que eles promoverão, mostrarão a todos a força crescente do sindicalismo revolucionário e a conscientização cada vez mais esclarecida da legitimidade das demandas dos trabalhadores …” (Ibidem, p. 40)

“Muito honestamente, Bourchet acredita na superioridade da ação estritamente sindicalista revolucionária sobre a ação semi-sindical e semi-política …” (p. 220) http://www.ihs.cgt.fr/IMG/pdf_09_-_1902_-_Congres_Montpellier.pdf

[xxx] http://monde-nouveau.net/spip.php?article576.

[xxxi] 1906- XVº Congresso Nacional dos Trabalhadores (IXe de la C.G.T), e Conferência das Bolsas do Trabalho, Amiens, 8 a 16 outubro 1906.

[xxxii] Grifo do autor.

[xxxiii] “L’anarchosyndicalisme, l’autre socialisme”, Jacky Toublet, Prefácio à La Confédération générale du travail d’Émile Pouget, Editions C.N.T. Région parisienne, 1997.

[xxxiv]Cf. Marx, “De l’indifférence en matière politique”. http ://monde-nouveau.net/spip.php?article74.

[xxxv] Existe uma boa tradução dessa obra, de seu primeiro volume, para a língua portuguesa, sob o título: Da Capacidade Política das Classes Operárias. vol.1.. São Paulo: Intermezzo/CCS, 2019. (nota IEL)

[xxxvi] Ver “A propos du Manifeste des Soixante”, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article74.

[xxxvii] Proudhon, De la Capacité Politique des Classes Ouvrières.

[xxxviii] No original em francês, Berthier ressalta uma noção de progressão na frase : “mais qui à ce moment-là” (les grévistes) “outrepassaient, au for extérieur, leur droit”. Buscamos traduzir sem atribuir, obviamente, a ideia de que Proudhon, de alguma forma, defendia a legalidade burguesa como limite à ação política da classe trabalhadora (N.T.)

[xxxix] Samuel Hayat, “De l’anarchisme proudhonien au syndicalisme révolutionnaire : une transmission problématique”. Artigo publicado em Edouard Jourdain (dir.), Proudhon et l’anarchie, Publicação da société P.-J. Proudhon, 2012.

[xl] Ver Gaetano Manfredonia, “Les lignées proudhoniennes dans l’anarchisme français”, Les Travaux de l’Atelier Proudhon, n° 11, “Les anarchistes et Proudhon. Actes de la journée d’étude de la société P.-J. Proudhon, 19 octobre 1991”, Paris, Atelier Proudhon – EHESS, p. 37-66.

[xli] Cf. : “Manifeste des Soixante”, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article72. “A propos du Manifeste des Soixante” http ://monde-nouveau.net/spip.php?article74

[xlii] Existe uma boa tradução dessa obra para a língua portuguesa, sob o título: O Anarquismo e os Sindicatos Operários. São Paulo: Intermezzo, 2019. (nota IEL)

[xliii] Na citação original em francês de Émile Pouget: “Proudhon, […] pressentant le syndicalisme, évoquait le fédéralisme économique qui se prépare et qui dépasse, de toute la supériorité de la vie, les concepts inféconds de tout le politicanisme…”.

[xliv] S. Hayat, Loc. cit.

[xlv] Cf. Pierre Ansart, Naissance de l’anarchisme, PUF, 1970, p. 131.

[xlvi] S. Hayat, loc. Cit. Canuts são operários tecelões de seda na França. Apesar de, via de regra, serem melhor remunerados, se destacaram em diversas revoltas naquele país no século XIX, com destaque em Lyon. Ver, por exemplo, “Mutuellisme et démocratie, l’exemple des Canuts de Lyon”. Disponível em https://mapetitebibliothequerouge.wordpress.com/2018/05/06/mutuellisme-et-democratie-lexemple-des-canuts-de-lyon/. (NT)

[xlvii] “Rejeitamos a ideia de que personagens como William Godwin (1756-1836), Max Stirner (1806-1856), Proudhon, Benjamin Tucker (1854-1939) e Leon Tolstoy (1828-1910) fazem parte da grande tradição anarquista”. Schmidt-van der Walt, Black Flame, AK Press, p. 9.

[xlviii] Proudhon “… era hostil às greves, o que o isolou do movimento laboral emergente”. (Black Flame).

[xlix] Schmidt e Van der Walt esquecem ou ignoram que na França, como na Itália, o movimento anarquista suposto ser o “herdeiro” da A.I.T. (mas que de fato havia esquecido sua herança) se ter, no início vigorosamente oposto ao sindicalismo. Este é um episódio que obviamente tendemos a esconder quando queremos fazer de conta que o sindicalismo é uma “estratégia” do anarquismo.

[l] 11º Congresso Nacional dos Trabalhadores (V° da C.G.T.), realizado na bolsa de trabalho de Paris, em 10, 11, 12, 13 e 14 de setembro de 1900. Paris, Imprimerie nouvelle, 1900.

[li] http ://1libertaire.free.fr/DColson20.html

[lii] Traduzido para o francês por Éditions Noir & Rouge.

[liii] Ver o ensaio de leitura indispensável de Maurizio Antonioli Maurizio Antonioli, Bakounine entre syndicalisme révolutionnaire et anarchisme, Éditions Noir & Rouge, pp. 14-15.

[liv] Ver o ensaio fundamental de Maurizio Antonioli, Bakounine entre syndicalisme révolutionnaire et anarchisme, Éditions Noir & Rouge.

[lv] Carlo Romani, Oreste Ristori, vita avventurosa di un anarchico tra Toscana e Sudamerica, Biblioteca Franco Serantini, pp. 163-164. Nesse congresso, uma resolução evoca a existência da luta de classes, que os operários não criaram “mas que foram forçados a aceitar”. Isto é muito nítido. O que me faz pensar no bilionário americano Warren Buffett, que disse há pouco tempo: “A luta de classes existe, nós vencemos”. De fato, a citação em si é: “Há uma luta de classes, é claro, mas é a minha classe, a dos ricos, que está em guerra. E nós vencemos.” [Publicado no Brasil : Carlo Romani. Oreste Ristori — Uma aventura anarquista. São Paulo: AnnaBlume/Fapesp, 2002.]

[lvi]Alexandre Samis, Sindicalismo e anarquismo no Brasil, file :///C :/Users/unknown2/AppData/Local/Microsoft/Windows/INetCache/IE/NRSOBRFR/alexandre-samis-sindicalismo-e-anarquismo-no-brasil.pdf. e https://ithanarquista.files.wordpress.com/2013/01/alexandre-samis-sindicalismo-e-anarquismo-no-brasil.pdf

[lvii] Luiggi Fabbri, “Il sindacalismo”, in Il Pensiero, 1er junho 1905, citado por M. Antonioli, op. cit.

[lviii] Ver : “A proposito di sindicalismo”, in La Vita Operaia, 14 julho 1906, citado por M. Antonioli, op. cit.

[lix] R. Caughi, “Bakounine et le syndicalisme”, in Les Temps Nouveaux, 26 janeiro 1907. http ://monde-nouveau.net/spip.php?article506.

[lx] M. Isidine, “Le syndicalisme révolutionnaire et les partis politiques en Russie”, in Les Temps Nouveaux, 6 julho 1907. Isidine era um pseudônimo de Marie Goldsmith, que, juntamente com Pierrot, tinha feito parte do grupo ESRI. (Estudantes Sindicalistas Revolucionários Internacionalistas). Ver J. Maitron, Le groupe des étudiants… loc. cit. Cf. http ://monde-nouveau.net/spip.php?article507.

[lxi] Resposta de Pierrot (ao artigo de Lagardelle) in Les Temps Nouveaux , 27 abril 1907. Todo o debate foi retomado em “Il Divenire Sociale”, 16 mai 1907.

[lxii] M. Pierrot, “Le syndicalisme”, in Les Temps Nouveaux, 11 mai 1907. http ://monde-nouveau.net/spip.php?article508

[lxiii] Ver : Gaston Leval, “La Crise permanente de l’anarchisme”, http ://monde-nouveau.net/IMG/pdf/Leval_Crise_permanente.pdf

[lxiv] Anarquistas no sindicato, um debate entre Neno e Joao Crispim, Terra livre/núcleo de estudos libertários Carlo Aldegheri, p. 17.

[lxv] Carlos Augusto Addor, A insurreiçao anarquista no Rio de Janeiro, p. 145 (ed. Achiamé, 2002).

[lxvi] Christina Roquete Lopreato, O Espírito da revolta, a greve geral anarquista de 1917, ed. Annablume / FAPESP, p. 216

[lxvii] Os allemanistas (partidários de Jean Allemane, fundador em 1891 do Partido Operário Socialista Revolucionário) eram operários apegados à política eleitoral, mas que buscavam uma alternativa revolucionária ao parlamentarismo. Eles apoiavam o sindicalismo e a greve geral. Muitos militantes allemanistas fizeram campanha ao lado de Fernand Pelloutier no interior das Bolsas do Trabalho. Pelloutier então pensou que o POSR — o partido mais importante do socialismo na França — estava desenvolvendo uma evolução que o aproximava do anarquismo. De fato era, escreveu ele, um “berçário da anarquia”. (La Revue bleue, n° 6, 8 août 1896. Citado por Jean Maitron. Le mouvement anarchiste en France, T.1, p. 293).

Até a Revolução Russa, houve muitas tentativas na Europa de reunir socialistas revolucionários, anarquistas e sindicalistas revolucionários. A recomposição desejada por alguns anarquistas fracassou na questão da participação nas eleições e na do Estado. Também é uma constante que, quando grupos de socialistas da oposição deixam a maison mére (“casa mãe”) social-democrata para frequentar os anarquistas, eles rapidamente acabam voltando “para casa”. Os opositores da política social-democrata acabarão percebendo que estes últimos mantêm mais afinidades com a “casa mãe” do que com a corrente anarquista. A atração pelas sirenes eleitorais superava a perspectiva de uma greve geral.

[lxviii] Citado por Marc Angenot, Discours social / Social Discourse Nouvelle série Volume XIV (2002), p.14.

[lxix] Sobre as Bourses du travail, ver :

* Fernand Pelloutier, Histoire des Bourses du travail (http ://kropot.free.fr/Pelloutier-Bourses.htm)

* David Rappe, “Les Bourses du travail, une expression de l’autonomie ouvrière” in Cahiers d’histoire, revue d’histoire critique, Dossier : les Bourses du travail : quels enjeux ? (https ://journals.openedition.org/chrhc/2360)

* David Rappe, La Bourse du travail de Lyon, éditions Atelier de création libertaire (http ://libertaire.pagesperso-orange.fr/portraits/bourse.htm)

* Vitor Ahagon, A trajetória militante de Adelino de Pinho : passos anarquistas na educação e no sindicalismo, Universidade de Sao Paulo, 2015(https ://www.academia.edu/36599934/A_trajet%C3%B3ria_militante_de_Adelino_de_Pinho_passos_anarquistas_na_educa%C3%A7%C3%A3o_e_no_sindicalismo)

[lxx] Ver: “1893 : Débat sur la grève générale au congrès national des chambres syndicales et groupes corporatifs ouvriers

(http ://monde-nouveau.net/spip.php?page=recherche&recherche=1893).

[lxxi] Ver: Congrès de Nantes ftp ://ftp.bnf.fr/024/N0241316_PDF_1_-1DM.pdf

[lxxii] Jean Maitron, Le mouvement anarchiste en France, Gallimard, vol. I, p. 291 nota 82.

[lxxiii] Ver : René Berthier, “Bakounine : une théorie de l’organisation”, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article378

[lxxiv] Essa constatação, que é o resultado de minha pesquisa, pode ser modificada naturalmente por pesquisas posteriores.

[lxxv] Thiago Lemos Silva, prefácio, Anarquistas no sindicato, um debate entre Neno e Joao Crispim, Terra livre/núcleo de estudos libertários Carlo Aldegheri, p. 21.

[lxxvi] Após a execução de Ravachol, Le Père Peinard, o hebdomadário de Pouget, dedicou sua primeira página à greve geral como um método revolucionário. (4 de setembro de 1892.)

[lxxvii] Por “sabotage”, entende-se a implementação de todos os meios que levam à redução dos lucros dos empregadores, não à destruição. É a aplicação do princípio: “Má remuneração, mau trabalho”.

[lxxviii]Resumo do Congresso de Bourges, em setembro de 1904. http ://www.ihs.cgt.fr/spip.php?rubrique70.

[lxxix] Édouard Dolléans, Histoire du mouvement ouvrier (1871-1936): tome II. Librairie Armand Collin. p. 81.

[lxxx] Ver Émile Pouget, 1906 le congrès d’Amiens, et la présentation de Miguel Chueca. Editions C.N.T. région parisienne. 2006.

[lxxxi] “A greve geral revolucionária”. Confederação Geral do Trabalho, Comissão de Propaganda e Greve Geral. 1901.

[lxxxii] https ://resistance71.wordpress.com/2010/12/23/greve-generale-un-concept-revolutionnaire/.

[lxxxiii] Thiago Lemos Silva, prefácio, Anarquistas no sindicato, um debate entre Neno e Joao Crispim, Terra livre/núcleo de estudos libertários Carlo Aldegheri, p. 20.

[lxxxiv] Um documento do departamento de polícia de Paris, datado de 27 de janeiro de 1897, nos diz que Pelloutier é “o parceiro do anarquista Pouget, para a administração da Sociedade de Jornais e Publicações Populares” (sociedade para a exploração de diversos jornais anarquistas, tais como Le Monde Nouveau — La SocialeLe Père Peinard La Clameur, com sede na casa de Pouget, 15 rue Lavieuville). (Https: //anarchiv.wordpress.com/2016/12/27/fernand-pelloutier-et-emile-pouget-en-relations-daffaires-en-janvier-1897/

[lxxxv] http ://maitron-en-ligne.univ-paris1.fr/spip.php?article156461.

[lxxxvi] Pelloutier, “Carta aos Anarquistas”, 1900.

[lxxxvii] Citado por Jean Maitron, http ://maitron-en-ligne.univ-paris1.fr/spip.php?article155495.

[lxxxviii] Ibidem.

[lxxxix] Corrente do campo anarquista cujo nome é uma referência direta ao documento cuja autoria nos remete aos anarquistas russos N. Makhno e P. Archinoff. Sob o título de Plataforma Organizacional para a União Geral de Anarquistas, o texto tornou-se público em 1926. Pela natureza de seu conteúdo e principalmente em função da conjuntura histórica a “Plataforma” se torna ponto de polêmica atraindo para a arena dos debates o experiente militante anarquista italiano Errico Malatesta. Ver para esse debate: Errico Malatesta. Autoritarismo e Anarquismo. São Paulo: Imaginário, 2004. (nota IEL)

[xc] Ver : Arthur Lehning : Du syndicalisme révolutionnaire à l’anarchosyndicalisme : La naissance de l’Association internationale des travailleurs de Berlin . http ://monde-nouveau.net/spip.php?article464. O relato de um ativista que participou dos eventos.

[xci] Hamilton Moraes Theodoro dos Santos, Anarquismo e Formação do Partido comunista do Brasil (PCB). Rio de Janeiro: Rizoma editorial, 2017, p. 81.

[xcii] Black Flame, p. 16.

[xciii] São assim declarados como parte da “vasta tradição anarquista”:

Congresso de Basiléia da A.I.T. em 1869;

Os mártires de Chicago em 1887;

A greve dos mineiros em Joanesburgo em junho de 1918.

Ōsugi Sakae, Itō Noe e um garoto de seis anos espancado até a morte pela polícia de Tóquio em 1923;

O levante contra Franco em junho de 1936;

Os 250.000 manifestantes na Cidade do México em outubro de 1968;

Centenas de milhares de manifestantes em Seattle em novembro de 1999 contra a conferência da OMC.

[xciv] Na seção “Broad Anarchist Tradition” foram incluídos sindicalistas como Daniel De Leon (1852-1914), James Connolly (1868-1916) e William Big Bill Haywood (1869-1928), que claramente rejeitaram o anarquismo.

[xcv] “O termo “revolucionário” hoje pode soar estranho, por parecer prepotente demais diante de uma atuação que nos conduz a certas limitações no campo prático“. Caderno de formação sindical // n° 01, Coordenação Anarquista Brasileira – CAB) https ://anarquismo.noblogs.org/files/2017/09/Caderno-de-Formação-Sindical-da-CABFINAL.pdf

[xcvi] Hamilton Moraes Theodoro dos Santos. Anarquismo e Formação do Partido comunista do Brasil (PCB). Rio de Janeiro: Rizoma editorial, 2017, p. 9.

[xcvii] Um historiador alemão publicou recentemente uma obra que se torna incontornável sobre a Internacional Sindical Vermelha (traduzido para o inglês): Reiner Tosstorff, The Red International of Labour Unions (RILU) 1920-1937. Publicado em 2016 por Haymarket Books, Chicago, Il. (918 pages)

     Primeira edição em alemão : Profintern : Die Rote Gewerkschaftsinternationale 1920-1937 por Ferdinand Schöningh, Paderborn, 2004.

Ver também: “Recensão do livro de Reiner Tosstorff, The Red International of Labour Unions (RILU) 1920-1937” (A Internacional Vermelha dos Sindicatos operários [RILU] 1920-1937), http ://monde-nouveau.net/spip.php?article700.

[xcviii] Citando Astrojildo Pereira, o historiador brasileiro Hamilton Moraes Theodoro dos Santos escreve: “(…) foram nove os fundadores do PCB, presentes no congresso de fundação do partido em 25 de março de 1922. Desse grupo, sete eram ex-militantes libertários”. Hamilton Moraes Theodoro dos Santos, Anarquismo e Formação do Partido comunista do Brasil (PCB). Rio de Janeiro: Rizoma editorial, 2017, p. 9.

[xcix] Relatório de Pierre Besnard, secretário da A.I.T ao Congresso anarquista International de 1937. monde-nouveau.net/IMG/pdf/rapport_de_pierre_besnard_1937.pdf.

[c] Na França, as pesquisas sobre a questão do surgimento do termo “anarcossindicalismo” não são recentes. Consultemos, com resultados positivos, o livro de Daniel Colson: Anarcho-syndicalisme et communisme. Saint-Etienne 1920-1925, éd. Centre d’études foréziennes-Atelier de création libertaire (1986). É uma pena que Schmidt e van der Walt não tenham consultado essa fonte em francês, que os teria evitado de fazer muitas aproximações lamentáveis. Veja também René Berthier: “De l’origine de l’anarcho-syndicalisme“ http ://monde-nouveau.net/spip.php?article603. Myrtille resume a questão em Les origines du communisme libertaire en Espagne, vol. 2, éditions Divergences, Annexe I.

[ci] L’Humanité de 11 septembre 1925, artigo intitulado: “Pierre Monatte, saboteur du mouvement ouvrier” ? (http ://monde-nouveau.net/spip.php?article593).

[cii] Sobre a C.G.T.-SR, ver :

Claire Auzias, La C.G.T.-SR 1926-1928 : un épisode de décentralisation syndicale, Le Mouvement social suppl. 144 (1988).

Jérémie Berthuin, La C.G.T.-SR et la révolution espagnole De l’espoir à la désillusion Juillet 1936-décembre 1937, Ed. C.N.T.-RP, 2000 (ISBN 978-2-9504-9487-0).

Pierre Besnard, Les syndicats ouvriers et la révolution sociale, Paris, 1930.

Pierre Besnard, Le monde nouveau, C.G.T.-SR, 1936.

Michel Laguionie, 1924 — 1939, l’échec de la troisième C.G.T. (C.G.T.-SR) à Limoges.

[ciii] Introdução de A. Shapiro ao discurso de Pierre Besnard no Congresso Anarquista International de 1937. http ://monde-nouveau.net/spip.php?article588.

[civ] Myrtille, Giménologue, Les chemins du communisme libertaire en Espagne 1868-1937, vol 2, p. 148. Éditions Divergences, 2018.

[cv] Sobre os debates extremamente vigorosos entre partidários e opositores das federações da indústria na C.N.T., veja: Myrtille, Giménologue, Les chemins du communisme libertaire en Espagne 1868-1937, ch. 5. Éditions Divergences, 2018.

[cvi] James Guillaume. L’Internationale, documents et souvenirs, Tome IV, p. 304.

[cvii] A questão da recusa da C.G.T. em participar deste congresso é muito complexa. Veja:

* Wayne Thorpe, “Towards a Syndicalist International: the 1913 London Congress”, International Review of Social History, Vol. 23, No. 1 (1978), pp. 33-78.

* Wayne Thorpe : “The Workers Themselves” : R evolutionary Syndicalism and International Labour, 1913-1923, Dordrecht/Boston/London.

* René Berthier, Le congrès syndicaliste révolutionnaire international de 1913, http ://monde-nouveau.net/spip.php?article715.

[cviii] Sendo a C.G.T. uma organização em que os mandatos eram eletivos, pouco a pouco os militantes revolucionários foram substituídos por reformistas. A corrente revolucionária sofreu assim uma verdadeira erosão. Além disso, novas federações de orientação reformista aderiram à C.G.T., ajudando a reverter o equilíbrio de forças.

[cix] Victor Renard, delegado (guesdista) dos trabalhadores do setor têxtil, congresso de Amiens, 1906.

[cx] Ralph Darlington, Radical unionism, capítulo I. Haymarket Books, 2013.

[cxi] Curiosamente, Besnard se encontra por trás dos princípios do anarco-sindicalismo, na medida em que não faz referência aos sindicatos locais (e à federação destes em um nível mais amplo) na administração horizontal e geográfica, da sociedade pós-revolucionária. Lembremos que Bakunin descreveu uma estrutura composta pela federação de sindicatos, que ele chamou de “sections de métier”, e a federação de “seções centrais”, ou seja, o equivalente a bourses du travail ou sindicatos locais. (comentário de René Berthier).

[cxii] Esta é uma mensagem endereçada por Pierre Besnard aos líderes da CNT e da FAI que envolveram suas organizações na colaboração ao governo. (Nota de René Berthier)