Filmes, digressões e a forja dum outro porvir por Inaê Diana Ashokasundari Shravya

Esta semana me deparei com uma postagem que dizia, mais ou menos, que o filme Mad Max se passa no ano de 2021. Não sei qual era o intuito da pessoa, mas o caso é que fiquei pensando nisso e em como os filmes, a arte cinematográfica, se relaciona com as relações sociais, os problemas que são levantados numa determinada época, além de como se relaciona com a forma de produção capitalista.

O primeiro filme da quadrilogia Mad Max foi criado em 1979 no contexto australiano. Ele é ambientado no ano de 2021. Os acontecimentos basicamente se dão em decorrência da escassez de água, combustivel fóssil e energia. Isto me interessa mais do que o protagonista, Max “Mad” Rockatansky, um policial rodoviário interpretado por Mel Gibson Quando se lembra do filme, costumam vir à mente um cenário pós-apocalíptico, personagens insanos, paisagens desérticas, povoados considerados selvagens utilizando máquinas, suor e graxa se misturando e reluzindo sob o sol, dentre outros elementos mais que caracterizam uma distopia. E não é à toa, pois isso realmente diz respeito ao enredo. O que não se costuma levar em conta, é que os filmes não são criações isentas do meio social no qual se encontram inseridos, e, neste sentido, o filme Mad Max tem algo a nos dizer, bem como outros filmes, não por haver uma mensagem subliminar, mas porque filmes, bem como qualquer arte, costumam refletir aspectos da sociedade em que se encontram.[1]

Segundo Proudhon, “a arte faz de tudo um instrumento ou uma matéria, desde a mais simples figura de geometria até as flores mais esplêndidas, desde a folha de acanto esculpida sobre o capitel coríntio até a pessoa humana talhada em mármore, fundida em bronze ou erigida em divindade. Toda a vida vai cercear-se de arte: nascimento, casamento, funerais, colheitas, vindimas, combates, partida, ausência, regresso, nada acontecerá, nada se fará sem cerimônia, poesia, dança ou música (…) Tudo se lhe torna ocasião ou pretexto: uma pomba fugitiva, um pardal morto, uma mosca esmagada lhe inspiram uma obra-prima”. Paisagens desérticas, briga por combustível fóssil e água, o nomadismo – que pode ser traduzido como imigrações – em busca de alimentos e território propício à vida, também são transformados em obra-prima, como é o caso de Mad Max. Considerando que o filme foi lançado em 1979, muito provavelmente sua realidade se passa na década em que nos encontramos. Três anos depois viria às telas de cinema o filme Blade Runner (1982), baseado na obra Do Androids Dream of Electric Sheep?, de autoria de Philip K. Dick, girando em torno da discussão sobre o que é um ser vivo, ambientado num cenário distópico, cuja data é novembro de 2019. A poluição do ar, a diferença intensificada entre classe dirigente e classe operária, a presença marcante de elementos das culturas asiáticas – fenômeno este que será posteriormente chamado tecno-orientalismo, que estabelece uma relação entre as culturas asiáticas e uma tecnocracia insana; o que exemplifica bem isso é o mangá Akira, escrito e desenhado entre os anos 1982 e 1990, o que nos possibilita identificar que existia nesse período uma inclinação a identificar a Ásia como potência econômica emergente antes mesmo da seguinte declaração de Deng Xiaoping, datado de 24 de outubro de 1988: “Não importa quando: ontem, hoje ou amanhã, China deve desenvolver suas próprias ciências e tecnologias sofisticadas e ocupar certo lugar no terreno de altas ciências e tecnologias do mundo. Se a partir dos anos 60, a China não tivesse chegado a possuir as bombas atômica e de hidrogênio, nem lançado satélites, não poderia ter se chamado grande potência de influência significativa nem ter a posição internacional que tem agora. Essas coisas refletem a capacidade duma nação, e também são um símbolo da prosperidade e desenvolvimento duma nação e dum país.”[2]

No dia 3 de janeiro deste ano, o romancista Richard Flanagan escreveu num artigo para o The New York Times intitulado “Australia is committing climate suicide” (a Austrália está cometendo suicídio climático): “As imagens dos incêndios são um cruzamento entre “Mad Max” e “On the Beach”: milhares diriginds para as praias numa névoa laranja opaca, quadros lotados de pessoas e animais quase medievais em seu estranho mutismo – meio Bruegel, meio Bosch , rodeado por fogo, rostos de sobreviventes escondidos atrás de máscaras e óculos de natação. O dia se transforma em noite quando a fumaça apaga toda a luz nos horríveis minutos antes que o brilho vermelho anuncie a iminência do inferno. Chamas saltando 60 metros no ar. Tornados de fogo. Crianças aterrorizadas ao leme de botes, fugindo das chamas, refugiados em seu próprio país”. Ele se referia aos incêndios ocorridos na Austrália naquele período. Contudo, apesar de todo o alarde que se faz em torno dos problemas ocasionados pelo aquecimento global, ignora-se o responsável pela relação exploratória que estabelecemos com o ecossistema planetário, reduzindo-o a mero depósito de extração: o capitalismo.

Se Mad Max parece ter se tornado real, é porque não compreendemos que o artista é sensível à realidade social na qual vive. Sensível no sentido de ser afetado pelo que ocorre no seu meio social, embora muitas vezes não esteja consciente do quão se encontra imergido no imaginário social. A disseminação da distopia encontra condições que lhe são favoráveis no contexto do neoliberalismo. “Não há alternativa” (TINA, em inglês), dizia Tatcher, resumindo o neoliberalismo. De fato, para o imaginário social do neoliberalismo, só há um caminho a ser traçado, e ele é desolador, deprimente, embora a cultura de consumo apresente um caráter utópico com as propagandas de famílias sempre felizes, de pessoas vivendo alegremente suas vidas, como se os problemas tivessem sido eliminados. Com certeza a cultura de consumo de caráter utópico – cabe dizer que, embora manifeste um caráter utópico, ela só faz sentido num cenário distópico – diz respeito às nossas vidas precárias à medida em que compreendemos: as nossas vidas são uma merda. Não uma merda porque assim devem ser, por um delírio metafísico, mas por conta do sistema exploratório no qual vivemos.

Mas a relação entre arte e imaginário social não é algo exclusivo do Mad Max. Filmes, séries e quadrinhos sobre zumbis, como Walking Dead, Reality Z, a franquia de jogos Resident Evil, se pararmos para analisarmos bem, dizem sobre uma realidade já existente: o aumento da fome e da miséria. As fomes insaciáveis dos zumbis e as suas roupas maltrapilhas de zumbis são representações da realidade de muita gente. Num artigo publicado no dia 16 de outubro – considerado o dia mundial da alimentação – deste ano no site da EcoDebate, José Eustáquio Diniz Alves escreve: “o número de pessoas passando fome ou subnutridas estava acima de 1 bilhão de pessoas no início da década de 1990 e caiu para 784 milhões nos anos de 2014 e 2015. Contudo, a tendência de queda foi revertida e o número subiu para 821 milhões em 2018. Os números continuam caindo na Ásia, mas sobem na América Latina e Caribe e na África Subsaariana.”[3]. Continuando: “Um estudo recente da Oxfam Internacional, realizado por conta da pandemia de covid-19, advertiu sobre o aumento da fome no planeta em função do surto pandêmico do novo coronavírus que gerou uma grande recessão global e lançou milhões de pessoas na pobreza extrema.

De acordo com dados da organização não governamental britânica, a crise alimentar que já vinha se acirrando nos últimos anos vai se agravar até o fim de 2020, pois um montante entre 6,1 mil e 12,2 mil pessoas poderão morrer diariamente de fome em decorrência dos impactos socioeconômicos da pandemia.”

A massa de famintos, de miseráveis, é transfigurada no regime neoliberal como zumbis, mortos-vivos, criaturas inconscientes de sua condição, que não conhecem outra coisa que o imediato. Cabe mencionar também que o processo de se tornar morto-vivo se dá via contágio, o qual muitas vezes é apontado como possuindo um caráter pandêmico, como é o caso da série Reality Z, disponível na Netflix. Na década de 90 a Organização das Nações Unidas (ONU) previa o aumenta de favelas até o ano de 2020, não só no chamado terceiro mundo, mas também no primeiro mundo, o que a OTAN respondeu com o projeto de reforma urbana Urban Operations in the Year 2020.[4] Com exceção, talvez, da série Walking Dead, os protagonistas costumam ser militares, como ocorre nos jogos Resident Evil, bem como personagens heteronormativos. A cidade destruída dos mortos-vivos não foi destruída por estes, mas pelo que não é mencionado, uma força externa que não costuma ser nomeada. A respeito da cidade caótica e destruída povoada de mortos-vivos, eu recordo uma passagem do Fanon sobre a cidade do colonizado, expondo como o poder de morte[5] opera: “A cidade do colonizado[…] é um lugar de má fama, povoado por homens de má reputação. Lá eles nascem, pouco importa onde ou como; morrem lá, não importa onde ou como. É um mundo sem espaço; os homens vivem uns sobre os outros. A cidade do colonizado é uma cidade com fome, fome de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma vila agachada, uma cidade ajoelhada”.[6] Contraste esta imagem com a duma cidade devastada por mortos-vivos. Eu não estou dizendo que o morto-vivo foi criado no neoliberalismo, mas sim que a sua representação social dentro do regime neoliberalismo atende a certos critérios, bem como a literatura vampiresca em que um cientista mata o vampiro condizia com a ascensão da burguesia – representada no cientista – sobre a aristocracia – representada no vampiro. Com o aumento da miséria, qualquer pode ser contagiado, se tornar um morto-vivo e ser eliminado. A massa de mortos-vivos é também a massa de desempregados, dos fodidos, dos abjetos. Embora na série Reality Z haja entre os protagonistas uma mulher negra, um detalhe interessante de se notar é que, logo no começo, seguidamente, duas integrantes do reality show são transformadas em mortos-vivos: uma negra gorda e uma mulher trans. Só mais pra frente é que os personagens mais dentro de padrões heteronormativos e brancos são transformados em mortos-vivos. De qualquer forma, o que é certo em filmes, séries, quadrinhos sobre mortos-vivos, é que eles devem ser eliminados, pois constituem uma ameaça. A sua incapacidade de estabelecer qualquer forma de diálogo diz mais sobre sua condição de Outro. Sobre essa outremização transfigurada no morto-vivo, me aproprio das palavras do Mbembe: “a percepção da existência do Outro como um atentado contra a minha vida, como uma ameaça mortal ou perigo absoluto, cuja eliminação biofísica reforçaria meu potencial de vida e segurança, é este, penso eu, um dos muitos imaginários de soberania”.[7]

Aproveitando o gancho sobre extermínio populacional, podemos também mencionar o personagem Thanos, cuja primeira aparição se deu no número 55 do “Iron Man” de fevereiro de 1973, mas que se tornou mais conhecido – pelo menos fora do meio geek – após sua aparição nos filmes do Universo Cinematográfico Marvel: como participação especial nas cenas pós-crédito em Os Vingadores (2012), algumas aparições em Guardiões da Galáxia (2014),  Vingadores: Era de Ultron (2015); como antagonista principal em Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Vingadores: Ultimato (2019). Thanos junta as jóias do universo para aniquilar metade da vida do universo, pois, num primeiro momento ao que tudo indica, ele acha que existe um excedente populacional. Eu não contarei aqui como se dão as lutas, mas, o que importa é que, ao final, descobre-se que a vontade do Thanos era, na verdade, que o matassem. Eu não sei dizer até que ponto o possuidor da manopla também poderia ser eliminado quando solicitasse que metade da vida do universo sumisse, pois não há, ao menos não de maneira notável, um critério de seleção de quais vidas serão eliminadas -e o próprio Thanos não tem ciência de quais vidas seriam eliminadas, o que me leva a supor que, se ele não almejava a própria derrota, o que ele almejava era que dentre as vidas eliminadas estivesse a dele. Mas não é isso que ocorre. Thanos é a representação do Estado. O Estado possui um caráter paradoxal, que é o seu caráter suicida, ou, como nos diz Foucault: ““(…) o que faz com que o poder atômico seja, para o funcionamento do poder político atual, uma espécie de paradoxo difícil de contornar, ou mesmo absolutamente incontornável, é o fato de que, no poder de fabricar e de utilizar a bomba atômica, pôs-se em cena um poder que é o de eliminar vida como tal (…) e de se auto-suprimir, consequentemente, como poder de manter a vida”.[8] Thanos é o Estado fazendo uso de seu poder atômico para eliminar populações e a si mesmo. O filme surge bem num momento em que se discute sobre bombas atômicas. Também é interessante que os próprios Estados Unidos tenham sido o local de produção do filme, pois foram os mesmos Estados Unidos que lançaram as bombas atômicas Little Boy e Fat Man[9]. É como se os Estados Unidos estivessem tentando comunicar sobre uma possível ameaça nuclear, mas ignorando sua participação na dizimação das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, e transferindo a ameaça para outros países, talvez a Coreia do Norte ou a Rússia. Thanos é a personificação do Estado de Exceção, do retorno do discurso malthusiano de que o aumento populacional é a verdadeira causa do aumento da fome e da miséria.

Ainda sobre o poder atômico, Guilherme Castelo Branco diz o seguinte que “se pensarmos no estoque de bombas de hidrogênio, e do potencial de destruição absoluta de toda e qualquer forma de vida da vida no planeta, temos que reconhecer que o limiar do Estado, seu ponto máximo, é seu poder de destruição total, de caráter totalmente suicida”. O Estado é uma máquina suicida. Guilherme continua, citando Foucault: “o caráter suicida do Estado chega a seu ápice paradoxal na fabricação de “(…) vírus incontroláveis e universalmente destruidores””.

“Foucault aponta, ademais, para um dos poderes mais importantes da atualidade, que realiza eliminação indireta e burocrática: a seguridade social.10 As tomadas de decisão no campo da seguridade social podem levar as pessoas a condições de extrema fragilidade e impotência, e leva as pessoas a viver em um estado de constante temor. Fazer com que certas pessoas ou grupos sociais passem a não ter mais direito a certos benefícios, ou — o que é mais terrível, a não ter mais direito a um determinado atendimento médico quando eventualmente necessitar, eis uma situação à qual todos nós estamos vulneráveis. Tal processo intimidador leva as pessoas a um estado de submissão perante chantagens e humilhações, em nome de uma possível segurança, que por sinal nunca se mostra categórica, quando se trata de dar segurança aos trabalhadores, dependentes que são do sistema de seguridade social. O modo de vida das pessoas passa a ser cerceado e vigiado, padrões de normalização são crescentemente postos em ação, pessoas cada vez mais dependentes e assujeitadas são postas e dispostas pelas sutis tecnologias de poder existentes na era do controle e da governamentalidade. As pessoas passam a ser responsabilizadas pelos efeitos médicos e legais da vida que levaram ou ainda levam — se contrárias ao padrão desejável — e podem ser excluídas, caso não se adequem às regras do jogo burocrático e político. E estas regras de seguridade, lembremos, são fluidas, móveis, e nunca deixamos de estar fora de uma possível e eventual situação de risco, que pode nos expor a dificuldades e ao desamparo. Por outro lado, temos a tendência à intimidação dos doentes que não seguem à risca suas dietas e comportamentos durante um tratamento médico, que podem passar a não ter mais atendimento, caso não se comportem como foi determinado.”[10]

O psicólogo social romeno Zevedei Barbu, num ensaio seu intitulado “Perspectivas Sociológicas em Arte e Literatura”, diz que “sempre que um estudioso da sociedade, seja ele um historiador ou um sociólogo, utiliza elementos extraídos da literatura ou de obras de arte em geral, admite, implicitamente, um certo grau de correspondência entre dois tipos de fenômenos concernentes a dois níveis da atividade humana – o real e o imaginário. Porque, não é preciso dizer, ele está interessado nas representações literárias e artísticas apenas na medida em que isso lhe permite aumentar ou clarificar seu conhecimento dos fatos sociais. Assim, enquanto o crítico de arte ou literatura pode tornar-se genuinamente interessado na “sociedade” dos romances de Jane Austen ou das pinturas de Chardin, o historiador ou o sociólogo o faz apenas na medida em que isso lhe diz alguma coisa sobre a sociedade em que Jane Austen ou Chardin viveram”. Embora eu faça uso da história para entender certos aspectos sociais, eu sou uma filósofa, e, enquanto tal, me preocupo em diagnosticar a sociedade em que vivo. Os filmes não deixam de ser explanações de situações que já ocorrem, que dizem respeito às nossas vidas. Há em toda arte cinematográfica uma série de características de background dum período ou duma sociedade que, se não analisadas, teriam permanecido imperceptíveis. Podemos dizer que, embora o diretor não tenha a intenção, certos problemas podem ser levantados com o filme. Tornar-se consciente desses elementos que operam, num primeiro momento, imperceptíveis, permite levantar problemas, não atomizando o filme como sendo o responsável por uma “conscientização” ou por certos comportamentos, mas sim o compreendendo como efeito da sociedade em que se encontra. Dizer isso não é suficiente, mas, como diz Barbu, “o problema é demonstrá-lo, ou seja, identificar alguns processos básicos que regulam a relação entre arte e sociedade, e, acima de tudo, formular os principais instrumentos conceptuais através dos quais tal relação possa ser interpretada”. Essa tarefa não é de modo algum fácil, exigindo um certo esforço da parte de quem realiza a investigação. O que nos diz Mad Max? De que maneira nos diz? O que nos diz o filme Vingadores: Ultimato? De que maneira nos diz? É preciso levar em conta, referenciar o background cultural, isto é, as crenças, concepções e normas dominantes, dos países em que esses filmes foram produzidos. Mad Max não é um filme sobre o futuro, mas sobre o que pode acontecer se nada for feito no presente. O que e como deve ser feito, é algo que precisamos pensar – e com bastante cuidado, de maneira criteriosa. Não faz muito tempo que lidamos com a greve dos caminhoneiros, a qual, inclusive, não foi levada a sério por inúmeras organizações de esquerda, algumas chegando a chamá-la de reacionária. Os grevistas se manifestaram contra os reajustes frequentes e sem previsibilidade mínima nos preços dos combustíveis, principalmente do óleo diesel, realizados pela estatal Petrobras com frequência diária, pelo fim da cobrança de pedágio por eixo suspenso[11] e pelo fim do PIS/Cofins sobre o diesel[12]. O clima desértico pode se tornar uma realidade do Brasil se continuarmos do jeito que estamos: o número de queimadas na Amazônia neste ano já passa o número registrado em todo o ano de 2019[13]. As consequências disso é o aumento da poluição do ar, o que implica o aumento de doenças respiratórias, bem como dos mosquitos do gênero Aedes, vetores de doenças como a dengue, chikungunya, febre amarela e zika. Aproveitando o gancho do mosquito, no início do ano nos deparamos com uma crise hídrica no Estado do Rio de Janeiro. Um trecho da nota emitida pelo grupo de trabalho da UFRJ diz o seguinte: “A constatação de que há contaminação por esgotos sem tratamento no manancial utilizado para captação da água pela ETA Guandu já era de conhecimento público e, de acordo com a mesma nota técnica, já estava destacada como um dos pontos centrais para a preocupação com a segurança hídrica”[14]. Na água havia a presença de geosmina, que é um excelente berçário para o mosquito Aedes aegypti.

O problema de distopias como Mad Max é que elas naturalizam a ideia de que não existe uma alternativa. Movimentos como os de caráter “primitivista”, isto é, que reivindicam um primitivismo que só faz sentido nos seus delírios racistas, ajudam a consolidar esse tipo de naturalização da desgraça em vez de levantar problemas. Daí ocorre que o próprio sistema capitalista levanta problemas e ele próprio propõe as soluções. Isso fica notável quando o empresário faz propaganda pedindo que evitemos o desperdício de água ao escovarmos os dentes, ao passo que uma indústria gasta toneladas para a produção de algo descartável; ou quando surgem propagandas para aderirmos ao estilo de vida minimalista, que nada mais é do que a naturalização da miséria. É preciso tomarmos cuidados para não cairmos nesses falsos problemas levantados por empresários e prestarmos atenção aos problemas que são levantados, embora, como já disse, na maioria das vezes sem intenção do autor, em produções culturais, ou, como diz Marx: “a humanidade nunca levanta a si própria problemas que não possa resolver, porque, observando com cuidado, verificar-se-á sempre que o próprio problema só surge onde já existem as condições materiais para o resolver, ou onde, pelo menos, então em vias de surgir”.[15] E aí podemos nos questionar: estamos de fato pensando em soluções ou criando condições de possibilidade para a sua realização, ou estamos apenas aderindo a soluções já prontas, as quais poderiam muito bem constar em propagandas publicitárias? A posição que desejamos assumir é a de revolucionáries ou a de meros reformadores sociais? Acreditar que é possível “voltar ao passado” – um passado místico, que nunca existiu, exceto nos nossos delírios racistas – é mais eficiente do que se empenhar em criar uma nova sociedade, uma nova ordenação do mundo?

Notas

[1]  A respeito disso, sugiro a leitura do texto The Wandering Earth: A Reflection of the Chinese New Right, de Yuyan. Nele, o autor aponta a relação entre o filme e o advento dos cibernacionalistas chineses. Infelizmente não encontrei a tradução para o português. O texto em inglês encontra-se disponível em: http://chuangcn.org/2019/08/wandering-earth/ 

[2]China debe ocupar cierto lugar en el terreno de altas ciencias y tecnologias del mundo. in: Textos escogidos de Deng Xiaoping: Tomo II (1982-1992). Tradução minha para o português.

 [3] Cf. Dia Mundial da Alimentação 2020: aumenta a fome no mundo. Disponível em: https://www.ecodebate.com.br/2020/10/16/dia-mundial-da-alimentacao-2020-aumenta-a-fome-no-mundo/

[4]  A respeito disso, sugiro a leitura de “Ejércitos en las calles: Algunas questiones en torno al informe “Urban Operations in the Year 2020” de la OTAN. Disponível em: https://translationcollective.files.wordpress.com/2010/05/ejercitos_en_las_calles.pdf

 [5] A respeito dos modos de operação do poder de morte, sugiro a leitura do livro “Necropolítica”, do Achille Mbembe.

 [6] Frantz Fanon, The Wretched of the Earth. Trad. C. Farrington. Nova York: Grove Weidenfeld, 1991, p.39.

  [7] Achille Mbembe. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: N-1, 2018. P. 20.

[8]  Ver Michel Foucault. Em Defesa da Sociedade.

 [9]A respeito disso, sugiro a leitura do artigo “As bombas atômicas podem dizimar a humanidade – Hiroshima e Nagasaki, há 70 anos”, de autoria de Okuno Emico. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142015000200209&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

  [10]Guilherme Castelo Branco. Governamentalidade, excessos de poder, lutas pela vida.

[11]«Representante de caminhoneiros em MT diz que greve não se resume à redução do diesel e cita outras reivindicações». G1

[12]«Líder dos caminhoneiros diz que greve só será suspensa com fim do PIS/Cofins sobre diesel». O Globo. 24 de maio de 2018

[13]https://g1.globo.com/natureza/amazonia/noticia/2020/10/22/queimadas-na-amazonia-em-2020-passam-numero-de-todo-o-ano-de-2019.ghtml

[14]https://conexao.ufrj.br/2020/06/05/grupo-de-trabalho-da-ufrj-que-analisou-crise-hidrica-do-rio-emite-nota/

[15] Karl Marx, Prefácio à “Contribuição para a Crítica da Economia Política”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

NO ENTRY FEE FESTIVALS

a blog about festivals without an entry fee

RIPA Design

redescobrindo madeiras

Portal Anarquista

pelo apoio mútuo e pela autogestão

Passa Palavra

Just another WordPress.com site

%d blogueiros gostam disto: