INSTITUTO DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS ENTREVISTA GUALTIERO MARINI

Janeiro de 2023

Gualtiero Marini

1) Quem é Gualtiero Marini?

Um italiano “auto-exilado” que chegou no Brasil em 2011 e que pouco tempo atrás descobriu que sua bisavó paterna nasceu numa pequena cidade de Minas Gerais, no final do século XIX. O ciclo eterno das migrações na sociedade capitalista às vezes surpreende de forma positiva… No meu caso, a crise econômica de 2008 foi uma das principais razões que me forçaram a deixar a Itália e, graças a um contato na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), tive a oportunidade de fazer um doutorado em Ciência Política e descobrir esse país maravilhoso que se tornou minha nova casa. Apaixonado pela filosofia, pela política e pela música (em vinil, melhor), professor de italiano por profissão e pós-doutorando em História na Universidade Federal de São Paulo por prazer e necessidade.

2) Como se deu a sua aproximação com o anarquismo?

Na adolescência já participava das atividades políticas (de matriz comunista), no âmbito dos grêmios estudantis e da cena punk local, aliás muito local já que o lugar onde eu cresci é uma pequena cidade litorânea perto da França, conservadora e pouco interessada na cultura em geral. Fiz graduação e mestrado na Filosofia em Bolonha entre 2003 e 2010, quando a cidade ainda vivia uma fase de grande criatividade cultural e política. Ali, graças a algumas ótimas amizades e ao clima de efervescência da cidade, me aproximei logo às ideias e às práticas do anarquismo clássico e contemporâneo, de Bakunin ao ecologismo radical, passando pelo situacionismo e os “grupos de afinidade”, mas nunca aderi à nenhuma organização, nem mesmo informal.

Do ponto de vista acadêmico, pude dar continuidade aos meus interesses só no doutorado realizado na UNICAMP, quando resolvi pesquisar o nascimento do anarquismo na Itália focando minha atenção nas figuras de Carlo Cafiero, Errico Malatesta e Andrea Costa. Ainda hoje continuo minha pesquisa de pós-doutorado sobre a biografia de Cafiero, cuja trajetória intelectual e política acho essencial para compreender a formação do pensamento e do movimento anarquista.

3) Sobre a sua pesquisa envolvendo a formação do anarquismo italiano no século XIX, quais seriam as principais características deste movimento?

Resumindo, eu poderia responder: o anseio pela revolução. O socialismo italiano do século XIX, pelo menos até a década de 1880 sempre foi revolucionário, basta pensar em figuras como Carlo Pisacane, Giuseppe Mazzini ou Giuseppe Garibaldi. E boa parte dessa herança do período do Risorgimento foi resgatada pela juventude que formou as seções italianas da Associação Internacional dos Trabalhadores. Nessa mesma fase, outros dois fatores foram decisivos: a passagem de Bakunin na Itália, no final da década de 1860 e a proximidade geográfica com a Suíça, que naquele momento se tornava um ponto crucial pelo desenvolvimento do movimento anarquista internacional. Do outro lado, não pode se ocultar o relevante papel da ideologia marxista, mais conhecida na Itália, no começo da década de 1870, cujos contrastes com o pensamento anarquista contribuíram em definir teoricamente esse último. Nesse sentido, a biografia de Carlo Cafiero é exemplar: admirador de Pisacane, em contato com Engels, amigo íntimo de Bakunin e tradutor e divulgador da obra de Marx.

Mas a formação do anarquismo italiano foi caracterizada sobretudo por um interesse eminentemente prático, mais do que teórico, já que quem tinha acesso ao conhecimento dos livros e das ideias ainda era uma exímia minoria do movimento. O desejo radical de mudança, até mesmo por meio de ações violentas, foi uma das características principais da primeira fase do anarquismo italiano, como demonstram as tentativas insurrecionais de 1874 e 1877 ou a tentativa de regicídio de 1879. As atividades sindicais eram presentes, mas, na maioria dos casos, imitavam a função das sociedades de socorro mútuo, criando redes de apoio para os trabalhadores e as classes indigentes. Sem dúvida, uma das características mais interessantes desta primeira fase, mesmo se limitada, foi a criação de jornais e revistas através dos quais divulgar as ideias, manter contatos com os militantes e formar assim uma rede internacional de comunicação no seio do próprio movimento.

4) Como se deu a relação destes anarquistas com o coletivismo de Bakunin? Como teria se dado a transição do coletivismo para o anarco-comunismo no caso dos anarquistas italianos?

É oportuno lembrar que naquela época, mesmo nos ambientes mais politizados, as informações sobre as ideias dos grandes pensadores ainda eram poucas e provavelmente de segunda mão. Por isso, creio que os elementos que mais despertaram a atenção dos jovens italianos que entraram em contato com as ideias de Bakunin foram o anti-autoritarismo e o anti-estatismo, pois, de forma geral, todos concordavam sobre a necessidade da luta revolucionária por uma sociedade mais justa e igualitária, preconizada também pelo comunismo. O que boa parte dos membros da Primeira Internacional italiana criticavam, como é possível constatar nas cartas e nos artigos de então, era justamente o papel central do Estado no projeto pós-revolucionário do comunismo, seu “burocratismo” e os limites de uma visão exclusivamente classista do processo revolucionário, por este motivo considerada autoritária. De fato, a “sorte” da Primeira Internacional na Itália se deu principalmente em regiões “periféricas” do país, penso sobretudo nas cidades de Nápoles e Bolonha, ambas caracterizadas por razões históricas por um forte sentimento anti-estatal e revolucionário. Do outro lado, os internacionalistas anti-autoritários, mesmo reconhecendo a necessidade de organizar em primeiro lugar a luta operária e camponesa, tinham em muitos casos uma visão mais ampla, aceitando na luta revolucionária a presença de qualquer elemento da sociedade sinceramente disposto a lutar pelo mesmo fim.

A passagem do coletivismo ao anarco-comunismo é uma questão, como se diz em italiano, de lana caprina, ou seja, é apenas um esclarecimento terminológico que eles acharam necessário oficializar para marcar a distância com o coletivismo clássico, onde o produto do trabalho seria compartilhado conforme a quantidade de trabalho realizado por cada um e não “conforme suas necessidades”. Na verdade, creio que muitos já concordassem sobre esse ponto sem ter a exigência de se chamar de “anarco-comunistas”.

5) Nos fale um pouco da genealogia dos grupos de afinidades de matriz italiana? Qual o papel dos grupos de afinidades na adesão à “propaganda pelo fato” nas décadas de 1870 e 1880?

Talvez seja um pouco forçado, de um ponto de vista historiográfico, falar de grupos de afinidades com referência aos núcleos de internacionalistas mais próximos a Bakunin, mas, mesmo se de forma um pouco “primitiva”, era disso que se tratava. O russo tinha uma queda pelas sociedades secretas (revolucionárias), minúsculas ou pequenas que fossem, e foi isso que tentou realizar também naquele contexto. Há documentos que comprovam a existência de uma sociedade “Y”, criada em 1872 por internacionalistas espanhóis, italianos e suíços, que agia dentro e fora da Internacional oficial, mas com propósitos mais radicais e na tentativa de influenciá-la. No caso italiano, isso resultou na criação do Comitê Italiano pela Revolução Social, que era nada mais que o núcleo de bakuninistas italianos que publicava de forma clandestina textos violentos e que preparava o terreno para os motins de 1874. Obviamente essa foi a manifestação mais evidente da atuação desses núcleos íntimos, mas há muitos exemplos parecidos também no que diz respeito à criação de jornais, à organização das seções e dos congressos da AIT, à organização de greves ou até à criação de escolas populares. Por outro lado, esses núcleos formavam uma rede de solidariedade oculta que se demonstrou bastante eficiente para todas as atividades clandestinas realizadas: penso na publicação de textos que não poderiam aparecer nos jornais ligados à Internacional, na organização dos motins ou no acobertamento de membros em fuga. No caso do motim de 1874 em Bolonha, por exemplo, os insurgentes conseguiram acessar e saquear o arsenal militar da cidade e libertar os presos políticos graças à conivência de algum funcionário do Estado. Essa primeira fase serviu de aprendizado para a adoção, declarada explicitamente já a partir do final de 1876, da chamada “propaganda pelo fato”, onde a atuação desse núcleos de afinidades ficou ainda mais evidente. E se o primeiro episódio dessa nova modalidade de atuação dos anarquistas pode ser considerado o levante no sul da Itália de 1877, foi sobretudo nas décadas de 1880 e 1890 que a propaganda pelo fato protagonizou na Europa inteira atentados contra autoridades e regicídios. Por fim, de um ponto de vista ideológico, é oportuno lembrar a forte influência do niilismo russo sobre a adoção dessa nova tática, graças também aos muitos exilados políticos presentes na época no território suíço.

6) Sobre as consequências históricas da fase “insurrecionalista” para o anarquismo, o que você teria a nos dizer?

Todo anarquista é revolucionário. Por isso creio que, de alguma forma, o elemento “insurrecional” sempre fez parte do anarquismo, com consequências mais evidentes nos períodos de crise política mais aguda. A consciência de que o ato insurrecional, o gesto de revolta, mesmo se isolado, tem o potencial para desencadear outras tentativas de emulação, sempre foi bem clara aos militantes anarquistas, até aos anarcopacifistas (com as devidas diferenças). Óbvio, no século XIX a amplitude da sociedade de controle e repressão não era a mesma de hoje e deixava mais espaço de manobra ao militante envolvido em tais acontecimentos. Mesmo assim, ainda hoje há correntes prevalentemente insurrecionais dentro do próprio movimento anarquista, obrigadas a agir na clandestinidade quase total: não penso apenas nas atividades dos black blocs nos protestos de rua, mas também nos atentados e sabotagens realizados por grupos ecologistas, animalistas ou simplesmente por “grupos de afinidades”. Depois da época da luta armada, o exemplo mais concreto é a Federação Anarquista Informal (FAI), presente sobretudo na Europa e na América Latina, responsável por sabotagens e atentados que, quando contra as pessoas, raramente tiveram êxito. Justo nesses dias, veio à tona na mídia mainstream italiana o caso de Alfredo Cospito – membro da FAI condenado há dez anos de prisão, depois de um atentado contra o chefe da principal empresa de energia nuclear do país –, que entrou em greve de fome há três meses para denunciar as condições inumanas do mais rígido regime carcerário italiano, o 41-bis. Portanto, a semente do “insurrecionalismo” plantada mais de 150 anos atrás ainda está dando seus frutos, talvez sem chegar ao mesmo nível de violência alcançado pela “propaganda pelo fato” nos últimos vinte anos do século XIX, mas mantendo intacto seu profundo significado de revolta.

7) Como você se situa no anarquismo contemporâneo? Acha importante recuperar as linhagens históricas da ideologia anarquista?

Um anarquista do século XIX vivendo na época errada. Brincadeiras à parte, sim, acho muito importante pelo menos conhecer a origem filosófica e histórica do anarquismo, pois os problemas atuais, mesmo levando em conta a maior complexidade da sociedade contemporânea, não são muito diferentes daqueles que, no passado, levaram a pensar novas ideias e propor novas soluções. De forma geral, me considero longe de uma visão pacifista do anarquismo e, mesmo não sendo contrário a priori ao organizacionismo, simpatizo pelas vertentes insurrecionais e pelas temáticas ecologistas e antiespecistas do anarquismo contemporâneo.

8) Suas considerações finais.

Quero agradecer o Alexandre pelo gentil convite, pela paciência em organizar essa entrevista e pela pertinência das questões propostas. Justo hoje que acabamos de assistir a cenas de vandalismo grotesco e ignorante, transmitidas ao vivo pela internet por golpistas de rosto descoberto, me parece necessário lembrar a genealogia e a seriedade de certas práticas que não têm nada a ver com esse episódio. Por fim, parabéns e boa sorte para as atividades do Instituto de Estudos Libertários.

Saúde e anarquia!

Publicidade

3 comentários em “INSTITUTO DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS ENTREVISTA GUALTIERO MARINI

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

Ryan C.'s Four Color Apocalypse

This Is An Imaginary Website --- Aren't They All?

NO ENTRY FEE FESTIVALS

a blog about festivals without an entry fee

RIPA Design

redescobrindo madeiras

Portal Anarquista

pelo apoio mútuo e pela autogestão

Revista Consciência

Diário fundado em 13 de maio de 2000

%d blogueiros gostam disto: